terça-feira, 25 de agosto de 2009

Monja Coen responde sobre a morte


P - Há realmente a necessidade de uma preparação para a morte tendo como foco os doentes terminais e seus familiares?

MC - Sim e não.
De certa forma estamos todos preparados para morrer e para aceitar a morte. Faz parte de nosso processo natural. Entretanto, quanto estamos afastadas, afastados de nossa essência verdadeira?
Queremos o impossível. Nos apegamos ao que é transitório e passageiro. Criamos sofrimentos em cima de sofrimentos. Portanto se faz necessário trazer de volta a consciência de que podemos morrer bem. Por boa morte quero dizer uma morte consciente de estar morrendo e sem deixar remorsos.
É preciso lembrar aqueles que são muito apegados às formas e sons materiais, que tudo isto é passageiro, mas permanece em nós a vida dos que se vão, em nossas vidas.

P - Há uma seqüência ou uma lógica de fases do enfrentamento da morte/luto?

MC - Parece haver, dependendo evidentemente das situações. Mortes súbitas, causadas por desastres, crimes, guerras podem ter uma sequência de raiva e culpa pela incapacidade de evitá-la, tristeza e finalmente aceitação.
Contam os sutras que certa feita uma senhora desesperada carregava seu bebê morto em seus braços e pediu a ele que devolvesse a vida a seu filhinho. Buda disse que o faria se ela trouxesse a ele três sementes de sesame de uma casa onde a morte não houvesse entrado. Cheia de esperança a mãe começou a percorrer o vilarejo. E logo percebeu, que a morte havia entrado em todas as casas. Assim foi capaz de aceitar a morte de seu filho.

P - Cada pessoa tem um jeito particular de encarar a morte e o luto ou há atitudes comuns a todos, independente de sexo, idade...

MC - Somos semelhantes e não iguais. Assim sendo cada um de nós tem um relacionamento diferente com a morte e este relacionamento também se modifica conforme a situação. Alguém que esteja sofrendo muito diz que quer morrer. Assim que o sofrimento passe não se apressa mais em morrer. Todos nós, homens e mulheres, crianças e adultos, jovens e idosos, carregamos em nós o instinto da vida e o instinto da morte. Isso é comum. Como que somos educados para a morte - isso é particular, diferente, conforme culturas, etnias, e mesmo famílias ou grupos sociais.

P - Qual o significado da morte para o Budismo? Acredita-se em uma outra vida após a morte? Há linhas diferentes dentro do Budismo?

MC - "A vida é um processo em si mesma. A morte é um processo em si mesma. Assim como a cinza não volta a ser lenha, a morte não volta a ser vida." Essas palavras foram escritas pelo Mestre Zen Eihei Dogen Daiosho, fundador da tradição Soto Zen Budista no Japão do século XIII.
Há várioas linhas budistas - desde as que crêem na reencarnação como as que negam alguma coisa eterna e permanente que pudesse reencarnar.
Nada é fixo ou permanente. A vida é transitória e a morte é transitória.

P - Como a morte é encarada por seus seguidores?

MC - Eu não sei. Poderia falar de alguns alunos, algumas alunas, algumas pessoas. Um idoso, com quase noventa anos, durante o enterro de sua irmã, me confessou: "todos dizem que foi uma boa morte, pois morreu dormindo. Eu quero ver a morte. Quero morrer acordado, consciente. É a grande aventura de minha vida."

P - Para o Budismo morre é apenas um momento de transição ou é um ponto final?

MC - Não há ponto final. Não há ponto inicial. Há o Interser.
Se acreditamos na Lei da Causalidade, a morte não anula todas as causas e condições criadas durante a vida. Cada instante de vida é transição.
Como dizia nosso poeta paulistano, Cassiano Ricardo, "cada instante de vida não é mais, é sempre menos. Desde o instante em que se nasce, já se começa a morrr". Cada célula viva, cada molécula, cada partícula e sub partícula - tudo está em constante movimento e transformação. Onde começa a vida? Onde termina? Nem mesmo a Biologia moderna consegue definir. Somos vida e somos morte.

P - Como lidar com o sentimento de culpa e revolta com a perda de um filho? E dos pais? Quais as diferenças e semelhanças sob o ponto de vista do Budismo?

MC - Tudo que começa, termina. A vida é um processo terminal. Morrem bebês, morrem idosos. Meu mestre, Yogo Suigan Roshi, costumava dizer às pessoas "seja qual for a idade em que morrerem - já era tempo. Geralmente as pessoas dizem isso quando alguém morre com mais de noventa anos. Eu digo a qualquer idade."
Não podemos controlar nem a vida nem a morte. É preciso ter humildade e fazer sempre o que for mais adequado ás circunstâncias. Assim não há culpa. Assim não há revolta. Há tristeza, há saudade, há ternura. Não devemos cultivar vinganças, rancores, revoltas, culpas. Se formos éticos, éticas e cultivarmos as virtudes aceitamos a realidade e ao mesmo tempo nos tornamos transformadores, transformadoras da realidade através de nossos gestos, pensamentos e palavras.

P - Segue rituais antes e depois da morte ? Quais?

MC - Sim. No Zen Budismo da Soto Shu, ordem à qual pertenço, oramos pelas pessoas doentes, oramos pelos moribundos, oramos pelos mortos. Oramos no travesseiro onde morreram, oramos ao prepará-los para o caixão, para o velório. Oramos no velório, oramos no crematório, oramos no enterro, oramos depois do enterro, das cinzas. Oramos nos sétimos dias. Sete vezes sete. Quarenta e nove dias. Tempo em que se completa um ciclo de vida-morte. Então outro ciclo se inicia. Como ondas no mar são nossas vidas. Mas tudo é água. Causas e condições formam as ondas e cada onda é responsável e coadjuvante de outras ondas. Incessante e luminoso processo de vida,de morte, de vida, de morte, devida...

P - Como ajudar uma criança a enfrentar a proximidade da morte? O que dizer? E um adolescente?

MC - Que a flor fenece, que tudo se transforma, que morrer é bom, que todos nossos ancestrais já morreram.
Que não é preciso ter medo, mas ir, ir, sempre ir com alegria para a luz infinita, sem se lastimar, pois viveu o que tinha a ser vivido - e o que é uma vida, em meio a tantas vidas?
É preciso tirar o estigma da morte - nossa amiga e companheira, que nos acolhe, sem distinção, sem discriminação. E´é secreta, misteriosa.

P - É mais fácil aceitar a morte de idosos? É verdade que o paciente sempre sabe que irá morrer?

MC - De certa forma todos sabemos o que está acontecendo com nosso corpo, pois somos este corpo.
A questão é que nos enganamos ou gostamos de ser enganados. Claro que é mais fácil aceitar a morte de idosos - como se houvessem, com o longo tempo de vida, "aproveitado a vida". Entretanto temos um sutra que diz valer mais viver um dia corretamente do que cem anos em ilusão.
Não é o tempo (conforme nós o compreendemos) que torna a morte melhor ou pior. É a qualidade da vida que vivemos e a qualidade da morte que morremos.

P - Até que ponto vale investir na extensão da vida sem qualidade em casos terminais? É preciso viver a doença e a morte com dignidade? Como a religião e a fé contribuem para isso?

MC - Cada religião e cada grupo tem pareceres diferentes sobre casos terminais. Tenho uma amiga, a Dra. Glória Brunetti do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, com um projeto maravilhoso de construir um centro para pacientes terminais. Pacientes pobres, carentes. Porque pobres ou ricos, todos temos o direito de morrer com dignidade. Ela ainda encontra muita dificuldade em conseguir realizar seu projeto. As pessoas pensam apenas em encontrar remédios e curas para doenças. Mas a vida é um processo terminal e precisamos morrer bem, bem cuidados, bem amados, bem tratados.
Há várias pesquisas sobre a força da oração, da meditação nos processos de cura e de morte. Ajudam sim. Mas há também os ateus, as atéias, que morrem bem. Não é apenas a religião institucionalizada. É a espiritualidade e a confiança em si e na própria vida, na própria morte. Quem até hoje deixou de morrer?

P - No passado a morte envolvia maior proximidade/envolvimento da família, acontecia geralmente em casa. Hoje há um maior distanciamento, em geral acontece nos hospitais. É uma forma mais fácil de enfrentá-la?

MC - É uma forma asséptica e distante. Não queremos lidar com a dor. Nos hospitais o local para onde são levados os mortos é pequeno e escondido, nos fundos. Ninguém quer falar muito sobre os que morreram, como se fosse feio, como se fosse uma perda. Por que não temos locais lindos e públicos para acolher os mortos, para lamentar sim essa despedida, mas para reafirmar a vida em nossas vidas.
Antigamente e ainda nos locais carentes e simples, as pessoas morrem em casa, cercados de seus parentes, amigos. Pode ser mais agradável. Ou não? Será que no momento da morte isso importa muito? Talvez não. Mas, importa antes. E talvez importe muito para os que ficam - saber que cuidaram, que acompanharam, que compreenderam seus últimos desejos, que perceberam os sinais da morte e que fecharam seus olhos, amarraram seu maxilar e cobriram seu corpo de flores, amores.
Rituais são importantes para nós humanos. Rituais de passagem. Nós gostamos de fazê-los. Por que evitá-los? Talvez as doenças contagiosas tenham dado origem ao que temos hoje em dia. Também as dificuldades de alguém morrer em casa e a necessidade legal da verificação da morte do Instituto Médico Legal. O que é interessante é procurar manter a ternura, mesmo nas instituições hospitalares.
Muitos já fazem isso. Muitos ainda carecem disso.

P - A nossa dificuldade de aceitar a morte hoje dificulta seu enfrentamento?

MC - Independentemente de aceitarmos ou não, a morte é.
Não precisa ser enfrentada, precisa ser experimentada. E apenas a experiência da morte pode nos dizer o que é morrer.

P - Há uma tendência para os próximos anos diminuir a negação da morte? Por quê?

MC - Porque percebemos que a morte é necessária, é importante e não é má. Todos morreremos. Há um obstetra, que também é pastor, que costuma dizer ao fazer um parto "sei que nasceu e sei que morrerá, posso apenas orar por aquilo que fará durante sua vida"

P - É possível ensinar sobre como encarar a morte? Fale da sua experiência com pacientes oncológicos e terminais.

MC - É preciso falar da morte. Algumas pacientes e alguns pacientes não querem falar sobre a morte. Querem se auto-enganar, que vão se recuperar. Mas, sabem que não.
É uma oportunidade preciosa poder rever sua própria vida e saber se compreender, se amar e se perdoar. A si mesma e aos outros. Todas as experiências de nossa vida e de nossa morte são a tapeçaria do universo - hoje até chamado de multiverso. Múltiplos universos convergentes e divergentes.
É preciso fazer o arrependimento. Temos um verso:
"Todo o carma prejudicial alguma vez cometido por mim
Devido á minha ganância, raiva e ignorância
Nascido de meu corpo, boca e mente
Agora, de tudo, eu me arrependo"
Este arrependimento, quase como um "mea culpa" cristão, purifica, liberta, transforma.
Arrepender-se é esforçar-se por se transformar. Nesta vida e em vidas subseqüentes a esta. Que possamos sempre nos refugiar nas Três Jóias: Buda, Darma e Sanga.
Buda - a pessoa iluminada, sábia, que tudo compreende e atua adequadamente a cada circunstância para minimizar a dor e o sofrimento do mundo - para libertar todos os seres dos medos e sofrimentos
Darma - a lei verdadeira, os ensinamentos superiores que nos levam à libertação
Sanga - a comunidade de praticantes, de seres que se propõem a viver com sabedoria e compaixão, uma vida ética e poder viver e morrer com tranquilidade.

Uma de minhas alunas, paciente oncológica terminal, só morreu depois que eu a visitei e murmurei em seus ouvidos o poema do arrependimento e o refúgio nos Três Tesouros, acima mencionados.
Parece que precisamos desse ritual, desse conforto, desse carinho.
Alguém que nos acompanhe até o final, acompanhe com respeito, não apenas com lástimas, não com o egocentrismo de "eu estou perdendo alguém", mas sem esse "eu", apenas acompanhar e se despedir.
Quando Xaquiamuni Buda estava morrendo, aos oitenta anos de idade, doente, disse a seus alunos e suas alunas:
"Não se lamentem. Tudo que começa termina. Não é meu corpo que vocês amam, mas o Darma, a Lei Verdadeira - esta sim, que liberta e salva.
Assim sendo, façam do Darma o seu Mestre e eu viverei para sempre."
(Parinirvana Sutra)

Mãos em prece
Monja Coen

Fonte: http://www.monjacoen.com.br/entrevista_morte.html

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A consciência búdica


por C. W. Leadbeater

Todos os estudantes estão teoricamente familiarizados com a idéia do plano búdico e sua maravilhosa característica de unidade de consciência; mas a maioria deles provavelmente considera a possibilidade de obter qualquer experiência pessoal daquela consciência como algo pertencendo ao longínquo futuro. O completo desenvolvimento do veículo búdico para a maioria de nós ainda está distante, pois isso pertence ao estágio da Quarta Iniciação, a de Arhat; mas talvez não seja inteiramente impossível para os que ainda estão longe daquele nível obterem algum toque deste tipo superior de consciência de uma maneira bastante diferente.

Eu próprio me conduzi ao longo do que poderia descrever como a linha mais usual e comum de desenvolvimento oculto, e tive de abrir meu caminho acima laboriosamente, conquistando um subplano após o outro, primeiro no mundo astral, depois no mental, e então no búdico; o que significa que eu tinha um completo domínio de meus veículos astral, mental e búdico antes que qualquer coisa me sucedesse que eu pudesse definir com certeza como sendo uma verdadeira experiência búdica. Este método é lento e cansativo, ainda que eu pense que tem suas vantagens no desenvolvimento da acuidade de observação, assegurando- me de cada passo antes de dar o próximo. Não tenho quaisquer dúvidas de que foi o melhor para uma pessoa do meu temperamento; de fato, provavelmente foi o único caminho possível para mim; mas isso não implica que outras pessoas não possam ter oportunidades bem distintas.

Aconteceu-me no decorrer de meu trabalho de entrar em contato com diversas pessoas que estão empreendendo treinamento oculto; e talvez o fato que desponta mais proeminentemente de minha experiência nesta direção é a maravilhosa variedade de métodos empregados por nossos Mestres. O treinamento é tão intimamente adaptado ao indivíduo que nenhum é igual ao outro; não só cada Mestre tem seu próprio plano, mas o mesmo Mestre adota um esquema diverso para cada discípulo, e assim cada pessoa é conduzida exatamente ao longo da linha que lhe é mais adequada.

Um exemplo notável desta variabilidade de método chamou minha atenção não faz muito tempo, e creio que uma explanação dele pode talvez ser de utilidade para alguns de nossos estudantes. Deixe-me primeiro lembrá-los da estranha maneira invertida com que o Ego se reflete na personalidade; o manas superior, ou intelecto, reflete-se no corpo mental, a intuição, ou buddhi, se reflete no corpo astral, e o próprio espírito, ou atma, de algum modo corresponde ao físico. Estas correspondências se apresentam como três métodos de individualizaçã o, e desempenham suas funções em certos desenvolvimentos internos; mas até há pouco não havia me ocorrido que elas poderiam ser levadas em conta de modo prático em um estágio muito precoce por quem aspira por progresso oculto.

Um certo estudante de natureza profundamente afetiva desenvolveu (como seria correto e apropriado fazer) um intenso amor pelo instrutor que havia sido designado por seu Mestre para assisti-lo no treinamento preliminar. Ele desenvolveu uma prática diária de formar uma forte imagem mental daquele instrutor, e então derramar seu amor sobre ele com toda a sua força, inundando por conseguinte seu próprio corpo astral de carmesim, e temporariamente aumentando-o enormemente de tamanho. Ele costumava chamar este processo de “expandindo a sua aura”. Ele demonstrou uma aptidão tão notável neste exercício, e era-lhe tão obviamente benéfico, que um esforço adicional ao longo da mesma linha lhe foi sugerido. Recomendou-se- lhe que, mantendo a imagem claramente diante de si, e emitindo a força amorosa tão fortemente como sempre, tentasse elevar sua consciência a um nível superior e a unificasse com a de seu instrutor.

Sua primeira tentativa de fazer isso foi extraordinariamente bem-sucedida. Ele descreveu uma sensação de como se estivesse realmente subindo pelo espaço; ele encontrou o que supôs ser o céu como sendo um teto bloqueando seu caminho, mas a força de sua vontade parecia formar uma espécie de cone nele, que logo se tornou um tubo através do qual viu-se passando. Ele emergiu em uma região de luz ofuscante que ao mesmo tempo era um oceano de beatitude tão arrasadora que não poderia achar palavras para descrevê-lo. Não era em nada sequer semelhante ao que já havia antes sentido; arrebatou-o tão definitiva e instantaneamente como se uma gigantesca mão o tivesse agarrado, e infundido em toda sua natureza num instante uma corrente de eletricidade. Foi mais real do que qualquer outro objeto físico que jamais ele tivesse visto, e ao mesmo tempo, absolutamente espiritual. “Foi como se Deus tivesse me levado para dentro de Si, e eu senti a Sua Vida passando através de mim”, ele disse.

Ele gradualmente se recompôs e foi capaz de examinar sua condição; e ao fazê-lo começou a perceber que sua consciência já não estava mais limitada como havia estado até então – que ele estava de algum modo simultaneamente presente em cada ponto daquele maravilhoso mar de luz; na verdade, que de um modo inexplicável ele próprio era aquele mar, mesmo que aparentemente ao mesmo tempo ele fosse só um ponto flutuando nele. Pareceu-nos que ele estava tateando em busca de palavras para expressar a consciência que, como disse Madame Blavatsky tão bem, tem “seu centro em toda parte e sua circunferência em parte alguma”.

Uma percepção posterior lhe revelou que ele havia sido bem-sucedido na tentativa de unificar sua consciência à de seu professor. Ele viu-se integralmente compreendendo e compartilhando dos sentimentos do professor, e possuindo uma noção da vida muitíssimo mais larga e elevada do que jamais havia tido antes. Uma coisa que impressionou- o profundamente foi a imagem de si mesmo vista pelos olhos do professor; ela o encheu de uma sensação de indignidade, mas também de elevada determinação; como ele singularmente explicou.

“Eu me achei amando a mim mesmo através do intenso amor de meu instrutor por mim, e eu soube que eu poderia e me faria digno dele”.

Ele sentiu também uma profundidade de devoção e reverência que ele jamais havia alcançado antes; ele soube que ao tornar-se um com seu instrutor terreno ele havia também entrado no sacrário de seu verdadeiro Mestre, com quem era um, por sua vez, aquele professor, e ele vagamente sentiu-se em contato com uma Consciência de incompreensível esplendor. Mas aqui sua força faltou-lhe; ele pareceu deslizar de volta para dentro do tubo, e abriu seus olhos no plano físico.

Consultado a respeito desta experiência transcendente, eu a analisei minuciosamente, e convenci-me facilmente de que havia sido uma inquestionável entrada no mundo búdico, não através de penoso progresso através dos vários estágios do mental, mas por um caminho direto ao longo do raio de reflexão do subplano astral mais alto até o subplano mais baixo do mundo intuicional. Eu procurei por efeitos físicos, e constatei que não houve nenhum; o estudante estava em radiante saúde. Assim eu recomendei que ele repetisse o esforço, e tentasse com a mais profunda reverência pressionar ainda mais para o alto, e se elevasse, se assim pudesse ser feito, àquela Consciência Augusta. Pois eu vi que se tratava de um caso daquela combinação de dourado amor e vontade férrea que é tão raro de ocorrer em nossa Estrela Tristonha; e eu sabia que um amor que é completamente altruísta e uma vontade que não conhece obstáculos pode levar seu possuidor aos pés do próprio Deus.

O estudante repetiu este experimento, e novamente foi bem sucedido além de qualquer esperança ou expectativa. Ele foi capaz de entrar naquela Consciência mais vasta, pressionando para frente e para cima n’Ela como se nadasse num vasto lago. Muito do que trouxe de volta consigo ele não poderia compreender; reminiscências de glórias inefáveis, fragmentos de concepções tão vastas e tão deslumbrantes que nenhuma mente meramente humana poderia captá-las em sua totalidade. Mas ele ganhou uma idéia nova do que o amor e devoção poderiam ser – um ideal pelo qual esforçar-se pelo resto de sua vida.

Dia após dia ele continuou seus esforços (consideramos que uma vez por dia seria a freqüência máxima com que ele prudentemente poderia tentar); mais e mais ele penetrou naquele grande lago de amor, mas ainda não achou o seu fim. Mas gradualmente ele se tornou consciente de algo muito maior ainda; ele de algum modo percebeu que este esplendor indescritível era permeado por uma glória mais sutil mas inconcebivelmente ainda mais esplêndida, e tentou alçar-se até ela. E quando conseguiu, soube por suas características que era a Consciência do próprio grande Instrutor do Mundo. Ao tornar-se um com seu professor terreno ele inevitavelmente havia se unido à consciência de seu Mestre, ao qual aquele professor já estava unido; e nesta maravilhosa experiência ulterior ele estava apenas comprovando a estreita união que existe entre aquele Mestre e o Bodhisattva, que por sua vez O ensinara. Naquele mar ilimitado de Amor e Compaixão ele mergulha diariamente em sua meditação, com uma elevação e fortalecimento tais para si como prontamente pode ser imaginado; mas ele jamais pode alcançar seus limites, pois nenhum mortal pode medir um oceano como aquele.

Tentando penetrar sempre mais fundo neste novo reino estupendo que tão subitamente se abrira para ele, ele conseguiu um dia alcançar um desenvolvimento adicional – uma beatitude tão mais intensa, um sentimento tão mais profundo, que pareceu-lhe a princípio tão superior como aquele primeiro toque de consciência búdica estivera acima de suas experiências astrais anteriores. Ele disse: “Se eu não soubesse que me é impossível ainda atingi-lo, eu diria que isso deve ser o Nirvana”.

Na verdade era apenas o próximo subplano do búdico – o segundo de baixo para cima, e o sexto de cima para baixo; mas sua impressão é significativa por mostrar que a consciência não só se expande ao subirmos, mas a razão em que se expande aumenta rapidamente. Não só o progresso é acelerado, mas a razão desta aceleração cresce em progressão geométrica. Agora este estudante atinge aqueles subplanos elevados diária e comumente, e está trabalhando com vigor e perseverança esperando avançar ainda mais além. E o poder, o equilíbrio e segurança que isso introduz em sua vida física diária é algo espantoso e belo de se ver.

Um outro fenômeno que ele observa, acompanhando isso, é que a intensa beatitude daquele plano superior agora persiste além do tempo de meditação e mais e mais está-se tornando parte de toda a sua vida. No começo esta persistência era só de uns vinte minutos após cada meditação; então chegou a uma hora; depois duas horas; e ele confiante olha à frente vislumbrando um tempo em que será uma posse permanente – uma parte de si mesmo. Uma característica notável do caso é que esta prodigiosa exaltação diária não é seguida de nenhum sinal da mais leve que seja reação de depressão, mas em vez produz uma radiância solar crescente.

Tornando-se gradualmente mais acostumado a atuar neste mundo mais elevado e glorioso, ele começou a olhar para si em alguma extensão, e logo foi capaz de identificar- se com muitas outras consciências menos exaltadas. Ele as achou existindo como pontos dentro de seu eu expandido, e descobriu que focalizando a si mesmo em quaisquer destes pontos ele poderia de imediato perceber as mais altas qualidades e aspirações espirituais da pessoa que representavam. Buscando uma simpatia mais completa com alguém que ele conhecia e amava, ele discerniu que estes pontos de consciência eram também, como ele disse, buracos através dos quais ele poderia colocar-se dentro de seus veículos inferiores; e assim ele entrou em contato com aquelas partes de suas vidas e disposições que não poderiam encontrar expressão nenhuma no plano búdico. Isto lhe deu uma simpatia por estas suas características, uma compreensão de suas fraquezas, que foi realmente notável, e que não poderia provavelmente ter sido adquirida de nenhum outro modo – uma qualidade valiosíssima para o trabalho de um discípulo no futuro.

A unidade maravilhosa daquele mundo intuicional se manifestava a ele em exemplos insuspeitados. Um dia, segurando na mão o que ele considerava um pequeno objeto especialmente formoso, parte do qual era branco, ele caiu numa espécie de êxtase de admiração por sua forma graciosa e harmônica coloração. Subitamente, através do objeto, enquanto o olhava, ele viu desdobrar-se diante dele uma paisagem, exatamente como se o pequeno objeto houvesse se tornado uma janelinha, ou talvez um cristal. A paisagem é uma que ele conhece bem e ama, mas não havia uma razão óbvia pela qual o pequeno objeto devesse tê-la trazido para diante dele. Uma característica curiosa era que a parte branca daquele objeto era representada no céu de sua imagem. Impressionado por este fenômeno inteiramente inesperado, ele tentou a experiência de elevar sua consciência enquanto deleitava-se na beleza do panorama. Ele teve a sensação de passar através de algum meio resistente para dentro de um plano superior, e percebeu que a vista diante dele havia se transformado em uma que lhe era estranha, mas ainda mais bela que a que ele conhecia tão bem. As colunas de nuvens brancas haviam se tornado uma alta montanha coberta de neve, com seu longo perfil mergulhando abaixo num mar de cor mais rica que qualquer um que nesta encarnação havia visto. As baías rochosas, as construções, a vegetação, eram-lhe de todo estranhas, ainda que bem conhecidas por mim; e por uma cuidadosa pesquisa eu logo me certifiquei sem margem de dúvida que a cena que ele estava vendo era o que eu suspeitara – um panorama físico real, mas milhares de quilômetros distante do local de onde ele o contemplava. Uma vez que aquele lugar santo está muitas vezes em minha mente, ainda que eu certamente não estivesse pensando nele no momento, o que o estudante viu pode ter sido uma forma-pensamento minha. Eu imagino que neste ponto o que ocorreu pode ser descrito com muita simplicidade. Eu presumo que a emoção do estudante estivesse excitada pela admiração, e que as vibrações aceleradas que eram originadas desta maneira puseram em operação seus sentidos astrais, e isto o tornou capaz de ver um panorama que não era fisicamente visível, mas estava bem ao alcance astral. A tentativa de pressionar mais além temporariamente abriu o sentido mental, e através deste poder ele foi capaz de ver minha forma-pensamento.

Mas o estudante não se quedou satisfeito com isso; ele repetiu sua tentativa para subir ainda mais alto, ou (como ele diz) ainda mais fundo no real significado de tudo isso. Uma vez mais ele teve a experiência de irromper em um estado de matéria mais exaltado e refinado; e desta vez não havia cena terrestre alguma para recompensar seus esforços, pois o cenário desdobrou-se em um universo ilimitável cheio de massas de esplêndidas cores, pulsando com vida gloriosa, e a montanha nevada tornou-se um grande Trono Branco mais vasto que qualquer montanha, velado em deslumbrante luz dourada. Um estranho fato ligado a esta visão é que o estudante a quem esta experiência ocorreu está inteiramente desfamiliarizado com as Escrituras Cristãs, e não era ciente de qualquer texto que pudesse ter alguma influência no que vira. Eu lhe perguntei se poderia repetir esta experiência à vontade; ele não o sabia, mas mais tarde ele tentou o experimento, e conseguiu novamente passar através daqueles estágios na mesma ordem, dando alguns detalhes adicionais da paisagem estrangeira que me provaram que isto não era meramente uma proeza da memória; e desta vez o atemorizado vidente sussurrou que em meio às fulgurâncias daquela luz ele uma vez teve um fugaz vislumbre do contorno de uma Poderosa Figura que assentava-Se no Trono. Isto também, diríamos, poderia ser uma forma-pensamento, construída por algum Cristão de imaginação vívida; mas quando alguns dias depois surgiu uma oportunidade, e eu perguntei a um Sábio qual o significado que poderíamos associar a tal visão, Ele replicou:

“Você não vê que, já que só existe Um Amor, então só existe Uma Beleza? O que quer que seja formoso, em qualquer plano, o é somente porque se remontamos muito acima, sua conexão se torna manifesta. Toda a Beleza é de Deus, assim como todo o Amor é de Deus; e através deles, Suas Qualidades, o puro de coração pode sempre alcançá-lo.”

Nossos estudantes fariam bem em ponderar nestas palavras, e seguir a idéia nelas contida. Toda a beleza, seja de forma ou cor, seja na natureza ou na moldura humana, em altas conquistas da arte ou no mais humilde utensílio doméstico, não passa de uma expressão da Beleza Única, e portanto mesmo na coisa mais insignificante que seja bela toda a beleza está implicitamente contida, e assim através dela toda a beleza pode ser percebida, e Aquele que em Si é a própria Beleza pode ser alcançado. Para entendermos isso plenamente necessitamos da consciência búdica pela qual nosso estudante chegou a esta percepção; mas mesmo em níveis muito inferiores a idéia pode ser útil e frutífera.

Admito plenamente que o estudante cujas experiências relatei seja excepcional – que ele possui uma força de vontade, um poder de amar, uma pureza de coração e um completo altruísmo que são, infelizmente, raros.

Não obstante, o que ele fez com tão marcado sucesso pode seguramente ser copiado em alguma medida por outros menos dotados. Ele desdobrou sua consciência num plano que normalmente não é atingido por aspirantes; lá ele está construindo rapidamente para si um veículo muito capaz e valioso – pois este é o significado da persistência sempre crescente da sensação de felicidade e poder. Que esta é uma linha definida de progresso, e não um mero exemplo isolado, é evidenciado pelo fato de que mesmo já o desenvolvimento búdico anormal está produzindo seu efeito sobre os corpos causal e mental aparentemente negligenciados, estimulando- os à atividade de cima em vez de deixá-los ser influenciados laboriosamente a partir de baixo como o usual. Todo este sucesso é resultado de contínuo esforço ao longo da linha que eu descrevi.

“Ide e fazei o mesmo”. Nenhum mal pode advir a qualquer homem derivado de um esforço diligente para aumentar seu poder de amar, seu poder de devoção, e de seu poder de apreciar a beleza; e com tal esforço é possível pelo menos que ele possa atingir um progresso com que sequer sonhou. Somente seja lembrado que, neste caminho como em qualquer outro, o crescimento é conseguido só por quem o deseja não só por si, mas por amor ao serviço. O esquecimento do eu e um ávido desejo de ajudar os outros são as mais proeminentes características no estudante cuja história interior eu contei aqui; estas características devem ser igualmente proeminentes em qualquer um que aspire seguir seu exemplo; sem elas nenhuma consumação semelhante é possível.

Publicado originalmente em "The Teosophist" - Agosto de 1915
Tradução: Ricardo Frantz