quinta-feira, 31 de julho de 2008

Maçonaria - A Iniciação

Por Pedro Neves

A iniciação nada mais é que a recepção que é praticada por aquele que é candidato a se associar a uma Loja Maçônica, uso o termo associar de acordo com as leis civis existentes em nosso país.

Uma maçonaria sem base iniciática nada mais é que uma sociedade filantrópica.

É necessária que haja uma morte metafórica e simbólica, assim tal a fênix que renasce das cinzas, o novo associado se desnuda de suas paixões, vaidade e intransigência, o que nos leva ao pensamento do Filósofo e filólogo Nietzsche, em seu livro Zaratustra, "É preciso haver morte para que surja o super-homem; ele indica a necessidade da superação de si mesmo e com isso aponta para uma nova maneira de sentir, pensar, avaliar" e é esta a diferença entre o iniciado e o não iniciado.

É uma maiêutica (parto), termo usado pelo filósofo Sócrates, para uma nova vida que se descortinará na vida do iniciado.

A iniciação é o primeiro passo e é necessário para se ingressar na escalada maçônica, muitos passam pelo processo de iniciação e não prosseguem na busca de novos conhecimentos e aperfeiçoamento, isto é abandonam por qualquer motivo a ordem maçônica.

Matemáticos e filósofos constataram que nós somos números e símbolos.

O simbolismo representa a base, o fundamento de toda a maçonaria do mundo, ou seja, universal.

O iniciado tem que aprender gradativamente os símbolos e alegorias.

Quem seja incapaz de compreender os símbolos se achará sempre na posição de não iniciado e que entrando em um templo maçônico, mesmo lendo um livro, revista, a mídia eletrônica ou outra fonte de pesquisa referente à maçonaria, observa toda uma série de objetos, que lhe parece familiar, mas não entende o seu significado.

Símbolo = Figura, marca, qualquer objeto físico que apresenta um significado convencional.

Alegoria = Forma figurada de um pensamento, ficção ou metáfora que na expressão tem um significado e no sentido, outro.

As Viagens

Já foi dito que o homem, para se tornar maçom, tem que ser submetido às provas que constam nos Rituais e é necessário que se cumpra as partes ritualística, que por sua vez são conhecidas por viagens.

O candidato está cego, por esta razão não enxerga o que se passa a sua volta, ele faz um trajeto sempre conduzido por um Ir.,experiente.

Simbolicamente, os caminhos são cheios de obstáculos, que ele candidato terá que superá-los, estes caminhos, representam os perigos em sua vida, bem ele venceu esta primeira fase.

Em outra viagem, tão importante quanto a primeira, ele encontrará novos desafios, trovões, tempestades, ruídos de espadas e termina com um lavar de mãos, significando que ele está em parte purificado, por esse elemento da natureza que é a água.

Depois de tantos obstáculos que foram superados a seqüência é fazer um trajeto mais tranqüilo e silencioso, ele enfrenta agora outra purificação, o elemento da natureza é o fogo, que serve para ativar bem o coração no candidato o amor aos seus iguais, a fraternidade e a caridade.

Estas provas representam no candidato o seu renascimento e morte para os seus preconceitos, erros e ilusões.

Fonte: http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/948665
Email do autor: neves.pedro@gmail.com

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Zen


Zen é o nome japonês da tradição C'han, surgida na China e associada em suas origens ao Budismo do ramo Mahayana. Foi ou é cultivado sobretudo na China, Japão, Vietnam e Coréia. A prática básica do Zen na versão japonesa e monástica é o Zazen, tipo de meditação contemplativa que visa a levar o praticante à "experiência direta da realidade".

No Zen japonês monástico, há duas vertentes principais: Soto e Rinzai. Enquanto a escola Soto dá maior ênfase à meditação silenciosa, a escola Rinzai faz amplo uso dos koans. Actualmente, o Zen é uma das escolas budistas mais conhecidas e de maior expansão no Ocidente.

Segundo Allan Watts, inglês que se notabilizou por sua divulgação do Zen, este, em sua forma original chinesa, não se encontra mais na China, e o que de mais próximo se pode conhecer desta versão original é encontrado em formas de Arte tradicionais do Japão, que tenham sido cultivadas e transmitidas segundo esta tradição.

História

Como todas as escolas budistas, o Zen remete suas raízes ao budismo indiano. A palavra zen vem do termo sânscrito dhyana, que denota o estado de concentração típico da prática meditativa. Na China, esse termo foi transliterado como channa, e logo reduzido à sua forma mais curta, chan (禪). Daí para o coreano como sŏn (선), e finalmente para o japonês como zen.

Segundo os relatos tradicionais, o estilo de prática Zen foi levado da Índia à China pelo monge indiano Bodhidharma (em japonês, Daruma), por volta do ano 520 d.C. Embora a historicidade desse relato tenha sido colocada em dúvida por estudiosos modernos, a história (ou lenda) de Bodhidharma é a metáfora fundamental do Zen sobre o cerne de sua prática.

Segundo conta o Registro da Transmissão da Lâmpada, um dos mais antigos textos do Zen, Bodhidharma chegou à China pelo território da Dinastia Liang e, devido à sua fama de sábio, foi imediatamente convocado à corte do famoso Imperador Wu-ti. O imperador, que havia apoiado enormemente o budismo na China, perguntou a Bodhidharma sobre o mérito que havia ganhado por apoiar o budismo, esperando que esse mérito lhe garantisse uma boa vida em sua encarnação seguinte. Bodhidharma, porém, respondeu: "Nenhum mérito". O imperador, enraivecido, perguntou então: "Quem é esse que está diante de mim?" (em linguagem atual, algo como "Quem você pensa que é?") Bodhidharma respondeu: "Não sei". Aturdido, o imperador concluiu que Bodhidharma devia ser louco, e o expulsou da corte. Um dos ministros então perguntou ao imperador: "Vossa Majestade Imperial sabe que é esta pessoa?" O imperador disse que não sabia. O Ministro disse: "Ele é o Bodhisattva da Compaixão, portador do Selo do Coração de Buda"". Cheio de arrependimento, o imperador quis chamar Bodhidharma de volta, mas o ministro advertiu que ele não voltaria nem mesmo se todos os chineses fossem buscá-lo. Outras pessoas, porém, ficaram intrigadas com sua resposta e o seguiram até a caverna aonde ele havia ido viver. Lá, se tornaram seus discípulos, e descobriram que Bodhidharma era o herdeiro espiritual de Mahakashyapa, um dos grandes discípulos de Buda.

De acordo com os ensinamentos tradicionais, Bodhidharma não sabia responder porque sua verdadeira natureza, assim como a verdadeira natureza de todas as coisas, estava além do conhecimento discursivo, de definições e de palavras. É a esta experiência direta da realidade que aspira o Zen.

Mahakashyapa, de quem Bodhidharma era herdeiro espiritual e sucessor, havia ele mesmo tido essa experiência, e se iluminado. Segundos os sutras, Mahakashyapa foi o único discípulo de Buda a compreender seu Discurso do Lótus, em que Buda, sem dizer nada, apenas levantou uma flor. Era a realidade imediata, além das palavras.

Depois de treinar seus discípulos por muitos anos, Bodhidharma morreu, deixando seu aluno Huike (em japonês, Daiso Eka) como sucessor. Huike foi o Segundo Patriarca do Zen, e também deixou uma linha de sucessão da qual pouco se sabe, até chegar a Huineng (em japonês, Daikan Eno, 638-713), o Sexto e último Patriarca. Huineng, um dos maiores mestres da história do Zen, participou de uma famosa disputa quando sucedeu seu mestre: um grupo de monges recusava-se a aceitá-lo como patriarca, e propunha outro praticante, Shenxiu, em seu lugar. Sob ameaças, Huineng foi obrigado a fugir para um templo no sul da China; no final, apoiado pela maioria dos monges, foi reconhecido como patriarca.

Algumas décadas depois, porém, a contenda foi ressucitada. Um grupo de monges, dizendo-se sucessor de Shenxiu, enfrentou um outro grupo, a Escola do Sul, que se apresentava como sucessora de Huineng. Depois de debates acalorados, a Escola do Sul acabou prevalecendo, e seus rivais desapareceram. Os registros dessa disputa são os mais antigos documentos históricos fiéis sobre a escola Zen de que dispomos hoje.

Mais tarde, monges coreanos foram à China para estudar as práticas da escola de Bodhidharma. Quando chegaram, o que encontraram foi uma escola que já havia desenvolvido identidade própria, com fortes influências do Taoísmo, e que já era conhecida pelo nome Chan. Com o tempo, o Chan acabou se estabelecendo na Coréia, onde recebeu o nome Seon.

Da mesma forma, monges chegavam de outros países da Ásia para estudar o Chan, e a escola foi se espalhando pelos países vizinhos. No Vietnã, recebeu o nome Thien, e, no Japão, ficou conhecida como Zen. Através da história, essas escolas cresceram de maneira independente, tendo desenvolvido identidades próprias e características bastante diferentes umas das outras.

Práticas e ensinamentos do Zen

De um modo geral, os ensinamentos do Zen criticam o estudo de textos e o desejo por realizações mundanas, recomendando, antes, a dedicação à meditação (zazen) como forma de experimentar a mente e a realidade de maneira direta. No entanto, o Zen não chega a ser uma doutrina quietista -- o mestre Chan chinês Baizhang (em japonês, Hyakujo, 720-814), por exemplo, dedicava-se ao trabalho braçal em seu monastério e tinha por lema um ditado que ficou famoso entre os praticantes de Zen: "Um dia sem trabalho é um dia sem comida."

De fato, o Zen tem uma longa tradição de trabalho meditativo, desde atividades braçais até as mais refinadas, como caligrafia, ikebana e a famosa cerimónia do chá -- além de artes marciais, com as quais o Zen sempre esteve ligado.

Essas práticas, porém, estão bem fundamentadas nas escrituras budistas, principalmente nos sutras Mahayana compostos na Índia e na China, em particular o Sutra da Plataforma de Huineng, o Sutra do Coração, o Sutra do Diamante, o Lankavatara Sutra e o Samantamukha Parivarta, um capítulo do Sutra do Lótus. A grande influência do Lankavatara Sutra, em particular, levou à formação da filosofia "apenas mente" do Zen, na qual a consciência em si mesma é a única realidade.

O Zen não é um estilo de prática intelectual ou solitário. Templos e centros de prática congregam sempre um grupo de praticantes (uma sangha), e conduzem atividades diárias e retiros mensais (sesshins). Além disso, o Zen é tido como um estilo de vida, e não apenas como um conjunto de práticas ou um estado de consciência.

Zazen

Para o Zen, experimentar a realidade diretamente é experimentar o nirvana. Para experimentar a realidade diretamente, é preciso desapegar-se de palavras, conceitos e discursos. E, para desapegar-se disso, é preciso meditar. Por isso, o zazen ("meditação sentada") é a prática fundamental do Zen.

Ao meditar, o praticante senta-se sobre uma pequena almofada redonda (o zafu) e assume a postura de lótus, a postura de meio lótus, a postura burmanesa ou a postura de seiza. Unindo as mãos um pouco abaixo do umbigo (fazendo o mudra cósmico), ele semicerra suas pálpebras, pousando a vista cerca de um metro à sua frente. Na escola Rinzai, os praticantes sentam-se virados para o centro da sala. Na escola Soto, sentam-se virados para a parede.

Então o praticante "segue sua respiração", contando cada ciclo de inspiração e expiração, até chegar a dez. Então o ciclo recomeça. Enquanto isso, sua única tarefa é manter uma mente relaxada, aberta, concentrada mas sem tensão, e estar presente no "agora" do momento, sem se deixar levar por pensamentos ou ruminações. Quando isso acontece, ele volta a se concentrar na contagem. Os praticantes mais experientes, cujo poder de concentração (samadhi) é maior, podem abster-se de contar ou seguir sua respiração. Fazendo assim, eles estarão praticando o tipo de zazen chamado shikantaza, "apenas sentar-se".

A duração de um período de meditação varia de acordo com a escola. Embora o período tradicional de meditação seja o tempo que uma vareta de incenso leva para queimar (de 35 a 40 minutos), escolas como a Sanbo Kyodan recomendam a seus alunos que não meditem por mais de 25 minutos por vez, pois a meditação pode tornar-se inerte. Na maioria das escolas, porém, os monges rotineiramente meditam entre quatro e seis períodos de 30-40 minutos todos os dias. Quanto a leigos, o mestre Dogen dizia que cinco minutos diários já eram benéficos -- o que importa é a constância.

Durante os retiros (sesshins) mensais, porém, as atividades são intensificadas. Com duração de um, três, cinco ou sete dias, a rotina dos retiros prevê de nove a 12 períodos de 30-40 minutos por dia, ou até mais. Entre cada período de zazen, os praticantes "descansam" fazendo kinhin (meditação andando).

O professor

Como o Zen dá relativamente pouca importância à palavra escrita, o papel do professor é muito importante para o treinamento do praticante. De um modo geral, um professor de Zen é uma pessoa ordenada em qualquer escola que tenha recebido permissão para ensinar o Dharma a outros.

Uma parte central de toda a tradição Zen é a noção de transmissão do Dharma, ou seja, a idéia de que há uma linhagem ininterrupta de mestres que, a partir de Buda, transmitiram e receberam os ensinamentos e atingiram pelo menos algum grau de realização. Essa noção se originou da famosa descrição do Zen feita por Bodhidharma:

Uma transmissão especial, fora das escrituras;
Sem depender de palavras ou letras;
Apontando diretamente à mente humana;
Contemplando a sua própria natureza e atingindo o estado de Buda.

Quando um professor é reconhecido oficialmente como tendo atingido um certo grau de realização e é admitido à linhagem de mestres, diz-se que ele "recebeu a transmissão do Dharma". Desde pelo menos a Idade Média, essa transmissão, "de mente a mente", "de mestre a discípulo", tem tido um papel fundamental em todas as escolas de Zen. Durante a cerimônia de transmissão, o novo professor é presenteado com uma carta genealógica que mapeia toda a linhagem, de Buda até ele próprio.

Títulos honoríficos ligados a professores que receberam a transmissão do Dharma incluem: na China, Fashi e Chanshi; na Coréia, Sunim e Seon Sa; no Vietnã, Thay; e, no Japão, Osho ("sacerdote"), Sensei ("professor") e Roshi ("professor mais velho"). De um modo geral, fala-se em um "mestre Zen" apenas em referência a professores de renome, especialmente os medievais ou os antigos.

A iluminação

No Zen, a iluminação é geralmente chamada de satori ou kensho. O kensho é o primeiro vislumbre, por assim dizer, da verdadeira natureza da realidade e de si mesmo, é mais breve e pouco profundo. O satori, por sua vez, é uma experiência mais profunda e duradoura, em que o praticante tem uma experiência intensa da Natureza de Buda, e vê sua "face original".

Não se trata, porém, de uma experiência visionária. Embora algumas pessoas suponham que a experiência de iluminação deva levar quem a experimente a universos de luz intensa, ou coisa que o valha, o depoimento dos mestres Zen contradiz essa hipótese. Perguntado sobre como sua vida era antes e como ficou depois do satori, um mestre Zen moderno respondeu: "Agora meu jardim parece mais colorido."

Na iluminação, o praticante não é arrebatado a nenhum outro lugar.

Outra suposição comum é que, sendo iluminado, o fluxo de pensamentos pára, e o praticante fica como um espelho polido, refletindo a pura realidade sem pensamentos que o atrapalhem. Pelo contrário, os pensamentos não param -- o que ocorre é que o praticante abre mão deles, deixa-os passar, esquece deles, e esquece de si mesmo. Quando o Quinto Patriarca, Hongren (em japonês, Daiman Konin, 601-647), decidiu escolher quem o sucederia, propôs a seus discípulos que tentassem captar a essência do Zen em um poema; o autor do melhor poema seria seu sucessor. Quando receberam a notícia, os monges já sabiam quem seria o vencedor: Shenxiu, o aluno mais antigo de Hongren. Ninguém se deu ao trabalho de competir com ele. Apenas esperaram, e Shexiu escreveu seu poema e o pendurou na parede:

"Este corpo é a árvore de Bodhi.
A alma é como um espelho brilhante.
Toma cuidado para que sempre esteja limpo,
não deixando o pó se acumular sobre ele".

Todos os monges gostaram. Com certeza Hongren também iria gostar. Entretanto, no dia seguinte havia outro poema pendurado ao lado, que alguém havia pregado durante a noite:

"Bodhi não é como uma árvore.
O espelho brilhante não brilha em parte alguma:
Se nada há desde o princípio,
Onde se acumula o pó?"

Os monges ficaram assombrados. Quem teria escrito aquilo? Depois de algum tempo, descobriram: o autor do poema era Huineng, o cozinheiro do monastério. E, percebendo sua realização, foi a ele que Hongren estendeu seu manto e sua tigela, fazendo de Huineng o Sexto Patriarca.

Ensinamentos radicais

Algumas das histórias tradicionais do Zen descrevem mestres usando estranhos métodos de ensino, e muitos praticantes de hoje tendem a interpretar essas histórias de maneira excessivamente literal.

Por exemplo, muitos ficam indignados quando ouvem histórias como a do mestre Linji, fundador da escola Rinzai, que disse: "Se você encontrar o Buda, mate o Buda. Se você encontrar um Patriarca, mate o Patriarca." Um mestre contemporâneo, Seung Sahn, também ensina a seus alunos que todos precisamos matar três coisas: matar nossos pais, matar o Buda e matar nosso professor (no caso, o próprio Seung Shan). No entanto, é claro que nem Linji nem Seung Sahn estavam falando de maneira literal. O que eles queriam dizer era que precisamos "matar" nosso apego a professores e coisas externas.

Quando visitam templos ou centros de prática Zen, os iniciantes que leram muitas dessas histórias e esperam encontrar professores iconoclastas normalmente se surpreendem com a natureza conservadora e formal das práticas.

Textos Zen


Parábola de Buda

Ao atravessar um campo, um homem encontrou um tigre.
Fugiu a sete pés, com o tigre atrás dele. À sua frente encontrou um precipício em que acabou por cair. Mas conseguiu agarrar-se à raiz de uma velha videira e ali ficou pendurado, com o tigre a cheirá-lo. Tremendo de medo, olhou para baixo e viu outro tigre, lá longe em baixo, que o esperava, cheio de apetite. Só mesmo a videira lhe estava a salvar a vida. Mas apareceram dois ratos, um branco e outro preto, que pouco a pouco começaram a roer a raiz da videira. Foi só nesse momento que se apercebeu que, mesmo ao pé da raiz, estava um morango apetitoso. Agarrando-se à videira com uma mão, colheu o morango com a outra. E nunca um morango lhe coube tão bem!

Temperamento

Um estudante de Zen foi ter com Bankei e queixou-se:
- Mestre, Tenho um temperamento ingovernável. Como posso curá-lo?

- Tens uma coisa muito estranha, replicou Bankei. Mostra-me lá então isso que tens.
- Neste preciso momento não lhe posso mostrar, respondeu o outro.
Acontece inesperadamente!..., respondeu o estudante.
- Então, concluiu Bankei, não deve ser a tua verdadeira natureza.
Se fosse, podias mostrar-me em qualquer altura. Quando nasceste não o tinhas e não foram os teus pais que to deram. Pensa nisso.

A estrada enlameada

Tanzan e Ekido caminhavam juntos numa estrada enlameada. Caía ainda uma chuva forte. Junto a um cruzamento da estrada, encontraram uma bela moça que não conseguia atravessar porque não queria sujar o belo kimono de seda que trazia.

- Anda moça, disse Tanzan imediatamente. E, carregando-a nos seus braços, atravessou-a para o outro lado da zona mais enlameada.
A partir daí, Ekido ficou calado todo o caminho que percorreram até à noite. Ao chegarem ao templo onde ficariam a pernoitar, Ekido não conseguiu se conter e disse a Tanzan:
- Nós os monges não nos aproximamos de mulheres. Especialmente se são jovens e bonitas. É perigoso. Porque fizeste aquilo?
- Eu deixei a moça lá atras, disse Tanzan. Tu ainda estás a carregá-la?


Tudo é melhor

Quando Banzan passeava num mercado, ouviu uma conversa entre o carniceiro e um cliente.
- Dê-me o melhor bocado de carne que tem, disse o cliente.
- Na minha loja tudo é o melhor, respondeu o carniceiro.
Não encontrará aqui nenhum bocado de carne que não seja o melhor! Ao ouvir estas palavras, Banzan tornou-se um iluminado.

O meu coração arde como fogo

Soyen Shaku, um mestre Zen, disse um dia: "Os meus olhos são frios como cinzas mortas, mas meu coração arde como o fogo". Eis as regras que praticava em cada dia da sua vida: De manhã, antes de se vestir, acenda incenso e medite. Coma a intervalos regulares e deite-se a uma hora regular. Coma sempre com moderação e nunca até ficar plenamente satisfeito. Receba as suas visitas com a mesma atitude que tem quando está só. E, quando está só, mantenha a mesma atitude que tem quando recebe visitas. Preste atenção ao que diz e, o que quer que diga, pratique-o. Quando uma oportunidade chegar, não a deixe passar, mas pense sempre duas vezes antes de agir. Não se deixe perturbar pelo passado. Olhe para o futuro. A sua atitude deve ser a de um herói sem medo mas o coração deve ser como o de uma criança, cheio de amor. Ao retirar-se, ao fim do dia, durma como se tivesse entrado no seu último sono. E, ao acordar, deixe a cama para trás, instantaneamente, como se tivesse deitado fora um par de sapatos velhos.

Adaptado de artigo original publicado na Wikipedia.

terça-feira, 29 de julho de 2008

H. P. Blavatsky - O Aprendizado Oculto


Por Alfred P. Sinnett

Os estudos de H.P.B., enquanto esteve no ashram do Mestre, no Tibet, pertencem ao treinamento esotérico, preparando-a para o futuro papel, quando ela voltasse ao mundo exterior. Seu treinamento oculto, a preparação dos seus diversos corpos para atuar como transmissores de comunicações dos Mahatmas para o mundo muito ocupado dos homens, levou anos. Os fenômenos que ela produziu e as experiências pelas quais passou enquanto esteve na Rússia entre 1859 e 1863 são prova disso. Quando este treinamento oculto começou está indicado numa citação pelo autor em seu livro Incidentes da Vida de Madame Blavatsky: "Para tomar isto claro e inteligível devo explicar: ela nunca fez segredo de que tenha sido, desde a infância e até mais ou menos 25 anos, uma poderosa médium, embora depois desse período, devido ao regular treinamento psicológico e fisiológico, foi levada a perder esses dons perigosos e cada traço de mediunidade fora de sua vontade ou de seu direto controle foi superado." A idade, então, na qual seu definido treinamento nas mãos do Mestre começou foi aos 25 anos e esta é a época de sua segunda visita à Índia, de 1855 a 1857. Quando, sem dúvida, foi intensificado e acelerado. Porém, dessa fase não teremos conhecimento até que, por nossa vez, a experimentemos.

Contudo, temos o próprio testemunho de H. P. B.:

"Eu estava novamente na casa de M. K., sentada em um canto sobre uma esteira e ele andando no aposento com sua roupa de equitação e M. M. estava falando a alguém à porta. Não posso me lembrar... Pronunciei em resposta à uma sua pergunta a respeito de uma tia falecida. Ele sorriu e disse: Que inglês engraçado você usa!' Então eu me senti envergonhada, ferida em minha vaidade e comecei a pensar (imagine você, em meu sonho ou visão qual seria a exata reprodução do que acontecera, palavra por palavra, há 16 anos). Agora que estou aqui e falando nada mais do que inglês em linguagem verbal fonética posso talvez aprender a falar melhor do que Ele. Esclarecendo, como o M. M., eu também usava inglês, que sendo bom ou mau é o mesmo para ele, dado que não o fala, mas entende cada palavra que digo fora de meu cérebro e eu consigo entendê-Lo - como? Nunca poderia dizer ou explicar mesmo que me matassem, mas eu o consigo. Com D.(jwal) K.(ul) eu também falo inglês e ele também fala melhor do que o Mahatma K. H. Voltando, então, ao meu sonho, três meses depois, como me parecia naquela visão, eu estava de pé diante do Mahatma K. H., perto do velho edifício demolido para o qual Ele olhava. Como o Mestre não estava em casa eu passei para Ele umas poucas sentenças que eu estava estudando em Senzar no quarto de sua irmã e pedi-lhe que me dissesse se eu as havia traduzido corretamente e lhe dei um pedaço de papel com as referidas sentenças escritas em inglês. Ele o tomou e leu, e corrigindo a interpretação que eu fizera, leu-as do começo ao fim, dizendo: `Agora seu inglês está se tornando melhor. TENTE PEGAR FORA DE MINHA CABEÇA O POUCO QUE CONHEÇO DO IDIOMA'.

"Ele colocou a mão em minha testa na região da memória e, esfregando os dedos nela, senti mesmo a insignificante dor e um calafrio que já tinha experimentado e desde aquele dia ele fez o mesmo com minha cabeça diariamente, por cerca de dois meses".

A respeito desses poderes e em vista de suas cartas a irmã Vera (Mme. Jelihowsky), ela escreveu certa vez: "Não tenha medo que eu esteja louca. Tudo o que posso dizer é que "alguém" positivamente me inspira - mais do que isso, alguém entra em mim. Não sou eu quem fala ou escreve. É "algo" dentro de mim, meu elevado e luminoso Ser que pensa e escreve por mim.

Não me pergunte, minha amiga, o que experimento, porque não lhe poderia explica-lo claramente. Eu mesma não sei. A única coisa que sei, agora quando estou perto de atingir a velhice, é que me tornei uma espécie de depósito para o conhecimento de outra pessoa... esse "alguém" vem, me envolve em uma nuvem densa e de repente me separa de mim mesma e então não sou mais eu, Helena Petrovna Blavatsky, mas uma outra pessoa, alguém forte, poderoso, nascido em uma região totalmente diferente do mundo; e quanto a mim mesma, é quase como se estivesse adormecida ou como que inconsciente - não em meu próprio corpo, mas alo lado, mantida ligada somente por um fio que me conecta a ele.

"De qualquer modo, algumas vezes eu vejo e ouço tudo completamente claro; estou perfeitamente consciente do que meu corpo está dizendo ou fazendo ou, afinal, o seu novo possuidor. Posso entender e recordar tudo tão bem que depois posso repetir e até escrever suas palavras."

Em uma carta escrita à citada irmã, ela informa que estava aprendendo a sair do seu corpo e ofereceu fazer-lhe uma visita em Tiflis, cidade onde esta residia, "num piscar de olhos". Isso tanto assustou quanto divertiu a irmã que respondeu não -seria necessário, que não se incomodasse, ao que ela replica em outra carta: "Do que você tem medo? Nunca ouviu falar de aparições de "duplos"? Eu quero dizer, meu corpo pode estar quieto, dormindo na cama e não importaria mesmo se estivesse esperando o meu retorno já na condição de desperto - o corpo estaria em uma condição de idiota inofensivo. E não há do que se admirar, a luz de Deus estaria ausente dele, voando para você; e, então, retornaria e uma vez mais o templo estaria iluminado pela Divindade. Mas isso, desnecessário dizer, somente no caso de o fio interligante não ser quebrado. Se você gritasse como uma louca o fio ficaria rompido... Amém, então, para a minha existência! Eu morreria instantaneamente..."

Numa carta a outra pessoa, Mine. Jelihowsky informou: "Na primavera de 1878 aconteceu uma coisa estranha à Helena. Tendo se levantado e começado a trabalhar numa manhã como usualmente, subitamente perdeu a consciência e não a recuperaria senão cinco dias depois. Tão profundo era o seu estado de letargia que poderia ter sido cremada, não fosse a chegada de um telegrama de seu Mestre com a seguinte mensagem: `Nada receie. Ela não está morta, nem doente, mas precisa de um repouso. Ela está com estafa excessiva`.

O Prof. Rawson, em um artigo chamado "As Duas Mme. Blavatsky", disse: "Não tenho dúvidas de que Mine. Blavatsky teve conhecimento de muitos, senão de todos os ritos, cerimônias e instruções praticados entre os Druzos do Monte Líbano, porque ela me fala de coisas que somente são conhecidas pelos poucos favorecidos que têm sido iniciados."

Em relação ainda à estada na casa do seu Mestre, há o seguinte episódio: ela havia passado vários anos sem dar notícias suas à família na Rússia e todos estavam até convencidos de que teria morrido. Porém, em 11 de novembro de 1870 sua tia, Mme. Fadeef, assim escreve: "Aconteceu quando minha sobrinha estava do outro lado do mundo e ninguém de fato sabia onde estava. Todas as pesquisas resultaram infrutíferas, causando-nos preocupação. Estávamos preparados para aceitar sua morte quando uma carta dele (O Mestre), a quem vocês chamam Koot Humi, foi trazida da mais incompreensível e misteriosa maneira a minha casa por um mensageiro de aparência asiática, que desapareceu ante meus olhos. Esta carta que me solicitava não ter receio e informava que ela estava em segurança, ainda a tenho em Odessa (o original está arquivado em Adyar, na sede internacional da S. T. - nota do tradutor). Ela mostra no canto esquerdo inferior do envelope, escrito em russo: "Recebida em Odessa em 7 de novembro sobre Helinka (apelido familiar de H. P. B.), provavelmente do Tibete. A carta redigida em francês, manuscrita pelo M. K., tem a seguinte tradução:

"A Honrada e Muito Nobre Senhora Nadyejda Andreewna Fadeef - Odessa. - Os nobres parentes de Mme. H. Blavatsky não devem se afligir por motivo algum. Sua filha e sobrinha não deixou este mundo de modo algum. Está viva e deseja fazer saber àqueles a quem ama que está bem e muito feliz, no desconhecido e distante recanto que ela escolheu para si mesma. Ela esteve muito doente, mas não está mais; sob a proteção do Senhor Sangyas, ela encontrou devotados amigos que a guardam física e espiritualmente. As senhoras de sua casa podem, portanto, permanecer tranqüilas. Antes de 18 luas, ela voltará a sua família".

A Doutrina Secreta

Em 1888, foi publicada em Londres a grande obra de H. P. Blavatsky. Ela possui dois temas chave: a) Cosmogênese, b) Antropogênese, tendo como centro teórico as "Estâncias de Dzyan". Estas Estâncias foram traduzidas de um antigo manuscrito chamado "O Livro de Dzyan" e Blavatsky também usou alguns comentários escritos em chinês, tibetano e sânscrito. Estes textos de filosofia esotérica descrevem o surgimento do Universo e o aparecimento do homem, no planeta Terra.

O "Livro de Dzyan", segundo a escritora (Blavatsky não se considera a autora da obra A Doutrina Secreta), está intimamente relacionado com o Livro dos Preceitos de Ouro (fonte dos textos de A Voz do Silêncio) e com os "livros de Kiu-te", que são uma série de tratados do budismo esotérico conforme nos mostra David Reigle no livro The Books of Kiu-te or the Tibetan Buddhist Tantras (Editora Wizards). Em seu treinamento no Tibet, Blavatsky teve acesso a estes tratados, diretamente ligados à tradição espiritual mais antiga do Oriente e que foram preservados e comentados pelo budismo Mahayana.

O grande lama Tsong-Kha-pa (1357-1419), ao reformular o budismo Kadampa, reorganizando-o como a escola Gelugpa, fez uma série de compilações e comentários aos principais textos da mais genuína tradição espiritual. Blavatsky dava muita importância às obras de sua autoria, especialmente os "Lam Rim" - amplos tratados onde eram usadas as principais fontes, autores e escolas anteriores, com especial destaque ao pensamento de Nagarjuna, Asanga e Atisha. E foi em mosteiros Gelugpas que Blavatsky memorizou, estudou e recebeu instruções orais que mais tarde serviriam de base para comentários e esclarecimentos.

A palavra Dzyan, que é um termo tibetano, significa Meditação. Ele está vinculado à palavra sânscrita Dhyana, e tem relações com o termo Zen. Às vezes também é escrita "Dzyn", o que significa Sabedoria. E tem, também, uma identidade com a palavra Jnana (Sabedoria). Assim, A Doutrina Secreta é uma obra que tem no seu contexto e o espírito ¡nana e "meditativo". São idéias para serem meditadas, refletidas, investigadas, pensadas, pesquisadas.

Foi o resultado de um grande esforço e trabalho de quatro anos de Blavatsky procurando ofertar para os estudantes, especialmente os ocidentais, um instrumento para se buscar uma aproximação à sabedoria oriental e aos significados profundos da simbologia universal. É um desafio para a mente do estudante e possui significados cada vez mais profundos, na medida em que se tenta compreender o espírito dos slokas (sutras) e fazemos uma conexão entre as diferentes tradições filosóficas e simbólicas.

Em janeiro de 1884, saiu na revista, The Theosophist a notícia de que Blavatsky iria escrever uma outra grande obra, ampliando a anterior Isis sem Véu. Durante os anos de 1884 e 1885 ela dedicou-se a escrever. No início de 1886, escrevendo ao seu colega de estudos Alfred Sinnett, disse-lhe que "a cada manhã" surgia uma nova revelação e um novo cenário. A obra se ampliava em relação ao plano inicial e precisou reescrever várias vezes alguns dos seus capítulos.

Em setembro de 1886, remeteu da Europa (onde estava escrevendo) para a índia (Madras) o que seria o volume 1. Mas, em 1887 resolveu escrevê-lo novamente, com "acréscimos, retificações, cortes e substituições", pois o material se ampliava. Ela recebia ajuda, tanto dos seus amigos e colegas de estudos da filosofia esotérica, quanto auxílio de seus instrutores orientais.

Ainda em 1887, Blavatsky esteve bastante doente, à beira da morte, tendo recebido uma visita incomum: um dos seus Instrutores tibetanos esteve com ela e deu-lhe, segundo suas próprias palavras, a seguinte opção: "ou morrer, libertando-me (do corpo doente), ou continuar viva para terminar A Doutrina Secreta...". Tendo se recuperado, manteve seu contínuo esforço descrito como de imensa dedicação na tentativa de concluir esta obra, que ela considerava como a sua grande contribuição a todos os sinceros estudantes da tradição sabedoria.

Na primavera de 1887, foi residir em Londres, onde tinha um grupo de estudantes que a auxiliava na revisão dos textos e na confirmação das centenas de referências e citações que a obra fazia, pois a biblioteca e os livros pessoais de Blavatsky não passavam de 20 volumes, incluindo dicionários. Após esses perseverantes esforços, a Doutrina Secreta foi publicada, simultaneamente em Londres e Nova Iorque, no final do mês de outubro de 1888. As palavras finais de Blavatsky foram: "esta obra é dedicada a todos os verdadeiros teosofistas".

A obra mostra a unidade original de todas as religiões, dando bastante destaque ao simbolismo universal - fruto da linguagem comum existente em um passado remoto. A Doutrina Secreta foi a primeira grande tentativa, no Ocidente, de se publicar as chaves para o estudo das diferentes tradições, a partir de fragmentos da filosofia esotérica. Segundo suas palavras, o primeiro passo. consistia em "derrubar e arrancar pela raiz as árvores venenosas e letais da superstição, do preconceito e da ignorância presunçosa". O estudante da sabedoria esotérica deve perder inteiramente de vista as personalidades, crenças dogmáticas e as religiões particulares, e investigar o que existe de comum e essencial em todas as tradições.

No prefácio da primeira edição era dito: "esta obra não é a Doutrina Secreta em sua totalidade; contém apenas um número selecionado de fragmentos dos seus princípios fundamentais". Como dissemos anteriormente, o centro da obra são "As Estâncias de Dzyan", que ela comentou, ampliando as relações do simbolismo, fazendo correlações com as diferentes religiões, filosofias e idéias científicas da época. Tanto as "estâncias" quanto as ampliações não foram expostas como alguma revelação, mas sim encerram ensinamentos que se podem encontrar nos milhares de volumes que formam as escrituras das antigas religiões asiáticas e das primitivas religiões e filosofias herméticas ocidentais. O que Blavatsky procurou fazer foi uma brilhante síntese, mostrando que há uma unidade nessas antigas tradições. Ao mesmo tempo que indicava um horizonte bem mais amplo para as idéias relativas à Cosmologia e sobre a história da raça humana, desde uma imemorial idade até os tempos modernos.

Vários dos seus alunos deram depoimentos sobre esta magna obra. A seguir destacamos alguns deles, para sugerir o universo desta renomada publicação: Annie Besant - "O valor de A Doutrina Secreta não está em seus materiais considerados isoladamente, mas na incorporação deles em um todo amalgamado e coerente...".

Bertran Keightley - "Quanto ao valor da obra, competirá a posteridade o juízo final. Pessoalmente, expresso minha convicção de que, estudada com profundidade, A Doutrina Secreta será apreciada como de inestimável valor e oferecerá sugestões, chaves para solução dos problemas e orientação no estudo da Natureza e do Homem, e de tal ordem jamais encontradas em qualquer outra obra".

William Judge - "Ficou claramente estabelecido que o livro deveria ser feito de um tal modo que obrigasse o estudante esforçado a buscar muitas, verdades profundas... Todo estudante zeloso fará bem em não passar superficialmente sobre nenhuma parte do livro".


Como estudar a Doutrina Secreta


Um dos seus alunos, Robert Bowen, fez algumas anotações a partir dos comentários de Blavatsky ao grupo de estudantes do "Grupo Interno" da Loja Blavatsky. Redigiu-os apresentando depois à instrutora para ver se não existia algum erro de compreensão.

A principal sugestão é que não se deve ler este livro como os outros, isto é, do início ao fim seqüencialmente. Mas que existem algumas etapas preliminares:

a) procurar compreender os Três Princípios Fundamentais apresentados no Proêmio (Vol.I);
b) estudar a Recapitulação numerada que está no Resumo do Vol.I;
c) refletir sobre as Notas Introdutórias do Vol.III (edição em português);
d) estudar a Conclusão do Vol.III.

Publicado originalmente aqui.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

John Dee


"Podemos nos aproximar do interior, da profundeza e da visão de todas as distintas virtudes, naturezas, propriedades e Formas das criaturas. E também ir mais longe, subir, escalar, ascender e atingir (com as asas da especulação) em espírito, para contemplar o Espelho da Criação, a Forma das Formas, o Número Exemplar de todas as coisas numeráveis, tanto visíveis como invisíveis, mortais e imortais, corpóreas e espirituais".

- John Dee, Prefácio Matemático

Na época em que o impacto da Renascença alcançou a Inglaterra, suas diversas correntes se desenvolveram em formas divergentes e às vezes opostas. A doutrina renascentista da dignidade humana era enraizada na concepção clássica sobre a alma como o princípio individualizante da identidade humana, cujos poderes são comensuráveis em exata correlação às complexas forças da Natureza. Este ponto de vista alquímico, rico em implicações sobre a liberdade, responsabilidade e potencialidade humanas, ameaçou a concepção eclesiástica sobre a salvação vicária o bastante para abalar sua influência. A combinação resultante entre perseguição e indulgência (em troca de uma taxa) intensificou uma duradoura resistência, resultando na Reforma Protestante. Contudo, a disputa doutrinal e política deixaram pouco espaço para a tolerância e civilidade em qualquer país ou região que tivesse sido viciada pela intensa polêmica religiosa. Os Protestantes caçavam os heréticos e profanavam propriedades sacras tão zelosamente como fazia a Inquisição, substituindo as pretensões sobre a derradeira autoridade espiritual e social por reivindicações a respeito de uma revelação direta e um juízo crítico pessoal e autônomo que desdenhava as convicções dos outros.

Estas tensões religiosas e políticas conflitavam com o espírito essencial da Renascença e a obrigaram a se dividir em duas largas correntes, muitas vezes misturadas. Uma delas, tirando sua inspiração de Petrarca, evitava desafiar as doutrinas da Igreja ou da política, centrando sua atenção sobre a retórica e o estilo. Ao mesmo tempo em que cultivava a expressão elegante e intensa, em larga medida desconsiderava o conteúdo. A fonte da segunda corrente partiu de Pico della Mirandola e Marsilio Ficino, e estendeu os corolários do antigo pensamento grego e Neoplatônico. Dentro desta perspectiva humana, a dignidade pessoal implicava o poder de autotransformação. Uma vez que os poderes da alma correspondem a poderes inteligentes da Natureza, tanto a magia como a alquimia representavam as artes da mudança auto-iniciada. A primeira corrente fluiu para as universidades inglesas durante o período Tudor, mas a segunda encontrou seu caminho em homens de gênio excepcional como John Dee e Robert Fludd.

Depois da ascensão de Henrique VII ao trono, um grande número de galeses emigrou para a Inglaterra. Um de seus descendentes, Rowland Dee, casou com Johanna Wilde e por fim se tornou um nobre a serviço de Henrique VIII. Seu filho, John Dee, que podia alegar uma ancestralidade que remontava a Roderick o Grande, Príncipe de Gales e parente distante de Elisabeth I, nasceu em 13 de julho de 1527, em Londres. Tendo recebido uma sólida educação, em 1542 ele entrou no Saint John's College, de Cambridge, onde estudou grego com Sir John Cheke. Ao mesmo tempo em que este renomado erudito ensinava línguas e filologia clássicas, ele também mantinha interesses na matemática, e seu aluno o seguiu com entusiasmo. Anos mais tarde Dee escreveu sobre este período:

"Eu era tão intensamente aplicado nos estudos que naqueles anos eu seguia inviolavelmente a seguinte rotina: dormir só quatro horas por noite; uma pausa de só duas horas a cada dia para comer e beber (com algum recreio depois), e nas outras dezoito horas (exceto pelo tempo de ir e permanecer no serviço divino) eu passava em meus estudos e aprendizado".

Quando Dee recebeu seu Bacharelado em 1545, imediatamente foi nomeado membro de Saint Jonh's. No ano seguinte Henrique VIII fundou o Trinity College, e em 1547 Dee se tornou um de seus primeiros membros. Mesmo enquanto estudava grego seu primeiro e duradouro interesse pela engenharia foi estimulado por sua admiração das maravilhas mecânicas helenísticas. Para uma representação estudantil de uma peça de Aristófanes, Dee elaborou um besouro voador mecânico que raptava um dos atores do palco e o levava até um céu Olímpico fora da visão do público. O movimento dramático, realizado por engrenagens silenciosas e fios invisíveis, impressionou a platéia e alimentou rumores sobre magia negra.

A sede de Dee sobre conhecimento matemático não poderia ser satisfeita em uma atmosfera universitária em que a matemática era considerada na melhor das hipóteses um assunto de mercadores comuns, e na pior delas uma invocação e comércio com demônios. Em 1547 ele partiu para o continente para encontrar estudiosos e matemáticos. Ele encontrou-se com Gemma Frisius e Gerard Mercator, cujos mapas e instrumentos de navegação ele adquiriu, e encontrou a teoria heliocêntrica de Copérnico. Retornando brevemente ao Trinity College para receber seu grau de Mestre em Artes, logo ele viajou para Louvain para continuar seus estudos. Embora tenha se envolvido na legislatura civil "por recreação" e mais tarde obtivesse uma licença nesta área, ele escreveu um livro em 24 volumes chamado Mercurius Coelestis, que desde então se perdeu. Seu interesse na filosofia Hermética e na matemática não impediu que ele visitasse Antuérpia para encontrar Abraham Ortelius, o fazedor de mapas. Durante sua estada em Louvain Dee aceitou estudantes para estudos privados, uma prática que ele seguiria durante décadas. Na altura em que ele partiu para dar palestras no Colégio Rhemes em Paris, em 1550, ela já era reconhecida internacionalmente. Em Paris ele pronunciou palestras públicas sobre os Elementos de Euclides, de um ponto de vista matemático, físico e Pitagórico. Sua grande e ilustrada audiência ficava eletrizada por suas exposições e por várias provas e corolários originais que ele acrescentou a Euclides. Ele foi convidado a se tornar o instrutor de matemática para o Rei francês, mas rejeitou a honraria assim como rejeitaria outras semelhantes dos imperadores Carlos V, Ferdinando, Rodolfo II, Maximiliano e do Czar da Rússia.

Quando Dee voltou à Inglaterra, recusou-se a residir em qualquer das universidades. A desconfiança em relação à matemática e uma preferência por estudos retóricos acima da lógica e da filosofia criavam uma atmosfera que Dee considerava inimiga de seu intelecto aguçado. Quando diversos membros da faculdade lhe ofereceram um estipêndio para ensinar matemática em Oxford, ele o rejeitou alegando que tais colocações sub rosa apenas confirmavam a sua convicção de que para eles o assunto não merecia um estudo regular. Contudo ele não se esquivava de ensinar a nobreza. Em 1551 ele elaborou o horóscopo de Eduardo VI e ensinou astronomia ao jovem rei. Durante este período ele serviu o chefe de governo, o duro e poderoso Duque de Northumberland e seus filhos, incluindo Robert Dudley, a quem Elisabeth I haveria de por fim honrar tornando-o Conde de Leicester. Mais tarde Dee ensinou química - incluindo alquimia e matemática Pitagórica - para os parentes do Conde, Sir Philip Sidney e sua família.

A rainha Mary, embora Católica e oposta a tudo o que sugerisse magia, também pediu seu horóscopo para Dee. Talvez como conseqüência de atender a este pedido em meio a turbulências políticas e religiosas, ele foi preso durante um breve período em 1555 sob a acusação de "calcular e conjurar", mas sua relação geralmente boa com a realeza, a despeito de inclinações religiosas, conseguiu sua libertação. Em 1563 o fervoroso Calvinista John Foxe publicou seu Acts and Monuments, em que intitulava Dee de "o grande Conjurador", uma acusação que o assombrou ao longo de muitos anos, pois o livro de Foxe fora disponibilizado em toda Igreja inglesa e largamente lido. Embora sua reputação ficasse perenemente maculada diante da opinião pública, por fim Dee sentiu-se forte o bastante para apelar à corte para que esta passagem ofensiva fosse eliminada de edições posteriores. A despeito de fofocas malévolas, ele fez o horóscopo de Elisabeth I e determinou o dia mais auspicioso para sua coroação. Durante o reinado da rainha Mary, Dee ficou alarmado com a destruição de livros e manuscritos - e às vezes bibliotecas inteiras - durante a expropriação de mosteiros ingleses e prosseguimento das contendas religiosas. Ele sugeriu a criação de uma biblioteca real e se ofereceu para buscar manuscritos para ela. O plano deu em nada e Dee resolveu continuar o projeto privadamente.

Ao longo de todo este período Dee permaneceu preocupado com os benefícios práticos de seus estudos. Enquanto seus compatriotas procuravam por uma mítica Passagem Nordeste para Catai e para a Índia, Dee voltou sua atenção para a eventual possibilidade de uma Passagem Nordeste. Ele forneceu mapas e projetou rotas para a recém-instalada Companhia Moscovita, treinou seus capitães nas mais modernas técnicas de navegação e até mesmo investiu alguns de seus recursos pessoais na iniciativa. Sua academia marítima privada atraiu marinheiros e exploradores de toda a Europa, e embora a Companhia Moscovita não conseguisse penetrar além de Nova Zemlya, seu rendoso comércio com os russos confirmou a sabedoria do conselho de Dee e o alçou |à posição de autoridade na cartografia e exploração globais. A frota inglesa que primeiro adquiriu proeminência sob Elisabeth I deveu seu impressionante início aos planos que ele elaborou. Homem de energia incansável, Dee também fez contribuições à arquitetura e melhorou o aparato cênico, e deu uma base firme para os estudos ingleses sobre a antigüidade. Ele esboçou reivindicações régias geológicas para Elisabeth I baseando-as em suas concepções sobre as conquistas do rei Artur. Em 1582 ele apresentou planos para um calendário revisado, muito semelhante ao calendário Gregoriano recém instituído por Roma, mas mesmo que Elisabeth tenha esboçado uma proclamação para adotá-lo, o clero inglês impediu alegando que não desejava nada que parecesse imitar ou seguir a liderança do papado.

Um pouco antes de 1570 Dee mudou-se para a antiga casa de sua mãe em Mortlake. Localizada perto do Tâmisa e da corte londrina, ela lhe dava a solidão necessária para seu trabalho e ao mesmo tempo facilitava o acesso ao centro régio de atividade. Ele ampliou a casa a fim de instalar sua imensa biblioteca e três laboratórios separados com dispendioso instrumental para experiências químicas e alquímicas. Por volta de 1580 sua biblioteca abrigava três mil volumes e cerca de mil manuscritos. Nesta mesma época a biblioteca universitária de Oxford continha menos de quinhentos volumes. Um inventário das posses de Dee mostra que ele foi um estudante de todas as artes e ciências. Ele tinha as obras completas de Platão e Aristóteles, bem como uma grande coleção de escritos Estóicos, Epicuristas, neo-Platônicos e Renascentistas. Estavam também representados os antigos poetas e dramaturgos, assim como os últimos trabalhos de matemática, engenharia e tecnologia. Ele coletou um vasto número de manuscritos sobre filosofia e ciência medievais e todo o material que pôde encontrar sobre magia e pensamento Hermético. Embora ele considerasse os teólogos Protestantes dogmáticos e auto-justificadores, ele coletou as obras de Lutero junto com as de Calvinistas e as incluiu entre Agostinho, Lactâncio, Boécio, Ramón Lull, Nicolau de Cusa e Erasmo. Ele possuía manuscritos hebreus sobre a Kabbalah e uma cópia do Corão.

Além de apoiar a ciência, que ele seguia no espírito de Alberto Magno, Robert Grosseteste e Roger Bacon, ele por toda a vida acalentou uma crença de que um entendimento suficiente demonstraria que todas as religiões e filosofias foram erguidas sobre um corpo único de verdade imutável que primeiramente se manifestava à consciência humana como amor e sua correlata tolerância. Ele esperava contribuir para uma religião universal e uma igreja universal cuja doutrina fosse a autotransformação através da autotranscendência teúrgica, e cuja prática levava ao amor incondicional. Embora seu sonho permanecesse não-realizado, ele proveu um centro aberto para estudiosos de todo o mundo europeu (incluindo a Rússia), e em diversas ocasiões hospedou Elisabeth e toda sua corte em Mortlake. Ele modelou sua casa a partir da Academia Florentina de Ficino, e os estudantes que tinham o privilégio de freqüentá-la eram duplamente recompensados, aprendendo a reverência pela filosofia e ciência antigas e modernas, e compartilhando de uma visão da herança universal da humanidade.

Desde seus primeiros anos como estudante e professor itinerante, Dee mostrou um perene interesse na magia Hermética e Neoplatônica, na Kabbalah renascentista e na medicina de Paracelso. Sua convicção de que a verdadeira magia conduz invariavelmente à autotransformação e por fim a uma regeneração de todo o mundo o levaram a confrontar experimentalmente os habitantes dos reinos terrestre, astral e celestial. Sabendo muito bem que os pré-requisitos para a magia prática são pureza de mente e de coração, Dee esperou até que estivesse seguro de possuir estas qualidades. Infelizmente, sua incapacidade de ver qualquer coisa nos excelentes cristais que possuía o obrigaram a procurar um vidente, e deparou-se com Edward Kelley. Embora Kelley parecesse capaz de penetrar na luz astral, ele sofria das fraquezas psíquicas comuns à maioria dos médiuns, incluindo uma incapacidade de distinguir entre as classes de elementais e níveis de percepção astral, bem como uma tendência de exagerar, inverter e fantasiar. Embora a pureza de motivos pessoal de Dee o protegesse de perigos, não parece que estas extensivas experiências fossem produtivas. Em setembro de 1583 Dee partiu com Kelley para o continente, e viajaram até a Polônia, a convite do Príncipe Albertus Laski. Logo depois de sua partida uma revolta supersticiosa irrompeu em Mortlake, destruindo os laboratórios de Dee e danificando sua biblioteca. Na Europa Dee continuou por seis anos suas tentativas de se comunicar com as forças criativas e inteligentes da Natureza. Enquanto mantinha um diário acurado sobre as conversas que tinha com supostos anjos através do médium Kelley, e embora desfrutasse da proteção e favor de Rodolfo II e do Conde Rosenberg da Boêmia, seus esforços de entender as forças invisíveis da Natureza deram em nada. Por fim deixou a companhia de Kelley e voltou à Inglaterra em dezembro de 1589. Kelley ficou para trás e foi nobilitado pelo imperador, só para ser preso em seguida e morrer em uma tentativa de fuga.

Embora Dee tivesse voltado sob ordem de Elisabeth, permaneceu em grande parte esquecido. Os velhos amigos, antes poderosos na corte, haviam morrido ou hesitavam em reconhecê-lo por causa de suas práticas mágicas. Enquanto trabalhava para reconstituir sua biblioteca espoliada, não porém teve recursos para recuperar seus laboratórios. Em 1596 Elisabeth o fez Diretor do Christ College em Manchester, mas a faculdade o via com suspeita e hostilidade. Quando James I ascendeu ao trono em 1603, Dee foi abertamente acusado de práticas malignas. Ele foi obrigado a renunciar ao seu cargo em 1605 e até mesmo escreveu um apelo ao rei pedindo para ser julgado pelas acusações de heresia e magia negra. Considerando-se a intolerância da época, sua impecável integridade mais uma vez o salvou: o rei recusou-se a instalar o julgamento solicitado. Embora este ato evitasse a possibilidade de posteriores acusações formais contra ele, não adiantou nada para mitigar as opiniões negativas nas mentes populares. Dee morreu na miséria, mas pacificamente, em dezembro de 1608, tendo testemunhado um pouco antes a morte de sua esposa.

As imensas contribuições de Dee à Era Elisabetana foram ignoradas durante séculos. Quando em 1659 Meric Casaubon publicou os diários de Dee a respeito de suas comunicações com anjos, ele esperava destruir completamente a credibilidade nos estudos mágicos e o valor da obra de toda a vida de Dee, e em parte teve sucesso. O papel central que Dee desempenhou em levar a marinha inglesa à sua posição de superioridade através da matemática e do instrumental foi esquecido, sua importância como conselheiro de Elisabeth I foi posta de lado, seu trabalho pioneiro na arqueologia e estudos antigos foi subestimada, ignorou-se o ímpeto que ele deu ao movimento Rosacruz, e negou-se os alicerces que ele deixou para a Royal Society. Mesmo hoje em dia seu interesse no teatro e sua influência no círculo Sidney e na filosofia e nas letras em geral ainda devem ser mais plenamente explorados. Nem o parcial Casaubon nem a história filtrada, contudo, poderiam destruir os escritos de Dee. Ele escreveu bem pouco para um polímata renascentista, mas suas publicações atestam uma notável amplidão e profundidade de pensamento.

Em 1558 Dee imprimiu o Propaedeumata Aphoristica (Uma Introdução Aforística) e a dedicou a Mercator, com o motto: Qui non intelliget, aut taceat aut discat (Que quem não entende ou se cale ou aprenda). Convencido de que o cosmos é tanto construído como entendido de acordo com o número, Dee combinou a melhor matemática de sua era com uma revisão crítica da astrologia, em uma tentativa de apresentar a ciência dual da astronomia-astrologia sobre uma nova base. Sugerindo uma conexão íntima entre a ótica (propagação, magnificação e reflexão da luz) e a harmônica (a ciência Pitagórica da proporção), Dee argumentou que influências astrológicas poderiam ser usadas pelo sábio de modo terapêutico. Embora os planetas irradiassem incessante influência sobre a Terra, o poder e a natureza destas influências dependiam das relações mutáveis entre os planetas e do meio em que caem seus raios. De um ponto de vista prático, isso significava para Dee que o conhecimento preciso das propriedades ocultas das substâncias, das conjunções celestes e do uso de espelhos parabólicos para focalizar e concentrar os raios permitiriam aos magos alterar estados físicos e psíquicos nos seres humanos, afetando assim os movimentos da Natureza. De um ponto de vista teórico, Dee reconhecia que o tamanho, movimento e distância dos planetas eram relevantes para seus efeitos em qualquer tempo dado. Ele mostrou que ao todo são possíveis 25 mil conjunções diferentes, e uma vez que este enorme número impedia uma investigação empírica sobre qualquer possível resultado, ele apontou para um entendimento Pitagórico da geometria e da aritmética como uma chave para a resolução de todas as combinações. Para Dee, a "astrologia vulgar" era tão moralmente aviltante como falsa. A astrologia é um aspecto da matemática, ela mesma um ramo da filosofia, que é a arte de viver corretamente. Uma vez que o sol é tanto a fonte física de luz e vida como um símbolo da Deidade manifesta, enquanto a Terra era o foco das influências celestes, a teoria heliocêntrica de Copérnico tem grande valor metafísico e o ponto de vista geocêntrico de Ptolomeu é astrologicamente útil. Dee não via conflito entre estas concepções, pois elas se dirigem para fins distintos, e as descobertas de uma poderiam ser aplicadas no aperfeiçoamento da outra.

Dee estudou com muito cuidado a tradução dos Elementos de Euclides feita por Sir Henry Billingsly, corrigindo passagens difíceis e acrescentando anotações e diversas provas novas. Para a edição de 1570 ele compôs um Prefácio Matemático, que de uma vez declarava sua visão da matemática como uma ciência filosófica, seu motivo para publicar matéria erudita no vernáculo (em vez do latim usual) e suas originais premissas a respeito das ciências matemáticas. A Deidade manifesta e mantém o mundo através do número.

"A numeração, então, para Ele era a criação de tudo. E sua contínua numeração de todas as coisas é a sua conservação na existência... A constante lei dos números... está enraizada nas coisas naturais e sobrenaturais, e está prescrita para todas as criaturas, sendo guardada inviolavelmente".

Para Dee a matemática se divide em aritmética, que trata dos números e suas propriedades, e geometria, a ciência das magnitudes. O termo "geometria", contudo, tem uma excessiva conotação terrestre, e Dee sugeriu em troca "megetologia".

"... não se arrastando no chão e arregalando os olhos com varas, réguas ou linhas, mas elevando o coração acima dos céus por linhas invisíveis e raios imortais, encontrando reflexos da luz incompreensível, e produzindo assim alegria e perfeição inenarráveis".

A matemática é a chave para abrir os mistérios dos três mundos - terrestre, astral e celeste - e a base para a astronomia e a astrologia, para a antropografia (a análise matemática do homem) e estática (a análise do movimento e da inércia), bem como para todas as ciências teóricas, experimentais e aplicadas. A matemática fornece as correlações de todas as forças e formas no homem e na Natureza.

Embora seu Prefácio Matemático tenha recebido reconhecimento nos salões da ciência desde o século XVII até hoje, Dee considerava que sua obra mais importante era a Monas Hieroglyphica (A Mônada Hieroglífica). A convicção de Dee de que a geometria poderia ser aplicada à alma humana assim como ao mundo material o levou a aceitar a visão renascentista de que um símbolo adequadamente construído, quando usado como objeto de contemplação e meditação, poderia conter considerável conhecimento espiritual e afetar diretamente a consciência. Ele buscou durante sete anos por um símbolo perfeito para a mudança dos elementos - a reflexão no tempo do Divino imutável. Subitamente, em janeiro de 1564, ele escreveu o Monas Hieroglyphica em apenas treze dias. O símbolo que levava este nome havia sido longamente gestado em sua mente e até mesmo transparecido na página de título do seu Aphoristica. Não obstante, ele precisou de mais seis anos para ser entendido o bastante para poder expor algo de seu significado sob linguagem cifrada. O Monas Hieroglyphica, às vezes chamado de O Grande Selo de Londres, é representado como um ovo invertido cheio de fluido. A gema é desenhada como um círculo com um ponto em seu centro exato. Um crescente ou arco intersecciona a parte superior da gema, enquanto que uma cruz se associa abaixo dela. Em cada lado do pé da cruz há um arco pequeno. Para Dee esta simples e fascinante figura continha os princípios de perfeição que, quando aplicados, poderiam transformar metal comum em ouro - física, psíquica e espiritualmente.

O cosmos é representado pelo "Ovo da Águia", que não é exatamente circular quando considerado de um ponto de vista heliocêntrico. Dentro dele se encontram as grandes forças duais representadas pelo sol e pela lua, a primeira sendo criativa e iluminadora, e a segunda material e reflexiva. Elas se conjugam porque o poder solar não pode criar sem um substrato, e o veículo lunar não pode ser produtivo sem o alimento do sol. Assim, as hierarquias solar e lunar são mutuamente interdependentes, embora o sol seja invariavelmente a força causativa e superior. O ponto no centro do sol é o ponto de onde derivam todas as linhas e círculos (uma vez que uma linha não pode ser escrita sem pontos), e portanto é a semente do hieróglifo desdobrado. Esta é a primeira e mais elevada manifestação da atividade divina, e por isso é o Um. A cruz representa o ternário criativo como duas linhas e sua intersecção. Também representa o quaternário material através de quatro linhas se irradiando de um centro comum e produzindo quatro ângulos retos, que representam os quatro elementos, as quatro direções e os quatro reinos visíveis da Natureza (mineral, vegetal, animal e humano). Os dois semicírculos abaixo da cruz constituem o signo zodiacal de Áries, o signo do fogo inicial e o começo de tudo que é terrestre. Tomados juntos, estes símbolos fornecem uma imagem da estrutura dinâmica da Natureza nas escalas cósmica e humana, e um meio para a autotransformação que conduz à verdadeira magia, que é a posse da sabedoria como uma arte e uma ciência. Traçando linhas de conexão e círculos de formas diferentes, a pessoa pode localizar os símbolos dos sete planetas sagrados (Lua, Vênus, Mercúrio, Sol, Marte, Júpiter e Saturno) e com isso a força sétupla da Natureza invisível. Usando estas chaves a pessoa tem como base para meditação os princípios necessários para a transmutação alquímica de sua própria natureza reduzindo-a a matéria prima ou fluido no ovo, e modelando-o em formas novas.

John Dee cultivou os mistérios da Matemática e especialmente da megetologia porque ele procurava o elo entre as aspirações do coração e mente humanos e os princípios da Natureza. Se a existência manifesta tem uma Fonte última, então tais princípios devem existir. Através da matemática Dee esperava prover uma base para unificar todas as ciências em um corpo unificado e coerente de conhecimento, que incluiria a ética, a psicologia e a ciência da espiritualidade. Para Dee a matemática não era simplesmente uma matéria a ser dominada, mas antes um modo de vida a ser consumado na ofuscante luz da Deidade. Dee pensava que a ciência e a matemática eram dignas de estudo por causa de seu valor intrínseco e prático, mas ele consagrou sua vida a elas porque estava convencido de que um verdadeiro entendimento delas forneceria os subsídios para uma religião global de amor e tolerância, os correlatos sociais do aprendizado e do silêncio. Embora não visse esta sua visão realizada, sua vida é um testemunho de seu poder e a validação de seu potencial.

"Sei perfeitamente bem que tem havido certos homens que, através da arte dos escaravelhos, dissolveram o ovo da águia e sua casca com pura albumina e com isso fizeram uma mistura de tudo... Com isso quero dizer que se completou a grande metamorfose do ovo... Quem se dedica sinceramente a estes mistérios verá com clareza que nada pode existir sem a virtude de nossa Mônada hieroglífica."

Fonte: http://teosofia.levir.com.br/inst-045.php