quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A Lei Iniciática do Silêncio



Por: Antonio Rocha Fadista - M.·..I.·.

Platão, chamado a ensinar a arte de conhecer os homens, assim se expressou: “os homens e os vasos de terracota se conhecem do mesmo modo: os vasos, quando tocados, têm sons diferentes; os homens se distinguem facilmente pelo seu modo de falar”.

O pensamento do filósofo Iniciado nos oferece uma excelente oportunidade para uma profunda reflexão, principalmente para todos os que integram a Ordem Maçônica.

Nem sempre nos damos conta de como nos tornamos prisioneiros das palavras que proferimos, por serem elas a expressão do poder do pensamento e da transmissão das nossas idéias e sentimentos, tornando-se assim o centro emissor de vibrações tanto positivas quanto negativas.

Existe um elemento que realmente identifica o Homem como sendo a síntese de todas as forças vitais, como o ser que interliga todos os planos, do mais denso como o mineral, ao mais sutil, como o divino, que cada um tem dentro de si. Este elemento é a palavra, intimamente ligada ao silêncio, outra sublime expressão da psique humana.

No mundo profano a palavra, falada ou escrita, é usada indiscriminadamente e muitas vezes é usada mais na prática do mal do que do bem. A sociedade humana está cheia de palavras que ofendem, que humilham, que magoam e que denigrem a honra do próximo. Se se trabalhasse mais e se falasse menos, com certeza que a humanidade teria uma vida comum mais evoluída e mais civilizada; infelizmente, existem palavras em excesso não só no mundo profano como também nos Templos Maçônicos.

Tal situação é inconcebível em um Maçom, orientado que é para refletir sobre a realidade e sobre o conteúdo oculto das palavras que, em última análise, refletem a essência interior do ser humano.

Não por acaso a doutrina Maçônica reserva o silêncio ao Aprendiz, de acordo, aliás, com a Tradição Pitagórica.

A entrada da Escola fundada pelo Filósofo de Samos, na cidade de Crotona - onde o isolamento do mundo externo era total - exibia a seguinte advertência: “Proibida a Entrada de Profanos”. Esta Escola tinha um sistema de três graus: o de Preparação, o de Purificação e o de Perfeição. Os neófitos, proibidos de falar, eram só ouvintes e cumpriam um período de observação, durante o qual a regra era calar e pensar no que ouviam. Para atingir o Mestrado, era necessário praticar o silêncio durante cinco anos.

Sem dúvida, constitui uma grande prova para todos e também para o Aprendiz, ouvir os Companheiros e os Mestres sem poder falar. Chílon, um dos sete sábios da Grécia Antiga, quando perguntado sobre qual a virtude mais difícil de praticar, respondia: calar.

No mundo maçônico, a dimensão da palavra falada e escrita não é diferente. Na Maçonaria, a relação palavra-linguagem assume tanto os fatos exteriores quanto o ato individual, como pensamento puro que se exprime através da fala ou da escrita.

No Zend Avesta, que contém toda a sabedoria da antiga Pérsia, encontramos normas e regras sobre o uso e o controle da palavra, cuja universalidade desafia os séculos.

Ao entrar em nossa Sublime Instituição encontramos, na ritualística, referências à sacralidade da palavra que, como meio de expressão dos pensamentos e dos sentimentos, deve ser sempre dosada, moderada, e espelhar o equilíbrio interno do orador. Como dizia o Irmão Dante Alighieri na Divina Comédia, exortando o personagem Metelo : “usa a tua palavra como um ornamento”.

À primeira vista, o silêncio do Aprendiz poderia parecer um condicionamento e um castigo; na realidade, o silêncio, a meditação e o raciocínio, são a única via que leva à libertação das paixões e dos maus pensamentos. Além de exercitar a autodisciplina, em seu silêncio o Aprendiz apreende com muito maior intensidade tudo o que ouve e tudo o que vê. Na realidade, o Aprendiz dialoga consigo mesmo e, neste diálogo, ele analisa, critica e tira suas próprias conclusões: em suma, pelo silêncio, a Maçonaria estimula o Aprendiz a desenvolver a arte de pensar, a verdadeira e nobre Arte Real.

Ao cruzar as portas de uma Loja Maçônica, trazendo consigo os conceitos de liberdade total, sem as restrições que lhe impõem a moral e a razão, o Aprendiz paulatinamente aprende a controlar os seus impulsos pela prática espartana do silêncio, aprimorando o seu caráter e preparando-se para ser mais um líder da Magna Obra de construção da sociedade do futuro, na qual prevaleçam a Liberdade responsável, a Igualdade de oportunidades e a Fraternidade solidária.

Tudo se resume na prática da Lei do Amor. O amor se oferece; não se pede e também não se exige. Certamente que o Grande Arquiteto do Universo ilumina e abençoa a todos os que pensam mais do que falam, pois estes espiritualizam a sua matéria, e são os Seus filhos mais diletos.

Em tempo: o Aprendiz não só pode, como deve se manifestar, principalmente quando tiver informação relevante sobre qualquer candidato à Iniciação. Basta pedir a palavra ao Vigilante de sua coluna.

Fonte: http://rosacruzes.blogspot.com

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A Maçonaria dos negros americanos


Por José Martí M:. M:.

Em 1775, um americano de raça negra com o nome de Prince Hall (1735/1807), metodista e divulgador religioso, foi iniciado em Boston na companhia de mais 14 homens livres de raça negra, numa loja de constituição irlandesa.

Prince Hall criou a primeira loja de negros da América, a Loja Africana nº 1, em 1775 e foi-lhe conferida a patente nº 495 pela Grande Loja dos Modernos de Inglaterra, dada a recusa da Grande Loja de Massachusetts.

Em 1791, esta Loja Africana nº 1 constituiu-se em loja mãe com o nome de Grande Loja Africana da América do Norte, da qual Prince Hall foi o primeiro grão-mestre. Em 1808, um ano após a morte de Prince Hall, ela adoptou o nome distintivo e emblemático de Grande Loja Prince Hall, Maçons Livres e Aceitos de Massachusetts, que dará origem à designada maçonaria de Prince Hall.

Outras grandes lojas de negros foram criadas em seguida noutros Estados que acabaram por se fundir, em 1847, com a Grande Loja Prince Hall. Hoje, esta Grande Loja conta com cerca de 500.000 membros de 5.000 lojas que se encontram repartidas em 40 Grandes Lojas autónomas, quase uma por Estado, às quais se juntam outras existentes nas Bahamas, Haiti, República Dominicana, Libéria e, surpreendentemente, 3 lojas na Alemanha criadas no decurso da II Guerra Mundial e na dependência da Grande Loja de Maryland.

A Grande Loja Prince Hall pratica os ritos mais usuais nos Estados Unidos: York e REAA.
Mantém boas relações com outras obediências maçónicas americanas de negros como as Grandes Lojas de Sto, André, do Rei David, do Rei Salomão, de Enoch, do Monte Sinai, do Monte das Oliveiras e dos Maçons do Rito Escocês de S. Jorge.

A maçonaria dos negros americanos, como reflexo dos graves problemas existentes e da radicalização do movimento negro, esteve desde o início da sua criação envolvida nas causas sociais e humanas. Para muitos maçons negros, a situação não possibilitava somente a reflexão e o exercício da caridade diante da imensidão de desafios e do aumento da miséria dos guetos.
Simultaneamente, e apesar de alguns esforços em contrário, esta situação também era devida à atitude de segregação racial persistente das lojas de brancos.

Se Prince Hall é reconhecido como o fundador da franco-maçonaria dos negros na América do Norte, ele não se limitou a esta importante intervenção. Foi um activo militante em defesa da educação, sem a qual, segundo ele, não podia concretizar-se a emancipação dos negros. Em 1777, endereçou uma petição à Corte de Justiça de Massachusetts relativa à situação criada aos negros.

Em 1792 e em 1797, como venerável da sua loja, expôs em dois discursos a sua preocupação sobre as questões da educação à qual os negros não tinham acesso. Em 1800, fundou a primeira escola para negros em Boston, após quatro anos de iniciativas empenhadas junto das autoridades da cidade.

Outros maçons negros tomaram parte nesta luta como Prince Saunders, Booker T. Washington e William Edward Du Bois. Ainda que condenando firmemente a escravidão, estes maçons mantiveram uma atitude de ponderação, apelando à moderação e procurando evitar os excessos que agudizassem os ódios entre as duas comunidades.

Du Bois, partidário de uma educação pacífica e de uma colaboração entre os americanos, promotor da igualdade de oportunidades, defendia o universalismo, a tolerância, a razão e a paciência, na perspectiva que a fraternidade acabasse por se sobrepor ao racismo.

A maçonaria de Prince Hall criou desde o século XIX estruturas mutualistas e de ajuda aos seus membros para suprir a ausência de assistência médica e social aos seus irmãos mais idosos e estendeu a sua participação aos organismos sociais profanos.

Relativamente às 50 Grandes Lojas americanas ditas WASP (White, American, Saxon, Protestant), só uma vintena reconheceu oficialmente a regularidade da Grande Loja Prince Hall do seu Estado. As outras, entre as quais a de Nova Iorque, continuam a recusar esse reconhecimento sob pretextos aparentemente formalistas.

Entre esses pretextos têm sido referidos que a recusa se baseia no artigo 3º das Constituições de Anderson, confundindo escravo e negro, ou que a Grande Loja Prince Hall deveria ter recebido a patente da Grande Loja de Massachusetts e não da Grande Loja dos Modernos de Inglaterra.
Em 1947, esta loja de Massachusetts tentou desencadear o reconhecimento, mas recuou face à aberta hostilidade das outras Grandes Lojas de brancos.

Por outro lado, as Grandes Lojas de brancos não toleram as aproximações entre a Prince Hall e as Grandes Lojas europeias continentais, como o caso da França.
São as Grandes Lojas dos Estados do sul dos Estados Unidos que permanecem em total oposição a este reconhecimento.

Esta situação insólita em pleno século XXI, ainda se torna mais inadmissível quando estamos perante lojas maçónicas. Trata-se de uma situação de clara segregação racial, em total contradição e desrespeito pelos princípios fundamentais do humanismo universal intrínsecos à maçonaria.

O humanismo, a seriedade e os bons costumes não derivam da cor da pele com que cada um nasce. Se um dos princípios da maçonaria é o respeito e a tolerância pelas opiniões diferentes, a referida contradição assume níveis de muito maior gravidade quando se distinguem seres humanos pela cor da pele.

Esta situação inexplicável naquele país tem raízes muito antigas e contornos indignos.
Bedford Forrest, que era maçom, foi um dos principais dirigentes, no século XIX, do Ku Klux Klan, organização dedicada à defesa da escravidão, da segregação racial e que ao longo das décadas tem praticado crimes hediondos que além do espancamento de negros tem assassinado vários cidadãos negros, inclusive pelo fogo. Também Albert Pike, conhecido maçon no mesmo século, foi um dos principais dirigentes do Ku Klux Klan.

A defesa dos grandes ideais humanistas, a procura do contínuo aperfeiçoamento humano, as práticas da tolerância, da fraternidade, da igualdade de oportunidades para todos e a assumpção dos grandes valores da cidadania plena e da liberdade que caracterizam o espírito maçónico não podem ser confundidos e muito menos manchados com situações como a que foi abordada.

Num momento tão delicado como aquele que as sociedades atravessam no plano internacional, com uma marcada crise de valores e de princípios humanistas e solidários, é indispensável que a intervenção maçónica seja uma referência que contribua para a melhoria e a mudança de rumos.

Fonte: http://loja.ocidente.eu/?p=93