terça-feira, 25 de agosto de 2009

Monja Coen responde sobre a morte


P - Há realmente a necessidade de uma preparação para a morte tendo como foco os doentes terminais e seus familiares?

MC - Sim e não.
De certa forma estamos todos preparados para morrer e para aceitar a morte. Faz parte de nosso processo natural. Entretanto, quanto estamos afastadas, afastados de nossa essência verdadeira?
Queremos o impossível. Nos apegamos ao que é transitório e passageiro. Criamos sofrimentos em cima de sofrimentos. Portanto se faz necessário trazer de volta a consciência de que podemos morrer bem. Por boa morte quero dizer uma morte consciente de estar morrendo e sem deixar remorsos.
É preciso lembrar aqueles que são muito apegados às formas e sons materiais, que tudo isto é passageiro, mas permanece em nós a vida dos que se vão, em nossas vidas.

P - Há uma seqüência ou uma lógica de fases do enfrentamento da morte/luto?

MC - Parece haver, dependendo evidentemente das situações. Mortes súbitas, causadas por desastres, crimes, guerras podem ter uma sequência de raiva e culpa pela incapacidade de evitá-la, tristeza e finalmente aceitação.
Contam os sutras que certa feita uma senhora desesperada carregava seu bebê morto em seus braços e pediu a ele que devolvesse a vida a seu filhinho. Buda disse que o faria se ela trouxesse a ele três sementes de sesame de uma casa onde a morte não houvesse entrado. Cheia de esperança a mãe começou a percorrer o vilarejo. E logo percebeu, que a morte havia entrado em todas as casas. Assim foi capaz de aceitar a morte de seu filho.

P - Cada pessoa tem um jeito particular de encarar a morte e o luto ou há atitudes comuns a todos, independente de sexo, idade...

MC - Somos semelhantes e não iguais. Assim sendo cada um de nós tem um relacionamento diferente com a morte e este relacionamento também se modifica conforme a situação. Alguém que esteja sofrendo muito diz que quer morrer. Assim que o sofrimento passe não se apressa mais em morrer. Todos nós, homens e mulheres, crianças e adultos, jovens e idosos, carregamos em nós o instinto da vida e o instinto da morte. Isso é comum. Como que somos educados para a morte - isso é particular, diferente, conforme culturas, etnias, e mesmo famílias ou grupos sociais.

P - Qual o significado da morte para o Budismo? Acredita-se em uma outra vida após a morte? Há linhas diferentes dentro do Budismo?

MC - "A vida é um processo em si mesma. A morte é um processo em si mesma. Assim como a cinza não volta a ser lenha, a morte não volta a ser vida." Essas palavras foram escritas pelo Mestre Zen Eihei Dogen Daiosho, fundador da tradição Soto Zen Budista no Japão do século XIII.
Há várioas linhas budistas - desde as que crêem na reencarnação como as que negam alguma coisa eterna e permanente que pudesse reencarnar.
Nada é fixo ou permanente. A vida é transitória e a morte é transitória.

P - Como a morte é encarada por seus seguidores?

MC - Eu não sei. Poderia falar de alguns alunos, algumas alunas, algumas pessoas. Um idoso, com quase noventa anos, durante o enterro de sua irmã, me confessou: "todos dizem que foi uma boa morte, pois morreu dormindo. Eu quero ver a morte. Quero morrer acordado, consciente. É a grande aventura de minha vida."

P - Para o Budismo morre é apenas um momento de transição ou é um ponto final?

MC - Não há ponto final. Não há ponto inicial. Há o Interser.
Se acreditamos na Lei da Causalidade, a morte não anula todas as causas e condições criadas durante a vida. Cada instante de vida é transição.
Como dizia nosso poeta paulistano, Cassiano Ricardo, "cada instante de vida não é mais, é sempre menos. Desde o instante em que se nasce, já se começa a morrr". Cada célula viva, cada molécula, cada partícula e sub partícula - tudo está em constante movimento e transformação. Onde começa a vida? Onde termina? Nem mesmo a Biologia moderna consegue definir. Somos vida e somos morte.

P - Como lidar com o sentimento de culpa e revolta com a perda de um filho? E dos pais? Quais as diferenças e semelhanças sob o ponto de vista do Budismo?

MC - Tudo que começa, termina. A vida é um processo terminal. Morrem bebês, morrem idosos. Meu mestre, Yogo Suigan Roshi, costumava dizer às pessoas "seja qual for a idade em que morrerem - já era tempo. Geralmente as pessoas dizem isso quando alguém morre com mais de noventa anos. Eu digo a qualquer idade."
Não podemos controlar nem a vida nem a morte. É preciso ter humildade e fazer sempre o que for mais adequado ás circunstâncias. Assim não há culpa. Assim não há revolta. Há tristeza, há saudade, há ternura. Não devemos cultivar vinganças, rancores, revoltas, culpas. Se formos éticos, éticas e cultivarmos as virtudes aceitamos a realidade e ao mesmo tempo nos tornamos transformadores, transformadoras da realidade através de nossos gestos, pensamentos e palavras.

P - Segue rituais antes e depois da morte ? Quais?

MC - Sim. No Zen Budismo da Soto Shu, ordem à qual pertenço, oramos pelas pessoas doentes, oramos pelos moribundos, oramos pelos mortos. Oramos no travesseiro onde morreram, oramos ao prepará-los para o caixão, para o velório. Oramos no velório, oramos no crematório, oramos no enterro, oramos depois do enterro, das cinzas. Oramos nos sétimos dias. Sete vezes sete. Quarenta e nove dias. Tempo em que se completa um ciclo de vida-morte. Então outro ciclo se inicia. Como ondas no mar são nossas vidas. Mas tudo é água. Causas e condições formam as ondas e cada onda é responsável e coadjuvante de outras ondas. Incessante e luminoso processo de vida,de morte, de vida, de morte, devida...

P - Como ajudar uma criança a enfrentar a proximidade da morte? O que dizer? E um adolescente?

MC - Que a flor fenece, que tudo se transforma, que morrer é bom, que todos nossos ancestrais já morreram.
Que não é preciso ter medo, mas ir, ir, sempre ir com alegria para a luz infinita, sem se lastimar, pois viveu o que tinha a ser vivido - e o que é uma vida, em meio a tantas vidas?
É preciso tirar o estigma da morte - nossa amiga e companheira, que nos acolhe, sem distinção, sem discriminação. E´é secreta, misteriosa.

P - É mais fácil aceitar a morte de idosos? É verdade que o paciente sempre sabe que irá morrer?

MC - De certa forma todos sabemos o que está acontecendo com nosso corpo, pois somos este corpo.
A questão é que nos enganamos ou gostamos de ser enganados. Claro que é mais fácil aceitar a morte de idosos - como se houvessem, com o longo tempo de vida, "aproveitado a vida". Entretanto temos um sutra que diz valer mais viver um dia corretamente do que cem anos em ilusão.
Não é o tempo (conforme nós o compreendemos) que torna a morte melhor ou pior. É a qualidade da vida que vivemos e a qualidade da morte que morremos.

P - Até que ponto vale investir na extensão da vida sem qualidade em casos terminais? É preciso viver a doença e a morte com dignidade? Como a religião e a fé contribuem para isso?

MC - Cada religião e cada grupo tem pareceres diferentes sobre casos terminais. Tenho uma amiga, a Dra. Glória Brunetti do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, com um projeto maravilhoso de construir um centro para pacientes terminais. Pacientes pobres, carentes. Porque pobres ou ricos, todos temos o direito de morrer com dignidade. Ela ainda encontra muita dificuldade em conseguir realizar seu projeto. As pessoas pensam apenas em encontrar remédios e curas para doenças. Mas a vida é um processo terminal e precisamos morrer bem, bem cuidados, bem amados, bem tratados.
Há várias pesquisas sobre a força da oração, da meditação nos processos de cura e de morte. Ajudam sim. Mas há também os ateus, as atéias, que morrem bem. Não é apenas a religião institucionalizada. É a espiritualidade e a confiança em si e na própria vida, na própria morte. Quem até hoje deixou de morrer?

P - No passado a morte envolvia maior proximidade/envolvimento da família, acontecia geralmente em casa. Hoje há um maior distanciamento, em geral acontece nos hospitais. É uma forma mais fácil de enfrentá-la?

MC - É uma forma asséptica e distante. Não queremos lidar com a dor. Nos hospitais o local para onde são levados os mortos é pequeno e escondido, nos fundos. Ninguém quer falar muito sobre os que morreram, como se fosse feio, como se fosse uma perda. Por que não temos locais lindos e públicos para acolher os mortos, para lamentar sim essa despedida, mas para reafirmar a vida em nossas vidas.
Antigamente e ainda nos locais carentes e simples, as pessoas morrem em casa, cercados de seus parentes, amigos. Pode ser mais agradável. Ou não? Será que no momento da morte isso importa muito? Talvez não. Mas, importa antes. E talvez importe muito para os que ficam - saber que cuidaram, que acompanharam, que compreenderam seus últimos desejos, que perceberam os sinais da morte e que fecharam seus olhos, amarraram seu maxilar e cobriram seu corpo de flores, amores.
Rituais são importantes para nós humanos. Rituais de passagem. Nós gostamos de fazê-los. Por que evitá-los? Talvez as doenças contagiosas tenham dado origem ao que temos hoje em dia. Também as dificuldades de alguém morrer em casa e a necessidade legal da verificação da morte do Instituto Médico Legal. O que é interessante é procurar manter a ternura, mesmo nas instituições hospitalares.
Muitos já fazem isso. Muitos ainda carecem disso.

P - A nossa dificuldade de aceitar a morte hoje dificulta seu enfrentamento?

MC - Independentemente de aceitarmos ou não, a morte é.
Não precisa ser enfrentada, precisa ser experimentada. E apenas a experiência da morte pode nos dizer o que é morrer.

P - Há uma tendência para os próximos anos diminuir a negação da morte? Por quê?

MC - Porque percebemos que a morte é necessária, é importante e não é má. Todos morreremos. Há um obstetra, que também é pastor, que costuma dizer ao fazer um parto "sei que nasceu e sei que morrerá, posso apenas orar por aquilo que fará durante sua vida"

P - É possível ensinar sobre como encarar a morte? Fale da sua experiência com pacientes oncológicos e terminais.

MC - É preciso falar da morte. Algumas pacientes e alguns pacientes não querem falar sobre a morte. Querem se auto-enganar, que vão se recuperar. Mas, sabem que não.
É uma oportunidade preciosa poder rever sua própria vida e saber se compreender, se amar e se perdoar. A si mesma e aos outros. Todas as experiências de nossa vida e de nossa morte são a tapeçaria do universo - hoje até chamado de multiverso. Múltiplos universos convergentes e divergentes.
É preciso fazer o arrependimento. Temos um verso:
"Todo o carma prejudicial alguma vez cometido por mim
Devido á minha ganância, raiva e ignorância
Nascido de meu corpo, boca e mente
Agora, de tudo, eu me arrependo"
Este arrependimento, quase como um "mea culpa" cristão, purifica, liberta, transforma.
Arrepender-se é esforçar-se por se transformar. Nesta vida e em vidas subseqüentes a esta. Que possamos sempre nos refugiar nas Três Jóias: Buda, Darma e Sanga.
Buda - a pessoa iluminada, sábia, que tudo compreende e atua adequadamente a cada circunstância para minimizar a dor e o sofrimento do mundo - para libertar todos os seres dos medos e sofrimentos
Darma - a lei verdadeira, os ensinamentos superiores que nos levam à libertação
Sanga - a comunidade de praticantes, de seres que se propõem a viver com sabedoria e compaixão, uma vida ética e poder viver e morrer com tranquilidade.

Uma de minhas alunas, paciente oncológica terminal, só morreu depois que eu a visitei e murmurei em seus ouvidos o poema do arrependimento e o refúgio nos Três Tesouros, acima mencionados.
Parece que precisamos desse ritual, desse conforto, desse carinho.
Alguém que nos acompanhe até o final, acompanhe com respeito, não apenas com lástimas, não com o egocentrismo de "eu estou perdendo alguém", mas sem esse "eu", apenas acompanhar e se despedir.
Quando Xaquiamuni Buda estava morrendo, aos oitenta anos de idade, doente, disse a seus alunos e suas alunas:
"Não se lamentem. Tudo que começa termina. Não é meu corpo que vocês amam, mas o Darma, a Lei Verdadeira - esta sim, que liberta e salva.
Assim sendo, façam do Darma o seu Mestre e eu viverei para sempre."
(Parinirvana Sutra)

Mãos em prece
Monja Coen

Fonte: http://www.monjacoen.com.br/entrevista_morte.html