sábado, 4 de outubro de 2008

Teosofia Brasileira - A Religiosidade Ecológica Nativa do Brasil


O que é Teosofia Brasileira?

Para esclarecermos isso, vamos considerar em primeiro lugar, o que é Teosofia.

Teosofia ou Sabedoria Iniciática das Idades, ou ainda Sabedoria Divina é um cabedal de saber transmitido de uma humanidade à outra humanidade. De Seres Humanos evoluídos à Seres Humanos em estado de desenvolvimento, os primeiros muitas vezes considerados deuses. Assim Seres Humanos de outras plagas siderais legaram as seres da Terra seu “Saber dos Ciclos dos Céus” (Arandu Arakuaa), e os remanescentes da Civilização Atlânte, transmitiram aos homens da atual humanidade, no início de sua jornada essa mesma Sabedoria, que foi transmitida, era após era, civilização após civilização, à egípcios, fenícios, caldeus, babilônicos, persas, hebreus, tibetanos, hindus, chineses, celtas, gregos, romanos, etc. Idade após idade, até chegar aos nossos dias, isso que veio a ser chamado atualmente de Teosofia.

Por que então ser chamada de Sabedoria Iniciática, isso porque o conhecimento outrora livre e de fácil acesso, foi com o tempo restrito a um conjunto cada vez menor de iniciados se convertendo no que veio a ser chamado mais tarde de “Sabedoria Oculta” (Tuyabaé-Cuaá) . Isso ocorreu em parte, devido a degeneração humana e em parte devido as perseguições religiosas. Assim a Sabedoria Oculta foi se tornando cada vez mais restrita de modo a proteger esse cabedal de conhecimentos e seus detentores das fogueiras da ignorância e da perseguição obscurantista.

Sendo assim, vamos encontrar a Teosofia, ou Sabedoria Iniciática das Idades, a Sabedoria Oculta, mantida viva por grupo de iniciados que no passado, assim como nós hoje, sentavam-se em círculo e estudavam a Sabedoria legada à eles pelos seus ancestrais divinos e enriquecida através da experiência dos séculos de seus antepassados. Assim, houve épocas, bem como lugares, onde esses conhecimentos puderam ser estudados livremente, seguidos de períodos obscuros. E hoje, devido aos esforços de uma corrente ininterrupta de iniciados essa Sabedoria chega até nós, não como um conjunto de conhecimentos teóricos e mortos, mas como um saber vivo e atualizado, sempre renovado pela contribuição humana, através dos séculos.

Considerando o exposto, vemos que cada povo foi o guardião de uma parte, pelo menos por um momento da “Ciência das Idades” que chegou até os nossos dias.

Mas qual é o objeto de estudo da Teosofia? Por que ela também seria acertadamente chamada de “O Saber do Movimento do Universo” (Arandu Arakuaa)? Isso por que entre seus principais objetos de estudo encontram-se as Leis Universais e o estudo dos Arquétipos Cósmicos que controlam a existência humana na Terra e que são capazes de dar ao Homem o domínio sobre a vida.

Cada povo por sua vez, revelou (re + velou), ou como dizia o professor Henrique José de Souza, “velou com outros véus” essa Sabedoria, vertendo-a em signos, símbolos e alegorias que a tornavam inteligível para eles.

Assim, vamos encontrar a Teosofia Egípcia apresentada através de signos, símbolos e alegorias comuns as Terras dos Faraós e ao nível cultural e de desenvolvimento psicológico de seu povo, revelada de acordo com sua cultura e sua realidade. O mesmo ocorreu na babilônia, entre os caldeus, fenícios, chineses e hindus. Dessa forma, podemos dizer tivemos uma Teosofia Caldaica, uma Teosofia Fenícia, uma Teosofia Chinesa, Hindu, Tibetana, etc.

Porém, apesar disso, a Teosofia, não está ligada, nem limitada a nenhum povo ou cultura, pois ela não é ligada a nenhum conjunto de signos, símbolos e alegorias específicos.

No sec. XIX Helena Petrovna Blavatsky (H.P.B.), fundadora do moderno movimento Teosófico, trouxe esse Saber do Oriente para o Ocidente, das Índia, principalmente do Tibet, onde esse conhecimento tinha sido mais preservado. Na época ambas as regiões eram áreas de influência inglesa, um dos povos que representava a vanguarda da civilização européia ocidental. Era necessário demonstrar a Sabedoria existente ainda na Índia e no Tibet, para evitar que eles, os ingleses, no seu afã modernizador, “não jogassem fora a água suja (da superstição e do erro), junto com a criança (a sabedoria verdadeira)”, ou seja que no ímpeto de lutar contra a ignorância e o erro, destruíssem também algo precioso, que ainda não eram capazes de compreender.

Por ter sido inicialmente dirigida aos ingleses e através deles aos europeus de um modo geral, que uma das características da moderna Teosofia é o seu cartesianismo europeu.

Assim quando H.P.B. trouxe a moderna Teosofia do oriente para o ocidente, ela veio carregada de signos, símbolos e alegorias Indianas e Tibetanas, a ponto de muita gente confundir Teosofia com Hinduismo ou Budismo, ou ainda considerar que para se aprender Teosofia, tem que se aprender sânscrito. Ledo engano, a Teosofia ou Sabedoria das Idades, não está limitada a cultura dos povos Tibetanos, ou Hindus, como muitos pensam.

Assim a Teosofia moderna, organizada originalmente em língua inglesa por H.P.B. e extraída originalmente da tradição esotérica hindu e tibetana, ficou carregada de sânscrito e de signos, símbolos e alegorias hindus e tibetanos, além de ficar impregnada por um forte cartesianismo europeu, por que era principalmente aos aos europeus que ela era orientada.

Mas temos também na Teosofia ensinada por H.P.B. muitos elementos das alegorias dos povos egípcios, porém o bloco principal encontra-se radicado no Hinduismo e no Budismo Tibetano. Da mesma forma, se H.P.B. tivesse ido buscar a Teosofia no Japão, a principal corrente da Teosofia, que foi por ela ensinada, estaria impregnada de Zen Budismo e de Xintoísmo japonês, ou caso ela tive-se buscado esse saber em meio aos gregos, a Sabedoria das Idades seria fortemente impregnada dos signos, símbolos e alegorias gregas.

Assim, é importante desfazermos de uma vez por todas a idéia errônea de que “temos que aprender sânscrito para estudar Teosofia” ou mesmo que para isso seria necessário aprender filosofia oriental. Isso é totalmente errado, com já dizemos nem sânscrito, nem hinduismo ou mesmo budismo, ou qualquer cultura, oriental, ou ocidental, são capazes de conter a Sabedoria Iniciática das Idades. Pelo contrário, é esta Sabedoria que abarca todas estas e muitas outras culturas.

Considerando isso, ao apresentarmos a Teosofia Brasileira, procuramos apenas resgatar alguns signos, símbolos e alegorias que também pertencem a Sabedoria Iniciática das Idades, que foram guardados pelos Mestres e Guias da Raça Vermelha dos Senhores da Atlântida, e que chegaram até nossos dias através dos nativos brasileiros, seus últimos guardiões, os antigos Tupis.

Mas quais seriam os motivos que nos levaram a buscar revelar a Sabedoria das Idades, através dos signos, símbolos e alegorias dos nativos desta terra?

Respondemos isso, afirmando que cada povo tem uma maneira muito peculiar de aprender e guardar informações, um modo de aprender que é mais comum a todos os seus membros.

Assim através de um atavismo cultural cada povo responde melhor a determinados signos, símbolos e alegorias. Se nos dirigimos a orientais, ou a ocidentais, a europeus ou americanos, temos que considerar os meios de mobilizar o conteúdo subconsciente que existe no interior do povo ao qual nos dirigimos, isso se quisermos facilitar o entendimento das Verdades Arquetípicas que estamos tentando transmitir. É claro que sabemos que cada pessoa possui maneiras individuais de aprender e assimilar informações, porem como membro de um determinado povo, cada pessoa apresenta também alguns elementos de aprendizado comuns em relação aos seus conterrâneos.

Além disso, nossos antepassados possuem uma tradição extremamente rica em sabedoria, principalmente para ensinar as pessoas ditas civilizadas, um sistema de vida e relações humanas baseado no desenvolvimento e progresso de corações valorosos.

Comparando o saber acumulado pela humanidade com a alegoria de um grande banquete, onde várias culturas e povos sentam-se a mesa com uma parte da Sabedoria das Idades que receberam dos que os antecederam e que eles próprios enriqueceram, contribuindo de uma forma ou de outra para alimentar de saber a humanidade sedenta de conhecimentos.

Da mesma forma que os demais povos e civilizações da Terra, o povo brasileiro não precisa sentar-se a esta mesa, onde é servido o alimento do saber, como um indigente. Ao contrário, ele também é detentor de uma vasta cultura esotérica e de uma espiritualidade ecológica mágica que herdou de seus antepassados ameríndios. Uma riqueza de saber e conhecimento que só precisa ser resgatada.

A Teosofia Brasileira é um dos caminhos para acessar esses conhecimentos adormecidos, mas de maneira nenhuma perdidos. A Teosofia Brasileira, não é uma dissidência da Teosofia Clássica, na realidade procuramos através dela, enriquecer a Teosofia Clássica, resgatando mais um de seus filões esquecidos, que é a Espiritualidade Ecológica e Esotérica dos ameríndios pré-colombianos, com seus totens, animais de poder, suas ervas, seus cantos e suas danças de cura, etc. Considerando isto, vemos que quem estuda Teosofia Brasileira, aprende Teosofia Clássica, estudando a Sabedoria Iniciática das Idades baseada nos conhecimentos hindus, tibetanos, egípcios, celtas, etc. mas também aprende os signos, símbolos e alegorias Tupi, povo que encontra-se praticamente todo encarnado no Brasil, formando o grosso do povo brasileiro.

Assim a utilização dos signos, símbolos e alegorias de nossos ancestrais nativos americanos falam diretamente a alma do brasileiro, que é essencialmente uma Alma Tupi no seu âmago mais profundo. Nela as revelações da Teosofia Brasileira encontram eco e fazem brilhar a luz da compreensão do “Saber dos Ciclos dos Céus”.

Podemos dizer então que a Teosofia Brasileira é uma tentativa dentro do movimento Teosófico de encontrar uma perspectiva brasileira da Teosofia, e o SETE – Sociedade de Estudos Teosóficos, está realizando o desafio de apresentar essa nova perspectiva da Teosofia, enriquecendo seu aprendizado e tornando-a magicamente mais assimilável pela Alma do povo brasileiro.

Dessa maneira, iniciamos uma nova abordagem do saber esotérico, através dos ensinamentos da Religião Ecológica de nossos antepassados nativos, cujo objetivo é tratar das origens espirituais do nosso povo, auxiliá-lo no presente e apontar-lhe um caminho para um futuro melhor. Porém, essa revelação se dirige aquelas poucas pessoas que ainda forem capazes de assimilar algo que vai além do cartesianismo europeu e do estreito intelecto do Mental Concreto, algo que fala a nossa mais profunda intuição.

Ao apresentarmos esses ensinamentos dirigimo-nos principalmente as pessoas que são na realidade reencarnações dos antigos Tupis que outrora viveram nesta mesma terra e que tendo reencarnado aqui constituem o melhor do nosso povo.

Porém, muitos são os que andam confusos, e orgulhosamente procuram ressaltar suas origens genéticas na descendência européia por parte de um avô português, espanhol, ou italiano, sem considerar a parte nativa, ou negra envolvida nisso. Todos os estrangeiros que vieram para cá, nos primeiros tempos da colonização, misturaram o seu sangue por séculos, com aquele dos índios nativos, e paralelamente com a raça negra. Só mais tarde, é que vieram para cá, imigrantes de outras culturas e etnias, mas mesmo assim essas emigrações tardias jamais sobrepujaram a presença ameríndia nativa na formação biológica e espiritual do povo brasileiro. De qualquer forma, qualquer espiritualista mediano sabe que do ponto de vista espiritual, a genética fica em segundo plano. Assim, não estamos tratando aqui de descendência biológica, mas das origens espirituais do nosso povo.

Mas é triste ver, o efeito do colonialismo, não só material, mas também espiritual sobre este povo. Muitos que se dizem espiritualistas, afirmando acreditar na reencarnação, consideram-se almas vindas do Oriente, da Ásia, da Europa, mas não cogitam, em momento nenhum, onde estão encarnadas 5 milhões de almas nativas, que viviam no Brasil na época do “descobrimento”. Para termos uma proporção em Portugal na mesma época só havia 1 milhão de pessoas. Responda-me com sinceridade, em sua maioria onde elas reencarnaram? No Egito, na França, no Japão? Eu afirmo com toda tranqüilidade, a maioria delas reencarnaram aqui nas Américas, principalmente no Brasil, onde hoje constituem, o melhor do povo brasileiro.

Aqui, é onde nós, que buscamos nossas verdadeiras raízes, muitas vezes radicadas nos nativos Sul-americanos; Quíchuas, mbyá-guarani, Incas e Tupis, poderemos nos reunir, nos reconhecermos e nos reencontrarmos. E o objetivo de nossos encontros é tratar das origens espirituais do povo desta terra.

Nossos encontros são dedicados àquelas poucas pessoas que ainda são capazes de assimilar algo que vai além do estreito intelecto, que consideram-se reencarnações dos nativos sul-americanos que outrora viveram nestas mesmas terras e tendo renascidos aqui, se empenham para melhorar material, cultural e espiritualmente as condições de vida do nosso povo.

São essas pessoas, que agora no início do novo milênio, encontram-se com seu Veículo Intuitivo (Arandu) amadurecido apto à assimilar uma nova revelação da Lei Justa e Perfeita (Dharma em sânscrito, ou Tekoa em tupi), através de uma Espiritualidade Ecológica condizente com sua natureza. É essa nova revelação de algo perene que já era conhecido por vários povos do passado, e também por nossos ancestrais Tupis que apresentamos à vocês com o nome moderno de Teosofia Brasileira, mas que o Homem Vermelho chamava de o “Saber que Movimenta o Cosmos” (Arandu Arakuaa).

Esse Material é parte integrante do Livro de Introdução à Teosofia Brasileira.
Fonte: SETE - Sociedade de Estudos Teosóficos

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Cagliostro


O mistério envolve os homens que passam suas vidas a serviço da humanidade e mantêm-se extremamente dedicados somente aos seus superiores. Os padrões de julgamento social e a moralidade convencional não podem ser separados de seus caracteres. O mistério que envolve Alessandro, Count di Cagliostro, foi montado por boatos e calúnias sem fundamento a uma tal extensão que, “Sua história aceita é muito bem conhecida para precisar ser repetida, e sua verdadeira história nunca foi contada”. A pesquisa conscienciosa tem dissipado as nuvens dos boatos e da difamação o suficiente para revelar à análise imparcial uma vida nobre permeada com sabedoria e envolvida pela compaixão.

“Não posso”, testemunhou Cagliostro, “falar positivamente com relação ao lugar onde nasci, nem dos pais de quem nasci”. Seus inimigos diziam que ele era José Balsamo, um famoso aventureiro e criminoso da Sicília, mas suas palavras e atos negam essa identificação. Ninguém que reconhecesse Balsamo veio a público para estabelecer a relação. De acordo com o próprio Cagliostro, ele viveu como uma criança chamada Acharat no palácio do Mufti Salahayyam em Medina. Seu governador, um Adepto Oriental chamado Althotas, disse-lhe que ele nascera de nobres pais cristãos, porém se recusou a falar mais. Referências casuais, contudo, levaram Cagliostro a acreditar que ele nascera em Malta. Althotas tratava-o como um filho e cultivava sua aptidão para as ciências, especialmente botânica e química. Cagliostro aprendeu a respeitar a religião e a lei em cada cultura e região. “Ambos nos vestimos como Maometanos e estamos externamente de acordo com a devoção do Islam, mas a verdadeira religião foi impressa em nossos corações”. Quando criança, aprendeu os idiomas árabe e orientais e também muito sobre o Egito antigo.

Aos doze anos, Althotas levou-o a Mecca, onde permaneceram por três anos. Quando Acharat encontrou o Sharif, ambos imediatamente sentiram uma forte ligação e choraram na presença um do outro. Embora passassem muito tempo juntos, o Sharif recusou-se a discutir a origem de Acharat, embora uma vez o tivesse avisado de que “se algum dia eu deixasse Mecca, estaria ameaçado com as maiores infelicidades, e acima de tudo ordenou-me cautela com a cidade de Trebizond”. A uniformidade da vida no palácio falhou em saciar a sede por conhecimento e experiência de Acharat e a tempo ele decidiu ir para o Egito com Althotas. Na hora da partida, o Sharif despediu-se dele chorando, com as palavras, “Filho infeliz da natureza, adeus”.

No Egito, ele aprendeu que as pirâmides continham segredos desconhecidos pelo turista. Foi admitido pelos sacerdotes do templo “a lugares tais, que nenhum outro viajante comum jamais havia entrado antes”. Após três anos de viagem “pelos principais reinos da África e da Ásia”, ele chegou a Rhodes em 1766, onde pegou um navio francês para Malta. Enquanto estava hospedado no palácio de Pinto, Grão Mestre de Malta, o Cavalheiro d’Aquino de Caramanica apresentou-o à ilha. “Foi aqui que eu pela primeira vez assumi o modo de vestir Europeu e com ele o nome de Conde Cagliostro”. Althotas apareceu com a roupa e a insígnia da Ordem de Malta.

“Tenho todas as razões para acreditar que o Grão Mestre Pinto estava familiarizado com minha verdadeira origem. Freqüentemente me falava do Sharif e mencionava a cidade de Trebizond, porém jamais consentiria em entrar em outros detalhes particulares sobre o assunto.”

Com base nesta referência, alguém especulou que Cagliostro era o filho do Grão Mestre Pinto e uma nobre senhora de Trebizond, mas Cagliostro, ele mesmo, jamais expressou esta opinião. Enquanto ainda em Malta, Althotas faleceu. Minutos antes de sua passagem, ele declarou a Cagliostro: “Meu filho, conserve para sempre diante de seus olhos o temor a Deus e o amor de suas pequenas criaturas; logo você estará convencido, pela experiência, de tudo aquilo que tenho lhe ensinado”.

Com a permissão relutante do Grão Mestre, Cagliostro deixou Malta na companhia do Cavalheiro d’Aquino para a Sicília, as Ilhas Gregas, e finalmente, Nápoles, o lugar natal do Cavalheiro. Enquanto o Cavalheiro se ocupava com assuntos pessoais, Cagliostro prosseguiu para Roma. Retirou-se para um apartamento para melhorar seu italiano, mas logo o cardeal Orsini solicitou sua presença e, através dele, conheceu vários cardeais e príncipes romanos.

Em 1770, com a idade de vinte e dois anos, ele conheceu e se apaixonou por Seraphina Feliciani. Embora ela fosse a dona do seu amor e devoção pelo resto de suas vidas, ela nunca foi capaz de totalmente romper com a Igreja e seria usada como “a ferramenta dos Jesuítas”. Aconteceu que a natureza de Cagliostro, boa ao extremo, e a total confiança que colocava em seus amigos foram a causa de seus desapontamentos. A generosidade de Cagliostro logo esgotou suas fontes e o casal foi desfeito quando viajavam para visitar amigos em Piemonte e Genova. Mas em julho de 1776, quando chegaram a Londres, estavam outra vez em boas situação, porém a causa de seu progresso fica, como sempre, perdida em mistério.

Eles se hospedaram e logo atraíram admiradores, ainda que ninguém tivesse certeza de onde se originavam, ou qual era seu itinerário recente. Um laboratório foi montado num aposento para estudos de Física e Química. A grande generosidade de Cagliostro levou um grupo de impostores gananciosos a tentar trapaceá-lo através de processos legais que exigiam dinheiro, acusando-o de praticar bruxaria. Esta última acusação foi retirada imediatamente, mas uma coalizão de advogados e juízes desonestos arrancaram-lhe cada centavo que puderam antes que o Conde ficasse livre de suas intrigas. Suas intenções ficaram evidentes pelo fato de que, finalmente, todos eles, de alguma forma, morreram na prisão ou foram executados por fraude, perjúrio e outros crimes. Cagliostro recusou a oportunidade de propor recursos reparatórios, mas decidiu deixar a Inglaterra.

Antes da partida, contudo, tanto ele como a condessa foram admitidos na Loja Esperança da ordem da Estrita Observância. Seu lema era “União, Silêncio, Virtude”, seu trabalho filantropia e seu estudo, ocultismo. Através desta Ordem, Cagliostro espalharia a Maçonaria Egípcia por toda a Europa. Deixando Londres em Novembro de 1777 com apenas cinqüenta guinéus, viajou para Bruxelas “onde encontrei a Providência esperando que enchesse meu bolso outra vez”. Esta é sempre a história de Cagliostro. Quando ele aparece na história, ele tem tudo, não pede nada e deixa tudo generosamente.

Veio para Hague, onde foi recebido como um Franco-maçom pela loja local da Ordem da Estrita Observância. Seu discurso sobre Maçonaria Egípcia, a mãe do puro impulso Maçônico, motivou a Loja a adotar o Rito Egípcio tanto para homens como para mulheres. A Condessa Cagliostro foi instalada como Grã-Mestra. Aqui emergiu a missão de Cagliostro de purificar, restaurar e elevar a Maçonaria ao nível de verdadeiro ocultismo. Esta tarefa comanda o centro das atenções pelo do resto de sua vida. Como suas numerosas profecias sobre grandes e pequenos assuntos indicavam, ele tinha uma visão clara da iminente arrancada da ordem social, política e religiosa da Europa. Ele antevia que somente nas Lojas unificadas os servidores dos homens sábios do Oriente poderiam, poderiam atuar junto tanto os nobres e os homens comuns em mútua lealdade aos mais altos ideais e guiar a Europa através da transição em direção a uma era iluminada.

Ao passar por Nuremberg, ele trocou sinais secretos com um Franco-Maçom, hospedando-se no mesmo hotel. Quando indagado quem era, Cagliostro desenhou num papel a serpente mordendo sua cauda. O hóspede, imediatamente, reconheceu um grande ser numa missão importante e, tirando um rico anel de diamante de sua mão, investiu-o em Cagliostro. Quando ele chegou a Leipzig, a Ordem estava preparada para homenageá-lo com um lauto banquete preparado para um dignitário visitante, mas havia chegado a época de ser colocada a Maçonaria Egípcia em sua verdadeira perspectiva. Após o jantar, Cagliostro fez um discurso sobre o sistema e seu significado. Ele convocou os Maçons reunidos para adotarem o Rito, porém a direção da Loja hesitou. Cagliostro avisou que o momento da escolha para Maçonaria havia chegado e profetizou que a vida do chefe – Herr Scieffort – estava na balança: se a Maçonaria Egípcia não fosse abraçada, Scieffort não sobreviveria durante aquele mês. Scieffort recusou a aceitar modificações em sua Loja, e cometeu suicídio poucos dias depois. Abalados e intrigados, os membros da Loja aclamaram Cagliostro, e seu nome foi ouvido pela cidade. Enquanto ele continuava a viagem, as Lojas da Ordem da Estrita Observância calorosamente lhe davam boas vindas.

Seguiu para Mittau, capital de Duchy de Courland e centro de estudos ocultos, ali chegando em março de 1791. Cagliostro explicou o significado da Maçonaria Egípcia em termos de regeneração moral da humanidade. Embora o homem tenha conhecido a natureza da deidade e o mundo, os profetas, apóstolos e padres da Igreja apropriaram-se deste conhecimento para seus próprios fins. A Maçonaria Egípcia continha as verdades que poderiam restaurar este conhecimento numa humanidade renovada. O Marechal Von Medem e sua família convidaram Cagliostro para ficar em Courland e apresentaram-no às pessoas de influência. O longo interesse de Von Medem pela alquimia logo se voltou para outros fenômenos, e ele pediu insistentemente a Cagliostro que demonstrasse os poderes que, segundo boatos, ele possuía. A princípio relutante, ele finalmente produziu uma quantidade de fenômenos, além suas curas medicinais universalmente aclamadas.

Cagliostro agora deixou que soubessem que ele era o Grande Cophta da Loja, um sucessor na linhagem de Enoch, e que ele, obedientemente, recebia ordens de “seus chefes”. Infelizmente, a vontade de apoiar a Maçonaria Egípcia alimentava-se da insaciável fome por mais fenômenos. Cagliostro mostrou seus poderes em numerosas ocasiões, mas recusava-se a ser empurrado para um mercado atacadista de milagres. E pela primeira vez ele se viu chamado de impostor, quando não atendia aos pedidos.

“O espiritismo nas mãos de um Adepto se torna magia”, H.P.Blavatsky escreveu, “pois ele é versado na arte de entremesclar as leis do Universo, sem quebrar nenhuma delas e sem por isso violar a natureza”. Ela disse que homens tais como Mesmer e Cagliostro “controlam os Espíritos, em vez de permitir que seus assuntos sejam controlados por eles; e o Espiritismo está a salvo nas suas mãos”. Mas, Cagliostro explicou, tais poderes eram para serem usados para o bem do mundo e não para a gratificação da curiosidade ociosa.

Ele decidiu ir para São Petersburg, onde foi aceito na Loja e inúmeras curas foram testemunhadas, mas não receberam com calor a idéia da Maçonaria Egípcia. Recusando-se a produzir os fenômenos, pensaram que era um curador, não um mago.

Varsóvia respondeu melhor, contudo. Lá ele encontrou o Conde Moczinski e o Príncipe Adam Poninski, que insistiu com Cagliostro para ficar em sua casa. Ele aceitou a Maçonaria Egípcia e uma grande parte da sociedade polonesa o seguiu. Dentro de um mês, uma Loja para o Rito Egípcio foi fundada. Em 1780 ele foi recebido em várias ocasiões pelo Rei Stanislaw Augustus. Descreveu o passado e predisse o futuro de uma senhora da Corte que duvidou de seus poderes. Ela, imediatamente, atestou o passado, enquanto a história provou a verdade no futuro.

Cagliostro deixou Varsóvia em 26 de junho e não foi visto até 19 de setembro, quando chegou a Strasburgo. Multidões aguardavam na Ponte de Keehl para ver sua carruagem e ele foi aclamado quando entrou na cidade. Imediatamente, começou a atender aos pobres, libertando devedores da prisão, curando os doentes e fornecendo remédios gratuitamente. Tanto os amigos quanto os inimigos concordavam que Cagliostro se recusava a receber qualquer remuneração ou benefício por seus incansáveis trabalhos. Embora a nobreza se tornasse interessada, ele se recusava a produzir fenômenos, salvo em seus próprios e estritos termos. Logo ficou íntimo do Cardeal de Rohan, para quem ele previu a hora exata da morte da Imperatriz Maria Theresa. O cardeal convidou-o a se hospedar em seu palácio e mais tarde declarou que ele havia testemunhado em várias ocasiões Cagliostro produzir ouro num vaso alquímico. “Posso dizer-lhe com certeza”, ele insistiu com uma senhora que duvidava da habilidade de Cagliostro, “que ele nunca pediu ou recebeu qualquer coisa de mim”.

O General Laborde escreveu que nos três anos que Cagliostro viveu em Strasburgo ele atendeu quinze mil pessoas doentes, das quais apenas três morreram. Sua reputação foi confirmada quando ele salvou o Marquês de Lasalle, Comandante de Strasburgo, de um caso desesperador de gangrena. Durante este período, o primo do Cardeal, Príncipe de Soubise, adoeceu em Paris. Os médicos não lhe deram nenhuma esperança de cura e o Cardeal, alarmado, suplicou a ajuda de Cagliostro. Este viajou incógnito a Paris com o Cardeal, e o Príncipe recuperou a saúde em uma semana. Somente após a cura foi sua identidade anunciada, para espanto da faculdade de medicina parisiense.

Quando estava em Strasburgo, Cagliostro recebeu a visita de Lavater, o fisiognomonista de Zurique, que indagou acerca da fonte do grande conhecimento de Cagliostro. “In verbis, in herbis, in lapidibus”, ele respondeu, sugerindo três grandes tratados de Paracelso.

Foi naquela época que Cagliostro foi tocado pela condição de pobreza de um homem chamado Sacchi e empregou-o em seu hospital. No espaço de uma semana, Cagliostro descobriu que o homem era um espião de alguns médicos invejosos e havia extorquido dinheiro de seus pacientes a fim de torná-lo desacreditado. Posto para fora do hospital, Sacchi ameaçou a vida de Cagliostro e foi imediatamente expulso de Strasburgo pelo Marquês de Lasalle. Sacchi inventou e publicou uma história difamatória na qual afirmava que Cagliostro era um filho criminoso de um cocheiro napolitano. Esse absurdo estava destinado a ser usado contra Cagliostro pelo resto de sua vida.

O Cardeal de Rohan, que havia instalado um busto de Cagliostro talhado pelo escultor Houdon em seu estúdio em Saverne, surgiu em sua defesa. Três cartas chegaram em março de 1783 da Corte de Versalhes, para o Real Baylor de Strasburgo. A primeira, do Conde de Vergennes, Ministro dos Negócios Estrangeiros, dizia: “O Sr. Di Cagliostro pede apenas por paz e segurança. A hospitalidade lhe assegura ambas. Conhecendo as inclinações naturais de V.S., estou convencido de que se apressará a cuidar para que desfrute de todos os benefícios e amenidades que ele pessoalmente merece”. A segunda veio do Marquês de Miromesnil, Guardador do Selo: “O Conde di Cagliostro tem estado comprometido ativamente no auxílio dos pobres e infelizes, e sou conhecedor de um fato notavelmente humanitário desempenhado por esse estrangeiro, que merece lhe seja garantida proteção especial”. A terceira, do Marechal de Segur, Ministro da Guerra, dizia: “O Rei encarrega V.S. que cuide não somente de que ele não seja atormentado em Strasburgo, como também que deva receber nessa cidade toda consideração totalmente merecida pelos serviços que tem prestado aos doentes e aos pobres”.

Em junho chegou uma carta de Nápoles, informando-lhe de que o Cavalheiro d'Aquino, seu companheiro em Malta, estava seriamente doente. Apressou-se a ir para Nápoles, apenas para encontrar o Cavalheiro morto. A Loja União Perfeita saudou-o com homenagens e ali ficou por vários meses, já que o governo napolitano tinha acabado de remover o banimento da Franco-Maçonaria. Bordeaux convidou-o a ir para lá, e ele decidiu assim fazer, viajando em lentas etapas.

O Conde de Saint-Martin já havia preparado terreno em Bordeaux e Lyons para instituir o Rito Retificado de Saint-Martin, que havia purificado e enobrecido a idéia da Maçonaria. O Duque de Crillon e Marechal de Mouchy pessoalmente lhe deram as boas vindas, mostrando-lhe a cidade e homenageando-o em banquetes. Os pobres afluíam até ele e eram curados. Em Bordeaux, Cagliostro teve um sonho no qual era levado a uma brilhante câmara, na qual sacerdotes egípcios e nobres Maçons estavam sentados. “Esta é a recompensa que você terá no futuro”, uma grande voz anunciou, “mas por enquanto você deve trabalhar ainda com mais diligência” Havia chegado o tempo de enraizar firmemente a Maçonaria Egípcia.

Alquier, Grão Mestre em Lyons, chefiou um grupo de delegações solicitando que ele se estabelecesse ali permanentemente. Aceito com toda a cerimônia dentro da Loja Lyons, foi convidado a fundar uma Loja para a Maçonaria Egípcia. Uma captação feita entre Maçons forneceu fundos para construírem um belo prédio, de acordo com as instruções de Cagliostro. Logo teve início a construção da Loja da Sabedoria Triunfante, a qual foi a Loja Mãe de todos os Maçons Egípcios, e a Cagliostro foi dado completo gerenciamento da Loja de Alquier.

Cagliostro instruiu seus novos discípulos a se retirarem em meditação por três horas diariamente, pois o conhecimento é adquirido pelo “preenchimento de nossos corações e mentes com a grandeza, a sabedoria e o poder da divindade, aproximando-nos dela através de nosso fervor”. Cada um deve cultivar a tolerância por todas as religiões, uma vez que existe a verdade universal em seus âmagos; segredo, porque é o poder da meditação e a chave da iniciação; e o respeito pela natureza, pois ela contém o mistério do divino. Com estas três diretrizes como base, o discípulo poderia esperar pela imortalidade espiritual e moral. A motivação que deverá estar sempre em mente é “Qui agnoscit mortem, cognoscit artem” – aquele que tem conhecimento sobre a morte, conhece a arte de dominá-la.

Tendo estabelecido a Maçonaria Egípcia sobre as firmes fundações erigidas por Saint-Martin, Cagliostro não estava destinado a testemunhar seu florescimento no grande templo para ela construído. O Cardeal de Rohan insistiu com veemência que ele viesse a Paris. A Ordem dos Philaléthes tinha organizado a Convenção Geral da Maçonaria Universal. Maçons proeminentes de todas as Lojas da Europa tinham vindo para a primeira assembléia realizada em novembro de 1784. Mesmer e Saint-Martin foram convidados. Agora era a chance para a bênção final do Rito Egípcio – “onde A Sabedoria triunfará” – fosse confirmada. Cagliostro decidiu ir em janeiro de 1785. Deixando os negócios da Loja em ordem, ele escolheu os oficiais permanentes e lembrou-lhes de seus compromissos.

“Nós, os Grandes Cophtas, fundadores e Grão Mestres da Suprema Maçonaria Egípcia em todas as quadrantes orientais e ocidentais do globo, damos ciência a todos aqueles que verão o que está aqui presente,que em nossa estada em Lyons muitos membros deste Oriente que seguem o rito ordinário, e que carregam o título de “Sabedoria”, tendo manifestado a nós seu ardente desejo de se submeterem ao nosso governo e de receberem de nós a iluminação e os poderes necessários para conhecerem e propagarem a Maçonaria em sua verdadeira forma e pureza original, atendemos aos seus pedidos, persuadidos de que, aos lhes fornecermos sinais de nossa boa vontade, conheceremos a grata satisfação de termos trabalhado para a glória do Eterno e para o bem da humanidade.”

“Em aditamento, instruímos cada um dos irmãos que andem constantemente no estreito caminho da virtude e que mostre, pela propriedade desta conduta, que conhecem e amam os preceitos e o propósito de nossa Ordem.”

Quando Cagliostro chegou a Paris, tentou viver uma vida retirada, de modo a trabalhar pela união das Ordens Maçônicas. Mas os doentes irromperam em sua casa e ele outra vez passou longas horas curando-os. Panfletos surgiram por toda Europa com um retrato do divino Cagliostro, desenhado por Bartolozzi, sob o qual se escreveram as seguintes palavras:

“Reconheçam as marcas do amigo da humanidade. Cada dia é marcado por novo benefício. Ele prolonga a vida e socorre o indigente, o prazer de ser útil é sua única recompensa.”

Cagliostro veio para auxiliar o progresso da Maçonaria Egípcia. Rapidamente fundou duas Lojas. Savalette de Langes convidou-o a se unir à Philaléthes, junto com Saint-Martin. Este último recusou, com base em que a Ordem seguia práticas espíritas, porém Cagliostro aceitou provisoriamente, e declarou sua missão:

“O desconhecido Grão Mestre da verdadeira Maçonaria lançou seus olhos sobre os Philalétheanos... Tocado pelo sincero reconhecimento de seus desejos, ele se digna estender sua mão sobre eles, e consente em conceder-lhes um raio de luz dentro da escuridão de seu templo. É o desejo do Desconhecido Grão Mestre provar a eles a existência de um Deus – a base de sua fé; a dignidade original do homem, seus poderes e destino... É por atos e fatos, pelo testemunho dos sentidos, que eles conhecerão DEUS, O HOMEM e as coisas espirituais intermediárias (princípios) existentes entre eles: dos quais a verdadeira Maçonaria dá os símbolos e indica o verdadeiro caminho. Que eles, os Philaléthes abracem as doutrinas desta verdadeira Maçonaria, submetam-se às normas de seu chefes, e adotem sua constituição. Mas, acima de tudo, que o Santuário seja purificado; saibam os Philaléthes que a luz pode apenas descer dentro do Templo da Fé (baseada no conhecimento), não dentro daquele do Ceticismo. Que se dediquem às chamas as vaidades acumuladas em seus arquivos; pois é apenas sobre as ruínas da Torre da Confusão que o Templo da Verdade pode ser erigido.”

Após infrutíferas negociações, ele enviou a seguinte mensagem:

“Saibam que não estamos trabalhando para um homem, porém para toda a humanidade. Saibam que desejamos destruir o erro – não somente um simples erro, porém todos os erros. Saibam que esta política é dirigida não contra exemplos isolados de perfídia, porém contra todo um arsenal de mentiras.”

Finalmente, após ter ficado claro que a grande Convenção não chegaria a nenhum acordo, ele enviou a última e triste carta: “Já que vocês não têm fé nas promessas do Deus Eterno ou de Seu ministro na terra, eu os abandono a vocês mesmos, e lhes digo esta verdade: não é mais minha missão ensinar-lhes. Infelizes Philaléthes, vocês semearam em vão; vocês colherão apenas ervas daninhas”. Assim, foi perdida a maior possibilidade de lançar as fundações da Fraternidade Universal à época de Cagliostro.

O restante da vida de Cagliostro é trágico. O cardeal de Rohan desejou obter um lugar na corte, porém Maria Antonieta não gostava dele. Madame de Lamotte, desconhecida da Rainha, viu uma chance para um grande ganho pessoal na frustração do Cardeal. Fazendo-se de confidente da Rainha, ela forjou cartas de Maria Antonieta para de Rohan e fingiu que levava respostas de volta a Versalhes. Finalmente ela induziu o Cardeal a comprar um ostentoso colar no valor de um milhão e seiscentos mil livres para a Rainha, colocando o valor em sua conta. Quando a primeira prestação venceu, a Rainha, que não sabia nada do negócio, não pagou e de Rohan foi forçado a honrá-lo. A batalha que se seguiu na Corte viu Madame de Lamotte defendendo-se e acusando a Rainha de trapaça e Cagliostro de roubar o colar que ela mesma havia quebrado e vendido. A Rainha ficou furiosa, e todas as partes envolvidas no caso foram encarceradas na Bastilha. Embora Cagliostro fosse completamente inocente, tanto ele como Seraphina passaram seis meses na prisão. O caso alcançou tão horríveis proporções que a velha e abusiva denúncia de Sacchi veio a público e lida contra Cagliostro, mas o Parlamento de Paris ordenou sua supressão por ser “injuriosa e caluniadora”. Finalmente Cagliostro foi declarado inocente e libertado diante de dez mil parisienses que esperavam por ele. O “Caso do Colar de Diamantes” é em geral admitido como sendo o prólogo da Revolução [francesa]. Maria Antonieta considerou a libertação de Cagliostro e do Cardeal como um ataque à sua reputação. O Rei ordenou que Cagliostro deixasse a França e afastou o Cardeal de suas atribuições.

Cagliostro viajou para a Inglaterra, porém seus inimigos, agora completamente cientes da total natureza de sua missão, viram a chance de destruí-lo. Mal havia chegado à Inglaterra quando o famoso editor do vicioso Correio da Europa o atacou. Cagliostro alojou Seraphina com o artista de Loutherbourg e viajou para a Suíça em 1787.

Seraphina juntou-se a ele na companhia de Loutherbourg imediatamente depois. A Maçonaria Egípcia era praticada por pequenos grupos em Bale e Bienne, mas não puderam apoiar o casal Cagliostro. Já que seus próprios poderes somente poderiam ser usados para os outros e não para si mesmo, e agora que os outros o rechaçavam, ele era forçado a viajar sem repouso.

Por volta de 1789 ele chegou a Roma para encontrar-se em segredo com Franco-Maçons da Loja Verdadeiros Amigos. A Igreja, porém, totalmente ciente da ameaça espiritual que Cagliostro apresentava para ela, enviou dois Jesuítas fazendo-se de convertidos para a Maçonaria Egípcia. Na ocasião em que eram admitidos à Ordem, eles convocaram a policia papal, e o casal os Cagliostro foi levado para a prisão no Castelo Santo Ângelo em 17 de dezembro. Se Seraphina se voltou contra Cagliostro ou sucumbiu por medo diante da Inquisição, não está claro. Mas seus depoimentos foram prejudiciais. Após dúzias de interrogatórios, nos quais a trama foi ameaçadoramente disposta, a Inquisição soube apenas o que todo mundo sabia: que Cagliostro era um Maçom, um herege pela sua crença de que todas as religiões são iguais, e que desprezava a intolerância religiosa. A farsa terminou em 21 de março de 1791, quando a Inquisição condenou Cagliostro à morte. Entretanto, antes de o Papa assinar a sentença, um estrangeiro apareceu no Vaticano. Dando uma palavra ao Secretário do Cardeal, foi imediatamente admitido em audiência. Após sua saída, o Papa comutou a sentença para prisão perpétua.

Seraphina foi libertada apenas para ser presa por novas acusações e internada no convento de Santa Apolônia de Trastevere. Nada mais se soube sobre ela e seu corpo nunca foi encontrado. Cagliostro foi enviado ao Castelo São Leo e colocado no topo inacessível de um rochedo. Lá ele pereceu até 1795. Uma inscrição que fez na parede de sua cela tem a data de 15 de março. Roma reportou que ele morreu em 26 de agosto.

Aqui acaba a história, mas a tradição maçônica sussurra que Cagliostro escapou da morte. Endreinek Agardi de Koloswar relatou que o Conde d’Ourches, que quando criança havia conhecido Cagliostro, jurou que o Senhor e a Senhora de Lasa, saudados em Paris em 1861, não eram ninguém menos que o Conde e a Condessa Cagliostro. Com o nascimento envolto em mistério, Cagliostro saiu desta vida também em mistério, conquanto sua existência tenha sido dedicada ao serviço da humanidade e à esperança da imortalidade espiritual.

Fonte: Levir