terça-feira, 22 de abril de 2008

Akhenaton

Busto de Akhenaton, Museu Egípcio do Cairo

Teu nascer é belo no horizonte do céu, Oh vivente Aton, Ordenador da vida! Quando te ergues no horizonte oriental do céu, Enches todas as terras com tua beleza; Pois és formoso, grande e radiante, exaltado sobre a Terra; Teus raios abarcam as terras, e tudo o que criaste. Tu és Rá, e tu cativaste a todos; Tu os ligaste com teu amor. Embora estejas distante, teus raios estão sobre a Terra; Embora estejas no alto, tuas pegadas são o dia.

- Hino ao Sol, de
Akhenaton


O Egito pode reivindicar ser o enigma arquetípico na história dos povos e das nações. Desde o semilegendário Menés, que surgiu das névoas da imemorial antigüidade para unir os Dois Reinos, até a brilhante Cleópatra, que manipulou Roma para preservar alguns dos tesouros internos do Nilo, o Egito tem povoado a imaginação humana com seu paradoxal senso de familiaridade e completo estranhamento, suas invocações de relações sociais amenas e estranhos poderes sinistros, sua cambiante mistura de sombra e luz tão dramática quanto a noite e o dia que passam entre suas ruínas colossais. A maior parte de seu magnífico legado foi perdido, e o pouco que resta - edificações arruinadas, tumbas profanadas, fragmentos literários - sobrevive de seu declínio quase interminável.

Nascido das sub-raças Atlanto-Arianas e sujeito a misturas do norte e do oriente, o Egito entra na história mítica com a maior parte de seu complexo passado oculto da visão profana. O que quer que tenha restado de sua história antiga foi escondido nos templos de mistério e jamais se permitiu que viesse à luz da investigação secular. No florescente período da XVIII Dinastia, inaugurada pela expulsão dos invasores Hicsos, marcada por sucessos imperiais, e destruída pelo ressurgimento do sacerdócio de Amon-Rá, o intrincado quebra-cabeças do Egito se complica. Ele não foi facilitado pela deliberada tentativa dos governantes subseqüentes de erradicar toda sugestão de que uma época como aquela tivesse alguma vez existido. A despeito da destruição sistemática, a muitos ainda fascina a XVIII Dinastia, e seu maior Rei, Akhenaton (Amenófis IV), inspira assombro e reverência.

Por volta de 1684 AC um povo Semita conhecido como os Hicsos invadiu e conquistou o Baixo Egito. Governando desde Mênfis e, mais tarde, de Avaris, no Delta oriental, estes adoradores de Seth e Apófis forçaram o Alto Egito a reunir suas forças em Tebas em torno da cosmologia de Amon-Rá. Ramósis, filho do Faraó, organizou um exército a partir de uma população desacostumada com os assuntos bélicos, e embora tenha morrido na batalha, a invectiva contra o Egito foi revertida. Quando seu irmão Amósis subiu ao trono, os Hicsos foram em grande parte expulsos do Delta e perseguidos até a Palestina. Embora os Hicsos tenham causado problemas por mais alguns poucos anos, Amósis reuniu os Dois Reinos e fundou a XVIII Dinastia. Enquanto que a pureza da linhagem real havia desde há muito imposto o casamento do Faraó com sua irmã, para que a poderosa bênção dos deuses pudesse ser canalizada à Terra através do foco régio dos princípios masculino e feminino, a XVIII Dinastia deu grande importância à Princesa Solar. Diversamente de suas meia-irmãs, cujas mães eram do harém real, a Princesa Solar podia remontar sua filiação até o Faraó e sua Grande Esposa, uma filha ao mesmo tempo de um Faraó e de uma Grande Esposa. Quando a morte roubava os filhos do Faraó, um parente menor podia ser elevado ao trono e legitimizar seu governo casando com uma Princesa Solar. Tão crítica para a vitalidade do reino e para a fecundidade da Terra era a manutenção ininterrupta do poder faraônico, que um novo faraó devia ascender ao trono no dia seguinte à morte de seu predecessor. Para evitar desastres, um faraó usualmente indicava um co-regente, que era coroado e gradualmente assumia os poderes enquanto que o rei mais velho aos poucos se retirava, um esquema cooperativo que funcionou eficazmente na XVIII Dinastia.

Amenófis I, filho de Amósis, elevou o culto de Amon-Rá e expandiu as fronteiras do reino em crescimento até a Núbia ao sul, da Lìbia no oeste e da Síria no leste. Ele fez de Tutmósis I seu co-regente, e já que Tutmósis era no melhor dos casos um parente distante, a co-regência foi tornada respeitável através do casamento com a Princesa Solar Ahmose. Tutmósis construiu um palácio em Mênfis, o que significou uma mudança no pensamento cosmológico e nos centros de culto. Seu filho, Tutmósis II, desposou a Princesa Solar Hatshepsut, e quando morreu de uma longa doença, a poderosa rainha fez-se proclamar ela mesma Faraó, assumindo as roupagens e títulos faraônicos masculinos, demonstrando o poder do princípio feminino no culto solar. Tutmósis III, co-regente nominal com Hatshepsut, aprendeu com ela o que pôde. Ao longo de quase meio século ele conduziu dezessete campanhas no Oriente Médio e garantiu os limites do reino até a Mesopotâmia. No primeiro movimento para unificar a desintegração religiosa, ele organizou todos os colégios sacerdotais sob um sacerdote de Amon. Infelizmente o resultado foi o inverso do esperado: antes de purgar a cultura Egípcia da superstição e do clericalismo, consolidou a autoridade sacerdotal.

Seu filho, Amenófis II, encontrou-se com os principais reis dos Mittanis, Arianos devotos de Mitra, Varuna, Indra e outros deuses Védicos, e tomou o sol alado de Mitra para os deuses solares do Egito. Tutmósis IV foi seu filho com a Rainha Tia, a qual pode ter sido uma Mittanita, e embora tenha travado diversas batalhas, morreu ainda jovem de uma doença degenerativa. Seu filho, Amenófis III, casou-se com a Rainha Tiy, não uma plena Princesa Solar, mas ligada à família faraônica e possivelmente de ascendência Indo-Européia. Logo no início de seu reinado, o fracasso espiritual das reformas clericais de Tutmósis III se tornou evidente. Os sacerdotes haviam se interposto entre os homens e os deuses, de modo que só estes "eleitos" podiam se aproximar do Divino. Com esta tirania religiosa os sacerdotes se tornaram custódios do certo e do errado, emitindo leis morais que governavam todos os aspectos da vida. Assim, para manter-se a harmonia com a Deidade, devia-se permanecer do lado certo, junto com os sacerdotes. Em uma sociedade que respeitava as classes sociais sem tê-las absolutizado - mesmo os escravos (obtidos só através de conquistas) eram pagos e encarregados apenas de certas horas de trabalho, dispondo de algum tempo livre - este elitismo era perturbador. Os deuses podiam ser remotos em sua transcendência palpável, mas jamais haviam sido colocados além do alcance de qualquer cidadão, pois o Faraó era visto como uma encarnação terrena do alento divino, irradiando sua beneficência sobre todos.

Amenófis III herdou um império rico, pacífico e poderoso. Livre da necessidade de direcionar pensamento, energia e recursos para a segurança do reino, ele podia devotar-se ao governo, à arquitetura e à reforma religiosa. Seu casamento com Tiy não foi ortodoxo, e embora Tiy lhe desse muitos filhos, acabou se casando com sua filha Sitamon, para assegurar seu status através de uma Princesa Solar. A evidência fragmentária é suficientemente contraditória para admitir duas interpretações: Amenófis, o conservador que resistiu a todas as mudanças religiosas, e Amenófis, o patrocinador de todas as reformas. Se alguém supuser que pelo menos alguns faraós da XVIII Dinastia notaram a necessidade de mudança radical e reconheceram que alterações permanentes deviam ser empreendidas em etapas, poderá ver o porquê de ele ter sido ao mesmo tempo conservador em suas práticas e totalmente patrocinador de seu famoso filho. Enquanto que o culto solar em Tebas era paroquial e sacerdotal, a grande cidade de On, conhecida pelos gregos e pela história como Heliópolis - a Cidade do Sol - também cultuava o Divino em sua forma solar. Rá-Harakhte, o sol alado, havia sido retratado na grande Esfinge. Suas origens Orientais são obscuras, mas alguns eruditos vêem conexão com o Aden ("Senhor" e "Belo Jovem"), do Oriente Médio, que foi reduzido ao Adônis dos gregos.

Em Heliópolis ele era conhecido como Atum-Harakhte, onde tinha um enorme colégio, que tem sido chamado de a primeira universidade do mundo. Seu culto era universal, englobando diversos rituais adequados aos vários temperamentos e culturas. Seu grande símbolo era Aton, o disco solar, máscara da realidade invisível que se manifesta como radiância doadora de vida. Quando Amenófis IV nasceu, em torno de 1394 AC, seus ancestrais já haviam cantado os louvores de Aton durante gerações. Diz-se que Amenófis I havia se tornado uno com Aton por ocasião de sua morte, "assimilado naquele de onde viera". Tutmósis IV fez um pacto com Rá-Harakhte-Aton em um sonho que teve ao dormir á sombra da grande Esfinge: em troca da limpeza da areia acumulada nos lugares sagrados, o príncipe seria feito Faraó, uma promessa mantida por ambas as partes. Amenófis III havia nomeado edifícios, navios e um regimento armado com o nome do deus. Mas talvez tenha sido o honorável sábio do pai quem mais tenha impressionado o filho. O sábio, chamado de Amenófis por causa do Faraó, havia dito:

"O homem passional no templo
É como uma árvore se erguendo numa floresta.
De repente vem a queda de sua folhagem;
Seu fim alcança o tálo.
Mas o homem tranqüilo
É como uma árvore de jardim.
Seu fruto é doce.
Sua sombra é agradável sob o sol,
E ela perdura no jardim".

Este espírito de gentil auto-cultivo sugeria uma suscetibilidade ética interna distinta da moralidade estatutária do clero Tebano. Talvez este sábio que honrava Rá-Harakhte tenha aconselhado o príncipe herdeiro a se tornar sacerdote, e talvez tenha aplaudido sua ascensão à co-regência.

Ainda muito jovem, Amenófis IV se casou com a bela e misteriosa Nefertiti, uma mulher tão inteligente, sensitiva e determinada quanto seu marido, e ambos dividiram um profundo amor mútuo e uma inabalável devoção a Aton. Em 1379 AC Amenófis IV (seu nome como Filho de Rá) assumiu a co-regência sob o nome de coroação Neferkheprure, mas ele construiu um grande templo em Tebas, não para Rá ou para Amon, mas para Rá-Harakhte-Aton. Antes de tentar outras reformas através da consolidação clerical, ele buscou substituir o politeísmo geográfico do Egito pela divindade da luz universal, pela Deidade todo-abrangente que ao mesmo tempo é a fonte invisível como o antigo e informe Aton, e a orbe solar visível que torna frutífera a Terra. Embora construísse este grande edifício em Tebas, uma linha de ação mais radical havia se tornada clara para o régio casal. Sem dúvida com a aprovação de Amenófis III e da Rainha Tiy, Amenófis IV renunciou ao seu nome como Filho de Rá por um nome como Filho de Aton: Akhenaton, "Aton é bem servido". Nefertiti, cujo nome significa "chegou a bela mulher", se tornou Neferneferuaton, "a beleza de todas as belezas de Aton". Suas duas irmãs também adotaram nomes associados a Aton - Meritaton e Meketaton. Foi escolhido um local despovoado para uma nova capital em um crescente de colinas que se voltavam para o Nilo. Conhecida agora como Tel-el-Amarna, a cidade foi batizada de Akhetaton, "a Aurora de Aton".

Dentro do espantosamente breve período de quatro a seis anos, uma próspera cidade real se ergueu das areias, iniciando com um enorme templo de Aton, cujas grandes portas de bronze atingiam uma altura de quase seis metros. Ao contrário dos templos de Amon, cujos pátios abertos conduziam através de sombra crescente até a escuridão do santuário interno, o Templo de Aton consistia de colunatas sombreadas que cercavam um grande santuário a céu aberto para receber os raios do Senhor. O espírito de Akhenaton foi expresso em uma estela fronteiriça, com texto de Akhenaton:

Sua Majestade ergueu sua mão para o céu, para aquele que o formou, e disse:

"Assim como vive meu pai Rá-Harakhte, o grande e vivente Aton, ordenando a vida, vigoroso na vida, meu pai, minha fortaleza de um milhão de cúbitos, aquele que me lembra da eternidade, minha testemunha para a eternidade, que formou a si mesmo com suas próprias mãos, que não conheceu artífice algum, que está estabelecido incessantemente na alvorada e no crepúsculo diários. Estando ele no céu ou na terra, todos o vêem infalivelmente, enquanto ele enche a terra com seus raios e faz viver todas as faces."


"Ao vê-lo, possam meus olhos contentar-se todos os dias, quando ele se ergue sobre este templo de Aton em Akhetaton e o inunda com seu próprio ser através de seus raios, formosos de amor, e os lança sobre mim na vida e na extensão dos dias para todo o sempre".

Mesmo nas declarações formais da estela fronteiriça, a qualidade devocional da espiritualidade de Akhenaton rebrilha através da pedra desgastada. Entretanto, nada escrito sobrevive que pudesse relatar a fé viva de Akhenaton. Não obstante, os fragmentos de murais palacianos e pinturas tumulares sugerem muitas coisas. Criaturas vivas, plantas e animais, não são usadas com intenções estilizantes, mas são retratadas naturalisticamente como manifestações e recipientes da beneficência de Aton. A família humana é retratada em termos realistas, apesar de que as feições exageradas de Akhenaton possam indicar não uma doença, como crêem muitos estudiosos, mas antes algum significado esotérico. O estômago protuberante pode significar a compassiva gestação da sabedoria secreta sob a forma humana, reminiscente das representações Chinesas do Buddha Maitreya. A arredondada figura do Faraó pode indicar sua natureza andrógina como sumo-sacerdote de Aton. Em Tebas suas estátuas o retratam nu, com caracteres masculinos nítidos, mas sem genitália, não diferente das formas andróginas de Krishna. Akhetaton estava notavelmente livre da influência moralizante do clero Tebano, não por causa de sua "vida fácil", mas porque cada função natural e atividade social era exaltada e mesmo medida à luz de Aton.

"Brilhante é a Terra
Quando te ergues no horizonte,
Quando tu fulges como Aton através do dia;
A treva é banida
Quando tu envias teus raios;
Os Dois Reinos estão diariamente em festa,
Despertos e eretos sobre seus pés,
Pois tu os ergueste...
O homem vai para seu trabalho,
E para seu labor até o anoitecer".

A vida é uma espécie de jogo divino, pois cada ser é um raio cristalizado da luz solar, e uma vez que o ser humano saiba disto, todo homem e mulher pode ser um espelho cristalino do Divino. Esta é a base e a inspiração para a ética, a ordem social, o governo e o lazer.

"Tu criaste a beleza da forma, por meio de ti mesmo.
Cidades, vilas e povoados,
No interior ou ao longo do rio,
Todos os olhos te vêem diante de si,
Pois tu és Aton dos dias sobre a Terra".

O Faraó governava como uma encarnação de Aton sobre a Terra. Sua vida era o arquétipo da existência humana em todos os níveis. Grandes pinturas murais representavam Akhenaton e Nefertiti em íntimas cenas familiares, comendo, adorando, brincando com suas princesas. O casal régio fez, juntos, votos de jamais deixar a cidade solar, e embora não tenham permitido templos de outros deuses, não impuseram restrições àqueles recrutados para a construção da capital imperial. Enquanto que Ay, principal conselheiro de Akhenaton, era devoto de Aton, em Horemheb, seu general, pelo menos respeitasse a deidade, aos trabalhadores que construíram os palácios e templos era permitido manter imagens de seus deuses e mesmo capelas em sua própria cidade-modelo.

As cenas idílicas gravadas com sensibilidade nas tumbas e nos templos mascaravam um destino pendente, interior e exterior. Através de um poderio militar em rápido desenvolvimento e de engenhosa fraude política, os Hititas invadiram os territórios Sírios, que se renderam dentro de pouco tempo, para jamais serem recuperados. O clero Tebano revoltou-se e Akhenaton ou algum delegado seu lançou uma campanha contra os templos. Fragmentos sobreviventes de correspondência - as famosas cartas de Amarna - sugerem que o ministro do exterior de Akhenaton ocultou informes da seriedade da situação. Enquanto o poder do Egito se fragmentava debaixo da inevitável pressão externa e de intrigas internas, Amenófis III e a Rainha Tiy vieram a Akhenaton. O velho Faraó morreu, e depois de um breve lapso a Rainha o seguiu. A crise precipitou-se, pois a sucessão de Amenófis requeria ação imediata. Seu filho (e irmão de Akhenaton) havia acompanhado a família para a Cidade de Aton. O jovem Smenkhare, tão belo quanto Nefertiti, foi feito co-regente. Enquanto que Tiy parece ter apoiado esta escolha, Nefertiti parece ter se oposto. Seja por ela ter notado dubiedade na natureza de Smenkhare, seja por haver uma completa ausência de simpatia, Nefertiti retirou-se para o isolado Palácio Norte com a princesa sobrevivente e com o filho mais novo de Tiy, Tutankhaton. Quando Smenkhare apareceu com o nome tradicional de Nefertiti, Neferferuaton, "beleza das belezas de Aton", a trágica ruptura se completou.

Subitamente o palco desta dramática história foi lançado nas sombras. Smenkhare provavelmente morreu logo antes da morte de Akhenaton. Quando isso ocorreu ele estava em Tebas, e não em Akhetaton. Nefertiti pode não ter vivido muito depois disto, pois não há mais uma só palavra sobre ela nos registros remanescentes. Tutankhaton é encontrado no trono em Tebas, tendo mudado seu nome para Tutankhamon, por volta de 1355 AC. Ele desposou Ankhesenpaaton, a mais jovem filha de Akhenaton, e governou sem verdadeiro poder durante poucos anos. O fiel Ay estava a seu lado e tentou facilitar a transição para longe do glorioso sonho quase realizado em Akhetaton, enquanto preservava seu espírito o quanto fosse possível. Por razões não compreendidas, Ay parece ter culpado Smenkhare pelo abandono de Akhetaton. Teria havido um rápido declínio da família faraônica por doença e morte súbitas? Ou terá acontecido um golpe sangrento que eliminou Akhenaton, Nefertiti e as princesas? Ay foi amável com o impotente Tutankhamon, e quando o jovem morreu em torno da idade de vinte anos, Ay providenciou que tivesse um funeral apropriado. Curiosamente, ele parece ter removido a mobília da tumba de Smenkhare - que foi descoberta vazia, mas sem que o selo real tivesse sido violado - para a modesta tumba de Tutankhamon. A sua é a única tumba encontrada amplamente intocada pelo tempo, e muitos de seus tesouros, talvez até mesmo a grande máscara de ouro, pertenciam originalmente a Smenkhare.

Akhetaton foi abandonada. Os corpos reais foram trasladados para Tebas, onde se perderam. Talvez tenha sido destruídos por aqueles que desejavam impiedosa vingança naqueles últimos anos. Talvez eles jazam em tumbas tão inexpressivas - e portanto tão intactas - como a de Tutankhamon. Com a morte do rei-menino, Ay ascendeu ele mesmo ao trono. Dentro de dois anos ele também morreria, e o General Horemreb se tornou Faraó. Enquanto que ele foi moderdamente bem-sucedido na restauração da ordem do reino abalado durante as três décadas de governo, também ele eliminou qualquer referência a Akhenaton dos templos e monumentos. Coube à XIX Dinastia, a dos Ramsés, derrubar cada pedra e coluna de Akhetaton. Quando todos os edifícios e templos reais haviam sido arrasados - as pedras sendo usadas como pilares para a arquitetura monumental posterior - areia limpa foi trazida para Tel-el-Amarna para esconder a própria memória do "grande experimento". Os nomes foram retirados das listas de reis de modo tão bem-sucedido que até mesmo o sacerdote-erudito Manetho, escrevendo no século III AC, pensava que Horemreb sucedera diretamente a Amenófis III.

Porém o abandono e subseqüente esquecimento de Akhetaton preservaram muito do que de outra forma teria perecido. Tutmósis, o principal escultor de Akhenaton, selou sua casa e atelier em Akhetaton e deixou neles modelos em gesso da família real, incluindo o fabuloso busto pintado de Nefertiti. Às vezes os escribas enterravam tabuletas cuneiformes, e assim preservaram-se as cartas de Amarna. Depois de destruída, os ladrões esqueceram a maravilhosa cidade, e assim tetos pintados, anéis reais, estátuas, plantas-baixas e objetos de vidro colorido foram deixados para revelarem a delicadeza e alegria que reinaram na Cidade do Sol. Como que por um decreto kármico, a dinastia repudiada por seus ideais universalistas e consignada às escuras águas do Letes emergiu neste século (XX) como a mais fascinante da história registrada do Egito. Enquanto que o Egito dos Ramsés mergulhou no esplendor mais cru do monumentalismo imperial e no torpor da superstição clerical crescente, Akhenaton, Nefertiti e a Cidade de Aton se levantaram de novo para indicar a idade de ouro do Egito, uma época adiante de toda memória e registro. A humanidade pode jamais recuperar os detalhes da visão de Akhenaton, mas foi tocada para sempre pela imagem de Aton, o Sol glorioso, estendendo seus raios a toda criatura viva, cada raio terminando em uma mão de bênção e portando o ankh da regeneração e da imortalidade.

"Quando tu te pões no horizonte ocidental,
O mundo está nas trevas como os mortos.
Eles dormem em suas câmaras,
Suas cabeças estão enfaixadas,
Suas narinas pararam,
e ninguém enxerga o outro.
Todas as coisas são subtraídas
sobre suas cabeças,
Enquanto que eles não percebem nada...
Tu colocaste cada homem em seu lugar;
Tu supriste suas necessidades.
Todos têm seus pertences,
E seus dias são reconhecidos.
Suas línguas são diversas na fala,
Suas formas e suas cores também,
Pois tu, Divisor, dividiste os povos.
Oh Senhor!
Quão variadas são as tuas obras;
Tu as criaste na sabedoria...
Tu estabeleceste um Nilo no céu,
Para que possa correr por elas,
Enchendo nas montanhas
como o grande mar,
E umedecendo seus campos
entre suas cidades.
Quão excelentes são teus desígnios,
oh senhor da Eternidade...
O mundo está em tua mão,
Assim como o fizeste.
Quando tu te ergues, eles vivem;
Quando tu te põe, eles morrem;
Pois tu és a permanência
além de teus meros membros".

Autor deste artigo: Elton Hall
Tradução e fonte: Levir

sábado, 19 de abril de 2008

O Livro das Estâncias de Dzyan: uma realidade

Por Maria Paz de Benito Alvarado


Celebrou-se em 2000 em todo mundo o 400º aniversário da morte de Giordano Bruno, figura histórica indiscutível. Em seu tempo conhecido em toda a Europa como filósofo e cientista, poeta e teólogo, foi queimado na fogueira por não abjurar suas idéias. Formulou uma visão global do mundo 400 anos antes de que a ciência voltasse a descobrir o enorme valor de sua obra. Em especial através da mecânica quântica foi possível compreender a exatidão de suas deduções.

Entretanto, o “fenômeno Bruno” segue sendo entre certos grupos fanáticos um exemplo claro de “heresia e influência demoníaca”, tal e como o pudemos comprovar em 1991 em diferentes cidades austríacas: em nossas ações de recolhimento de assinaturas para dedicar uma praça pública à Giordano, vários transeuntes nos fizeram saber que “se hoje existissem as fogueiras, eles lhe fariam queimar de novo”.

Embora estes casos sejam extremos, não se pode negar a reticência de certos círculos de poderosa influência pública, em teoria sérios, para aceitar estes enganos históricos e corrigir a imagem de figuras hoje completamente reabilitadas. Um relato de Bruno pode nos servir também de exemplo: o médico Paracelso, que também no ano 1992 celebrou-se seu aniversário.

Possivelmente foi sua atuação mais diplomática, o que lhe valeu não ser levado também à fogueira.

O caso da Helena Petrovna Blavatsky é mais um exemplo, possivelmente um dos mais dolorosos por ter lugar já em nosso tempo, e seguir sendo uma das figuras mais caluniadas nas páginas de tantos e tantos escritos. Já Platão em sua obra A República disse que uma calúnia pública representa um prejuízo mais grave que o ter sido condenado à morte pelas próprias idéias.

Em 8 de Maio de 2007 completar-se-ão 116 anos desde que H.P.B. (como era chamada por seus discípulos) abandonasse sua encarnação física. Há um século se seguem escrevendo artigos, enciclopédias, livros e demais obras de consulta nos que unicamente se lê a versão tendenciosa (quase sempre a mesma, dando a sensação de que uns plagiam aos outros) que ofereceram determinadas instituições, contrárias aos postulados de Blavatsky. Com isso se demonstra uma falta de investigação e seriedade científica surpreendente. Essas calúnias foram, já em seu tempo, rechaçadas por meios legais, coisa que não se menciona geralmente.

A principal “pedra de escândalo”, entretanto, foram uma série de textos provenientes do Tibet, que H.P.B. traduziu e utilizou como base para seus estudos comparativos das religiões e doutrinas da Filosofia Natural, assim como para demonstrar a origem comum de uma ciência de caráter misterioso nos começos da Humanidade. O problema se fixou porque H.P.B. não trouxe do Oriente nenhuma folha original e portanto não se podia aceitar a existência real destes textos arcaicos.

Estes textos foram descritos por H.P.B. em sua obra “A Doutrina Secreta” na seção titulada “Os livros Secretos de Lam-Rim e Dzyan” da seguinte maneira:

“O Livro de Dzyan derivado da palavra sânscrita dhyân (meditação mística) é o primeiro volume dos Comentários aos sete volumes secretos de Kiu-te, e um glossário das obras acessíveis publicamente do mesmo título. Em poder dos lamas gelugpas do Tibet, na biblioteca de qualquer monastério, há trinta e cinco volumes de Kiu-te para uso profano (exotérico); e também quatorze livros dos comentários e notas sobre o mesmo, pelos instrutores iniciados. À rigor, aqueles trinta e cinco livros deveriam intitular-se Versão Popular da Doutrina Secreta, pois estão cheios de mitos, véus e enganos. Por outra parte, os quatorze tomos de comentários com suas entrevistas, notas e um extenso glossário de termos ocultos, todos esses desenvolvimentos da pequena obra esotérica entitulada Livro da Sabedoria Secreta do Mundo, constitui um verdadeiro resumo de todas as ciências ocultas…”

Embora tudo isto saibamos do fim do século passado, a identidade dos livros públicos de Kiu-te constituiu um enigma por longo tempo, exceto possivelmente para uns poucos que, fazendo ornamento de um verdadeiro espírito de busca, incomodaram-se em investigar realmente as fontes e pistas dadas por H.P.B. Daí que resolveram chamar estes livros de puras invenções fantásticas de H.P.B., e por conseqüência todo o resto de sua volumosa obra “A Doutrina Secreta”. A grande maioria dos especialistas do Ocidente negou a existência dos livros sob este nome. Em certa classe de literatura se pode ler inclusive que os monges tibetanos não conhecem estes livros, mas esses autores, a nosso parecer, ou são pouco sérios, ou recolheram suas informações de monges sem suficiente erudição, já que simplesmente o período de estudos em qualquer monastério de monges gelugpas dura 20 anos.

Mas depois da análise detalhada dos dados que ela mesma menciona em suas referências, estes livros puderam ser finalmente identificados. Tal e como ela disse, foram encontrados na biblioteca de cada monastério gelugpa do Tibet, assim como em outros pertencentes a diversas seitas, como por exemplo os Kargyupda, Nyingmapa e Sakyapa. A constatação não deixa lugar a dúvidas: trata-se de obras realmente ocultas, que a mais pura tradição tibetana e budista considera por excelência como as doutrinas secretas de Buddha. Como veremos ao longo deste trabalho, foi entre outras coisas a transcrição dos fonemas, quer dizer, a forma que utilizou ou escolheu H.P.B. para refletir com o alfabeto ocidental a fonética dos vocábulos em línguas tão antigas, o que impediu ao longo este tempo poder identificar os mesmos textos. Temos que fazer notar, entretanto, que não foi H.P.B. que “inventou” está transcrições. Como veremos mais abaixo as tirou de outros viajantes anteriores a ela.

Personalidades tão reconhecidas no mundo da investigação antropológica e nos estudos comparativos das simbologias antigas como Mircea Elíade aceitam os dados de H.P.B. e valorizaram seus estudos. Obras tão sérias como a enciclopédia titulada “Arqueologia em Texto e Imagens” (Munich, 1975) aceitam as fontes mencionadas na Doutrina Secreta e as citam sem nenhum gênero de reticências. Vejamos o que se diz no primeiro parágrafo da página 1 do 5º volume desta obra, sob o título “surgimento da humanidade”:

“Tanto em tempos históricos como pré-históricos existiram e existem diferentes idéia e teorias sobre a origem(ou criação), assim como sobre a antigüidade do universo, da terra e do homem.

No “Livro de Dzyan” há uma compilação das teses possivelmente mas antigas que nos sejam conhecidas, encontramos ali uma cosmogonia maturada em detalhes e uma teoria da evolução que se refere não só a uma, mas também a cinco “humanidades”, chamada-las “raças”, que se desenvolveram ciclicamente. Estas teses, que se avaliam serem mais antigas que os Vedas e possivelmente foram a religião em todo o mundo pré-histórico, refletem-se mais tarde na religião hindu, zoroastriana, islâmica, judia e cristã, embora sob uma forma diferente e expressas em uma linguagem carregada de imagens mitológicas.

As “Estâncias de Dzyan” (tese ou dogmas de Dzyan) postulam o seguinte em relação ao homem:

1) Uma origem poligenética.
2) Diferentes formas de reprodução.
3) Uma evolução animal (pelo menos referente aos mamíferos) que seguiu a dos homens, em lugar de precedê-la, tal e como postula nossa ciência moderna.

Os períodos de tempo para a evolução do homem que se dão nas Estâncias remontam a muitos milhões de anos atrás, em correlação a nossas idéias atuais, e são tão inaceitáveis para a ciência como a hipótese de cinco humanidades (ou “Raças Raízes”), bem como de que os animais tenham surgido após o homem. Entretanto é interessante que se notem, vistos em detalhe, uma série de surpreendentes semelhanças entre algumas dessas teses e as hipóteses da biologia moderna. (…)”

H.P.Blavatsky, a primeira comentadora das Estâncias (as Estâncias foram interpretadas de novo pelo Dr. F. Hartmann a princípios de século e no ano 1958 pelo Dr. Viktor Eckert), escreveu em 1888 a respeito: “Isto deve parecer para o leitor ridiculamente absurdo. Entretanto, está estritamente nas linhas da analogia evolutiva, que a Ciência percebe no desenvolvimento das espécies animais viventes. Primeiro a procriação semelhante as células, por “divisão própria”; depois de umas quantas etapas, a ovípara, como no caso dos répteis, aos que seguem os pássaros; depois finalmente, os mamíferos com seus modos ovovíparos de produzir rebentos…”

Em outro volume da mesma enciclopédia escreve Philip Rawson:
“Tanto (William Butler) Yeats como (Hermann) Hesse foram sobre tudo influenciados pela obra da teósofa russa Helena Petrovna Blavatsky (1831-91), que anteriormente a eles tinha propagado com grande afinco uma interpretação própria do pensamento hindu. O movimento iniciado por ela desempenhou um papel importante tanto na política da Índia como na vida cultural da Europa…”

Já dentro da volumosa obra “A Doutrina Secreta” tentou dar H.P.B. ao leitor algumas provas da existência destes livros. Assim, por exemplo cita o monge capuchinho Orazio della Penna, missionário no Tibet de princípios do século XVIII. Na seção já citada de “A Doutrina Secreta” encontramos uma nota de rodapé com os seguintes dados:

“O monge italiano Della Penna se mostra em suas Memórias (veja a obra Tibet, por Markham, pág. 309 e ss.) certas afirmações contidas nos Livros de Kiu-te, e com efeito cita “a grande montanha de 160.000 léguas de altura” (uma légua tibetana tem 5 milhas) na cordilheira dos Himalayas. E diz o monge: “Segundo suas crenças, no ocidente do mundo há um paraíso aonde um santo chamado Ho Pahme, que significa santo, de grande esplendor e infinita luz. Este santo tem vários discípulos, todos os quais são Chang-chub”, isto é “espíritos que por sua perfeição não necessitam santidade e educam aos lama renascidos lhes ajudando a viver”. Disso se infere que os que della Penna chama Chang-chub, e cujo verdadeiro nome Yang-chub ( presumivelmente considerados “mortos”) são nem mais nem menos que boddhisatvas viventes, alguns conhecidos pelos irmãos” (Bhante)…”

O monge Orazio della Penna extraiu passagens de textos antigos com a intenção de demonstrar com isso o absurdo dessas doutrinas orientais. Esses dados foram por outra parte comentados pelo Chohan Lama em um artigo aparecido sob o título de “Ensinos Tibetanos”, antes de que suas informações fossem utilizadas para a nota citada de “A Doutrina Secreta” no parágrafo anterior. Este artigo, que explicava o significado da grande montanha “de 160.000 léguas de altura”, indicava que os mencionados dados foram extraídos do Kanjur, uma parte do Cânon Budista Tibetano. De modo que existe uma relação entre os livros Kiu-te e o Kanjur. Mas, já que o Kanjur se compõe, conforme seja a edição, de 100 ou mais capítulos muito extensos, esta informação demonstrou ser insuficiente.

Citada a nota de “A Doutrina Secreta” indica a fonte destes dados a obra “Tibet”, de Markham, pág. 309 e seguintes. De investigações posteriores resultou que não existia nenhum livro com o título “Tibet”, de nenhuma pessoa chamada Markham. Mas entretanto Sir Clemens Robert Markham, famoso geógrafo e viajante (1830-1916), tinha publicado um livro sob o título “Narrações da Missão de George Bogle ao Tibet” e “A viagem de Thomas Manning a Lhasa”, que apareceu em Londres em 1876, com uma segunda edição em 1879. Neste livro se encontra efetivamente na página 309 e seguintes um anexo que leva o título “Breves explicações sobre o Reino do Tibet”, escrito por della Penna em 1730. Na página 328 deste anexo se encontra a história da grande montanha de 160.000 léguas, extraída do Kanjur (ou: bKa-gyur, em transcrição fonética), e que ele soletra “K´hagiur” na pág. 334 se lê a informação sobre os livros de Kiu-te.

Della Penna escreve:

“Shakia Thupba restabeleceu as leis das que se diz que tinham decaído, e das que agora se diz que estão recolhidas em 106 volumes, nos que os discípulos da Shakia Thupba escreveram, depois de sua morte, o conteúdo total do ensino tal e como a tinham ouvido da boca de seu mestre. Estes livros se dividem em duas categorias de leis. Contem 69 volumes, chamadas Leis de Dote, e outra categoria se compõe de 38 volumes, chamados Khiute.”

Shakia Thupba, ou mais corretamente Sykya Thup-p é naturalmente Gautama Buddha e suas leis as do Kanjur. É fácil notar que as duas categorias a que se refere della Penna, Dote e Khiute, são respectivamente o mDo-SDE e o rGud-SDE, quer dizer: a parte (SDE) dos Sutras (mDo) e a do Tantra (rGud) da palavra de Buddha, ou seja do Kanjur.

O número de volumes mencionados por della Penna temos que considerá-lo como pouco confiável, pois (diga-se de passagem que: 69 e 38 não somam 106!) na contagem de della Penna existem outras várias discrepâncias (por ex. diz em outro lugar que os volumes de Khiute são 36, etc.) com o número real de volumes de cada uma das categorias, que se encontram nas bem conhecidas edições do Kanjur.

“A Doutrina Secreta” fala de 7 textos (rolos) secretos de Kiu-te, assim como de 14 volumes de comentários aos mesmos, dos quais o primeiro é o “Livro de Dzyan”. Há motivos para acreditar conforme diz David Reigle que entrevistas provenientes desses 14 Volumes Secretos de Comentários se podem ler também em determinados comentários acessíveis, que se encontraram no Tanjur (transcrição moderna: bsTan-gjur, também Bstan-hgyur), outra das mais importantes compilações de partes do Canon Budista Tibetano.

Uma tradição muito generalizada fala de versões originais dos livros de Kiu-te. Esta tradição foi já inclusive citada no século XIV pelo Budon (Bu-ston, 1290-1364) em sua “História do Buddhismo” (Chos´byun) e mais tarde recordada nos comentários ao Kiu-te (rGyud-SDE) por ele mesmo. Embora estas versões originais não possam ser encontradas entre os textos conhecidos na Índia e Tibet, sim se podem contar entre os existentes em lugares como Sambhala, etc. Determinados sábios, como Aryasanga, teriam tido acesso a estes textos e alguns deles escreveram comentários em que citam esses livros. Um exemplo disso são as entrevistas contidas na única obra conhecida do Bodhisatva Vajragarbha. O Dr. L. Snellgrove observa:

“As passagens, que ele realmente cita, não provêm de nenhum Tantra normal; são sempre explicativos e dogmáticos, e ele se refere com freqüência a essa obra quando procura um significado figurativo da passagem”.

Não provêm de “nenhum Tantra normal” porque estes não são geralmente explicativos. É característico tendo em conta as asseverações de H.P.B. em “A Doutrina Secreta” de que os 14 Volumes Secretos sejam Comentários e Notas de Kiu-te, assim como que contenham um glossário sobre volumes profanos do mesmo nome. Tal e como o Bodhisattva Vajragarbha constata em seu comentário:

“Da maneira em que se acostuma a versão abreviada só se pode entender o significado óbvio (neyartha); o verdadeiro significado (nitartha) obtém-se através do Mula Tantra.”

Está claro que as versões abreviadas dos livros Kiu-te de que dispomos atualmente são obras esotéricas, e que determinados comentários existentes e explicam corretamente seu significado.

Simplesmente o fato de que os manuscritos originais de todos os escritos de H.P. Blavatsky são conservados no British Museum, em uma câmara hermética extraordinariamente acondicionada com todos os adiantamentos técnicos, a que só se tem acesso com uma permissão especial, faz-nos pensar que suas obras são consideradas de verdadeira importância. Nesta última década tem surgido estudos realmente exaustivos baseados nestes livros, como por exemplo “O Homem Como Medida de Todas as Coisas: Comentários Sobre as Estâncias de Dzyan” pelo Sri Krishna Prem e Sri Madhava Hashish, publicado pela editorial francesa Rocher, no ano de 1980.

A mesma H.P.B. parece prever em suas obras este desenvolvimento. Assim lemos por exemplo:

“E se Tróia foi negada e considerada como um mito; a existência de Herculano e de Pompéia declaradas ficção; se se riram das viagens de Marco Pólo que se chamaram fábulas, tão absurdas como os contos do Barão Münchhausen, por que tinha que ser melhor tratada a escritora de Isis Sem Véu e de A Doutrina Secreta? (…)”

“Nenhum incrédulo que considere como uma maquinaçã A Doutrina Secreta está obrigado, nem se lhe pede, que dê crédito às nossas afirmações, as quais foram já proclamadas como tal por certo jornalista americano muito hábil, ainda antes de que a obra entrasse na prensa.”

“Tampouco, depois de tudo, é necessário que ninguém creia nas Ciências Ocultas e nos Ensinos Antigos, antes de que saiba algo de sua própria Alma ou sequer nela creia. Nenhuma grande verdade foi jamais aceita à priori, e geralmente transcorreu um século ou dois antes de que tenha começado a vislumbrar-se na consciência humana como uma verdade possível (…). As verdades de hoje são as falsidades e enganos de ontem, e vice-versa. Só no século XX será quando algumas partes, se não o todo da obra presente, serão vindicadas.”

Demonstrado-o neste trabalho parece ter sido pensado já faz um século, como o demonstram as seguintes palavras em outra parte de “A Doutrina Secreta”:

“À verdade, o que se dá a luz nestes volumes, foi escolhido assim de ensinos orais como escritos. Esta primeira apresentação das doutrinas esotéricas está baseada sobre Estâncias que constituem os anais de um povo que a etnologia desconhece. Estão escritas aquelas, conforme se afirma, em uma língua que se acha ausente do catálogo das linguagens e dialetos que conhece a filologia; assegura-se que surgiram de uma fonte que a ciência repudia: isto é, o Ocultismo; e finalmente são oferecidas ao público por intermédio de uma pessoa desacreditada sem cessar ante o mundo por todos quantos odeiam as verdades vindas fora de hora, ou pelos que têm alguma preocupação particular que defender. Assim é que o repúdio destes ensinos é coisa de esperar-se, e ainda deve esperar-se de antemão. Nenhum dos que se chamam a si mesmos eruditos em qualquer dos ramos da ciência exata, permitir-se-á olhar estes ensinos seriamente. Durante este século (o XIX) serão ludibriadas e rechaçadas à priori; mas neste século unicamente, porque no século XX de nossa Era, começarão a conhecer os eruditos a Doutrina Secreta, e que ela não foi nem inventada nem exagerada, a não ser pelo contrário, tão somente esboçada; e finalmente, que seus ensinos são anteriores aos Vedas. Não é isto uma pretensão de profetizar, a não ser a simples afirmação fundada no conhecimento dos fatos. Em cada século tem lugar uma tentativa para demonstrar ao mundo que o Ocultismo não é uma superstição vã. Uma vez que a porta fique algo entreaberta, se irá abrindo mais e mais nos séculos sucessivos. Os tempos são a propósito para conhecimentos mais sérios que os até a data permitidos, embora tenham ainda que ser muito limitados.”

Em outra passagem lemos:

“…quando chegar o tempo para o impulso do século XX… (se) encontrará uma grande comunidade unida de homens que estarão preparados para dar as boas-vindas aos novos portadores das tochas da verdade…(este próximo impulso) Encontrará a mente do homem capacitada para receber sua mensagem, e uma forma de expressão apropriada, na qual ele poderá vestir a nova verdade que deve trazer , assim como uma Organização que esperará sua chegada e que poderá varrer os obstáculos e dificuldades puramente materiais e mecânicos de seu caminho. Calcule-se quanto poderá alcançar aquele, a quem lhe tenham sido dadas tão favoráveis possibilidades…”

O que possivelmente se completa com as seguintes palavras extraídas de diferentes passagens de A Doutrina Secreta:

“…o ocultismo triunfará antes de que nossa era alcance o “triplo setenário do Shani (Saturno)” do ciclo ocidental, na Europa; ou seja antes de terminar o século XXI”.

“Verdadeiramente, o arco do remoto passado não está morto; tão somente repousa. O esqueleto dos sagrados carvalhos druídicos ainda pode brotar de novo de seus ramos secos e renascer a nova vida, como brotou «formosa colheita» do punhado de trigo achado no sarcófago de uma múmia de quatro milênios. E por que não? A verdade é muito mais extraordinária que a ficção. Qualquer dia pode vindicar-se improvisadamente e humilhar a arrogante presunção de nossa época, provando que a Fraternidade Secreta não se extinguiu com os filaleteos da última escola eclética; que ainda floresce a Gnosis na terra, e que são muitos seus discípulos, embora permaneçam ignorados. Tudo isto pode levá-lo a cabo um ou vários dos Grandes Mestres que visitam a Europa, pondo em evidência por sua vez aos presunçosos difamadores e caluniadores da Magia.”

“Entre os mandamentos de Tsong Khapá, há um que ordena aos arhats fazer um esforço em cada século, em certo período do ciclo, para iluminar ao mundo, inclusive aos “bárbaros brancos”. Até hoje nenhuma de tais tentativas teve bom êxito. Os fracassos somaram-se a mais fracassos. Trataremos de explicá-lo à luz de certa profecia? Diz-se que até que Pban-chhen-rinpochhe (a grande jóia da Sabedoria) consinta renascer no país dos P´helings (ocidentais) como conquistador espiritual (Chom-denda) e dissipe os enganos e a ignorância dos tempos, de pouco servirá o intento de extirpar os preconceitos dos habitantes de P´helingpa (Europa), porque os filhos desta não escutarão a ninguém.

Outra profecia declara que a Doutrina Secreta se conservará em toda sua pureza no Bhod-yul (Tibet) apenas enquanto os estrangeiros não invadam o país. As mesmas visitas dos europeus, embora amistosas, seriam mortais para os tibetanos. Este é o verdadeiro motivo do exclusivismo do Tibet”.

Só fica nos perguntar se esses esforços e impulsos poderão despertar definitivamente o sentido de responsabilidade que o Ocidente contraiu automaticamente ao fazer-se depositário de tantos e tantos textos resgatados do Oriente depois das terríveis invasões dos últimos tempos?

Deus o queira!

Artigo traduzido e publicado pelo site Levir.
Leia o original em espanhol
aqui.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Introdução ao Sutra do Coração

O Sutra do Coração em sânscrito, escrito em caracteres siddham
(clique para ampliar)


A curta escritura buddhista denominada Sutra do Coração da Sabedoria [...] é um dos textos mais sagrados do buddhismo Mahayana, o buddhismo que originalmente floresceu na Índia, China, Tibete, Japão, Coréia, Mongólia, Vietnã e muitas regiões da Ásia Central, incluindo o que hoje é o Afeganistão. Por mais de dois milênios essa escritura desempenhou um papel extremamente importante na vida religiosa de milhões de buddhistas. Foi memorizada, recitada, estudada e meditada por aqueles que almejavam obter o que o buddhismo Mahayana descreve como a perfeição da sabedoria. Mesmo nos dias atuais, o cântico desse sutra pode der ouvido nos mosteiros tibetanos, onde é recitado no característico tom de voz harmônico grave; em mosteiros zen japoneses, onde o cântico é entoado em sintonia com a batida rítmica de um tambor; e nos templos chineses e vietnamitas, onde é cantado em melodias suaves.

Freqüentemente identificado por seu título abreviado, Sutra do Coração, a interpretação do significado sutil de várias passagens desse texto sagrado produziu numerosos comentários ao longo dos séculos. [...] Historicamente, o Coração da Sabedoria pertence à classe de escrituras buddhistas conhecidas como os Sutras da Perfeição da Sabedoria, os quais o famoso erudito europeu Edward Conze, que dedicou grande parte de sua vida em traduzi-las, sugeriu que tenham sido compostas entre 100 a.C. e 600 d.C. Em nível superficial, as escrituras tratam do tema da perfeição da sabedoria, que enuncia o insight profundo sobre o que os buddhistas chamam vacuidade. [...]

Os comentários também demonstram como o propósito altruístico de atingir o estado de Buddha para o benefício de todos os seres, que é o motivo fundamental da jornada espiritual de um buddhista Mahayana, está profundamente incrustado no significado do Sutra do Coração. Em outras palavras, o tema central dos Sutras da Perfeição da Sabedoria é a união aprofundada de compaixão e sabedoria.

Talvez, para um leitor não familiarizado com a tradição Mahayana, cause perplexidade que um texto como o Sutra do Coração, cuja mensagem tem como cerne uma série de declarações negativas, possa ser uma fonte de inspiração espiritual tão importante para tanta gente. Para dissolver a perplexidade é necessário ter algum entendimento do significado que a linguagem negativa desempenha nas escrituras buddhistas. Desde os primórdios de sua evolução, um dos ensinamentos centrais do buddhismo tem sido conquistar a liberdade de nossa escravidão ao apego, em especial ao apego na crença de algum tipo de realidade duradoura, quer seja no mundo externo ou no mundo interno da existência pessoal.

De acordo com o buddhismo, a fonte de nosso sofrimento repousa em uma tendência profundamente arraigada de nos agarrarmos a realidades duradouras onde elas não existem, em particular de nos agarrarmos a uma noção do eu duradouro. É esse apego que dá origem à disfunção em nossa interação com os outros seres humanos e com o mundo ao nosso redor. Visto que essa tendência está de maneira demasiado enraizada na psique, nada, a não ser uma desconstrução radical de nosso entendimento ingênuo do eu e do mundo, pode nos conduzir à verdadeira liberdade espiritual. A negação categórica da existência intrínseca de todas as coisas, em especial dos cinco agregados pessoais no Sutra do Coração, pode ser entendida não só como uma extensão dessa sabedoria-chave buddhista, mas, de fato, como um exemplo supremo de tal sabedoria. Essa é a chave para a massiva veneração desse pequeno texto no mundo buddhista Mahayana.

Além de ser utilizado na contemplação meditativa da vacuidade, o sutra com freqüência é entoado como meio de superar os vários fatores que impedem o progresso espiritual. [...] A idéia é que muito do que entendemos como sendo obstáculos, na verdade, provém do apego demasiadamente arraigado à nossa própria existência e ao autocentramento que isso produz. Ao refletir em profundidade sobre a natureza essencialmente vazia de todas as coisas, removemos quaisquer apoios para que os assim chamados obstáculos criem raízes dentro de nós. Desse modo, a meditação do Sutra do Coração, é considerada um método poderoso para superar obstáculos.

(Adaptado de A essência do Sutra do Coração: ensinamentos do coração da sabedoria. Dalai Lama, traduzido e editado por Geshe Thubten Jinpa, tradução de Lúcia Brito. São Paulo: Gaia, 2006. Pág. 11-13.)
Fonte: Dharmanet

terça-feira, 15 de abril de 2008

Origens da OKR+C


Origens da ORDRE KABBALISTIQUE DE LA ROSE+CROIX

Em 1884, STANISLAS DE GUAITA (1861-1897), com a idade de 24 anos, leu o "O Vicio Supremo", escrito por Joséphin Péladan. A mística de Péladan atraiu a Guaita, que se colocou em contato com ele. Guaita não só conheceu a Joséphin, como também ao irmão maior de Joséphin, chamado Adrian Péladan, de quem Bayard disse que estava conectado com uma Ordem da Rosacruz de Toulouse, dirigida por FIRMIN BOISSIN.

Stanislas de Guaita teve como secretário OSWALD WIRTH, conhecido por publicar varias e importantes obras esotéricas. Guaita escreveu, sendo muito jovem, vários livros ocultistas: Em 1886 publicou "Ensaios das Ciências Malditas" e "No Umbral do Mistério". Em 1891 seu "Templo de Satã" e em 1897 a "Chave da Magia Negra". Ao morrer deixou uma obra inacabada "O Problema do Mal", que seria publicada recentemente em 1950 e graças as notas de seu secretario Wirth.

Em 1888 Stanislas de Guaita, com a idade de 27 anos, fundou a "Ordre Kabbalistique de la Rose+Croix", dirigida por um Conselho Supremo, composto por doze membros. Se conhece o nome de vários deles: Stanislas de Guaita, como Chefe Supremo; PAPUS (Gerard Encausse) restaurador do Martinismo; F.Barlet; Joséphin Péladan que se separaria da Ordem Kabalística em 1890 para fundar a Ordem de la Rose+Croix; o abade Alta, cujo verdadeiro nome era Mélinge, cura de Morigny, na dioceses de Versalhes, Paul Adam, Gabrol e Thoron.

Mais tarde se uniram a eles Marc Haven (doutor Lalande) (1868-1926), Paul Sédir (Yvon Le Loup), Agustín Chaboseau, Lucien Chamuel e Maurice Barrès. Se conhece que nessa Ordem se valorizavam os conhecimentos de Eliphas Lévi, Fabre d'Olivet, Hoene Wronsky, Jacob Boheme, Emmanuel Swedenborg, Martinez de Pasqually e Louis Claude de Saint Martin.

Todos os seus membros foram grandes esoteristas e místicos, que contribuíram ao conhecimento espiritual com diversas obras literárias, alem de sua participação ativa em diversas ordens e fraternidades.

Os principais nomes do Conselho Supremo da OKR+C

PAPUS:

O primeiro mentor do ocultismo contemporâneo e mais conhecido de todos. Nasceu em La Coruña em 13 de julho de 1865 e faleceu em París em 25 de outubro de 1916. Seu pai era francês e sua mãe espanhola. Se graduou em medicina em París em 1894.

Reconhece Papus haver tido vários Mestres no campo do oculto: Henry Delaage (1825-1882) no terreno do Martinismo. Papus foi iniciado uns meses antes que falecesse Delaage.; Peter Davidson (?)na tradição esotérica egípcia da misteriosa Irmandade Hermética de Luxor (H.B.L.), Saint Yves d`Alveydre (1842-1909) (que não pertenceu a nenhuma Ordem) e o Mestre Philippe de Lyon (1849-1905), quem era recebido como Mestre em todos os grupos ocultos da época, porem que não revelava haver sido iniciado em nenhum. Papus afirma que seu verdadeiro e último Mestre foi Philippe de Lyon.

Papus esteve relacionado com a Sociedade Teosófica de Blavatsky, tornando-se membro em outubro de 1887 do ramo francês (S:T: Isis) da citada sociedade. Seus primeiros escritos esotéricos se publicaram na revista Teosófica "O Loto". Foi membro co-fundador da S.T. Hermes, em París, que sucedeu a S.T.Isis. Porem de pronto abandonaria a escola oriental para dedicar-se até o fim de seus dias a escola ocidental. Em 19 de maio de 1890, enviou sua demissão ao presidente da S.T. Hermes, e este, por sua vez, mandou uma nota em 7 de julho de 1890 ao Coronel Olcott, Presidente da S.T., para que encerre a filiação de Papus à mesma.

Também foi membro desde sua criação e logo Presidente (sucedendo a Albert Faucheux) do Conselho Supremo da OKR+C. Assim mesmo foi Presidente da Sociedade Magnética da França e chegou a ser Grão Mestre de vários ritos maçônicos. Revisou o rito maçônico da Estrita Observância Templária, estruturado por Jean-Baptiste Willermoz.

Foi cirurgião-mór durante a primeira Guerra Mundial e morre em 1916 ao cair de uma escada do Hospital de la Charité de París debilitado pela tuberculose.

EMMANUEL LALANDE (MARC HAVEN):

Nasceu em 24 de dezembro de 1868 e faleceu em 31 de agosto de 1926. Um dos membros do Conselho Supremo da OKR+C foi o médico EMMANUEL LALANDE conhecido com o pseudônimo de Marc Haven. Sua filiação esotérica se explica dizendo que foi ele esposo da filha do Mestre Philippe de Lyon, de quem fora discípulo Papus. A amizade entre ambos Papus e Haven- era intensa. Marc Haven foi o padrinho do filho de Papus, Philippe Encausse, a quem Papus impusera o nome Philippe em honra a seu Mestre. Quando falece Papus em 1916, seu filho Philippe tinha apenas dez anos e Marc Haven se encarrega dele até os vinte anos. Pois Lalande falece em 1926, quando o filho de Papus já tinha vinte anos.

Sucedeu a Maurice Barrés como membro do Conselho Supremo da Ordem Martinista, na qual introduziu a mensagem esotérica do Mestre Philippe. Em 1893 foi iniciado como Doutor em Cabala por Papus e Stanislas de Guaita na OKR+C.

Marc Haven deixou varias obras esotéricas: Explicação inédita de uma prancha de Kunrath (1892); A vida e as obras do Mestre Arnoud de Villeneuve (1896) o evangelho de Cagliostro (1910); O Mestre desconhecido Cagliostro (1913), A Magia de Arbatel (póstumo,1946) e um Ritual da Maçonaria Egípcia, entre outras.

PAUL SEDIR:

Outro membro do Conselho Supremo da OKR+C foi Yvon Le Loup conhecido por seu pseudônimo de Paul Sédir. Nascido em 2 de janeiro de 1871 falecia no mesmo ano em que faleceu Marc Haven. Morre em 3 de fevereiro de 1926. Criou ao seu redor e em París um movimento cristão independente da OKR+C ao que chamou "As Amizades Espirituais".

Na França dirigiu a Loja Martinista "HERMANUBIS" dedicada a tradição oriental. Foi discípulo do Mestre Philippe. Membro do Conselho Supremo da OKR+C; membro do Conselho Supremo da Ordem Martinista. Também foi membro da H.B.L. e da F.T.L. Ditou cursos na Faculdade de Ciências Herméticas e no Grupo Independente de Estudos Esotéricos de Papus. Sem demora, em janeiro de 1909 abandonou as ordens esotéricas e se dedicou unicamente ao Cristianismo.

Publicou as seguintes obras: O faquirismo hindu e os yogas (1906); Iniciações (1908); A energia ascética (1923). Postumamente se publicaram: Mística Cristã (1927); Historia e doutrina da Rose-Croix (1932); As curas efetuadas pelo Cristo (1948); Les Rose-Croix (1953)

PAUL ADAM:

De Paul Adam (1862-1920), membro do primeiro Conselho Supremo da OKR+C, se sabe pouco. Escrivão. Um dos primeiros iniciados na Ordem Martinista e membro de seu Conselho Supremo. Foi um expert em cartomancia e uso do Tarot. Em 1886 publicou um livro de poesias em colaboração con Jean Moréas chamado Casa Miranda. Logo publicou A força (1899), O Menino de Austerlitz (1902), A Russa (1903), O sol de julho (1903) e O touro de Mitra (1907).

AGUSTIN CHABOSEAU:

Morto em 1946. Foi bibliotecário do Museu Guimet. Iniciado no Martinismo por sua tia, a Marquesa de Boisse-Mortemart, parente de Louis Claude de Saint-Martin. Integrou o Conselho Supremo em 1882 e participou na reorganização martinista de 1931 como soberano Grão Mestre da mesma. Também foi membro da Hermetic Brotherhood of Luxor.

CHAMUEL:

Seu nome real era Lucien Mauchel e seu pseudônimo foi Lucien Chamuel. Se conhece pouco sobre ele. Até 1887 foi membro del Conselho Supremo da Ordem Martinista. Colaborou com escritos para a revista Le Iniciación de París. Editor, dono da Livraria do Maravilhoso onde se reuniam os ocultistas da época. Ativo propagador do Martinismo, fundou Lojas e Grupos de Estudo.

MAURICE BARRES:

Se sabe pouco. Nasceu em 1862 e faleceu em 1923. Intimo amigo do marquês María Victor Stanislas de Guaita. Integrou o Conselho Supremo da Ordem Martinista. Escreveu Amori et dolori sacrum (1902).

Em um número de L`Initiation de 1889- citado por Bayard- se fala desta organização: "O signo distintivo dos membros do Conselho Supremo é a letra hebraica Aleph. Alem deste grau superior, existem outros dois aos quais se ascende por iniciação. Cada novo membro presta juramento de obediência às diretivas do comitê diretor. Porem pode abandonar a sociedade quando quiser, sob a única condição de guardar secretas as ordens ou os ensinamentos recebidos. A cabala e o ocultismo são ensinados".

A OKR+C confere graus de universidade livre. Outorga também alguns títulos de Doutor. O primeiro exame está sancionado pelo título de Bacharel em Cabala, o segundo pelo de Licenciado em Cabala. Finalmente, um terceiro exame, que comporta a apresentação e defesa de uma tese com discussão sobre todos os pontos da Tradição, confere o Doutorado.

O primeiro exame se baseava:

1. Sobre a historia geral da tradição ocidental, particularmente sobre a Rosa+Cruz.
2. Sobre o conhecimento das letras hebraicas, de sua forma, de seu nome e de seu simbolismo.

O segundo exame tratava de:

1. A historia geral da tradição religiosa no transcurso dos tempos, insistindo particularmente sobre a unidade do dogma através da multiplicidade dos símbolos.
2. O conhecimento das palavras hebraicas quanto a sua constituição.

Esta parte do exame era oral e os candidatos deviam passar também por um exame escrito baseado numa questão filosófica, moral ou mística.

Em 1939, Vítor Blanchard deu uma patente a H. Spencer Lewis. Desde 1939 Até 2 de janeiro de 1946, esta Ordem foi presidida por Agustín Chaboseau, ao qual sucedeu Georges Lagrèze, que morreu subitamente em 27 de abril de 1946 em Angers. Robert Ambelain foi seu sucessor até a sua morte.

TRADICÃO DA OKR+C

Os dados abaixo estão sujeitos a confirmação e não se pode afirmar a exatidão dos mesmos:

uma Linha TRADICIONAL

1-CONDE STANISLAS DE GUAITA, desde 1888 até 1897
2-Desde 1897 até (?)-ALBERT FAUCHEAUX (BARLET)
3-Desde (?) até 1916: PAPUS
4-Desde 1916 até 1918: CHARLES DETRE (TEDER)
5-Desde 1918 até 1936: LUCIEN MAUCHEL (CHAMUEL)
6-Desde 1936 até 1939: VICTOR BLANCHARD
7-Desde 1939 até janeiro de 1946: AGUSTIN CHABOSEAU
8-Desde (?) até (?): GEORGES LAGREZE
9-Desde (?) até 1992 (?) : ROBERT AMBELAIN
10-Desde 1992: GERARD KLOPPEL

outra Linha TRADICIONAL

1-CONDE STANISLAS DE GUAITA, até 1897
2-Desde 1897 até (?)-ALBERT FAUCHEAUX
3-Desde (?) até 1916: PAPUS
4-Desde 1916 até 1918: CHARLES DETRE (TEDER)
Após a morte do Grão Mestre Charles Detré houve um cisma resultante da controvérsia sobre requisitos maçônicos de afiliação 5-Desde (?) até (?): JEAN BRICAUD
6-Desde (?) até (?): CONSTANT CHEVILLON
7-Desde (?) até 1960: CHARLES HENRY DUPONT
8-Desde 1960 até 1984 (?): PHILIPPE ENCAUSSE
9-Desde 1984 (?) até 1992 (?): ROBERT AMBELAIN
10-Desde 1992: GERARD KLOPPEL

Pelo exposto, parecia que as duas linhagens originais que se haviam separado, e voltaram a unificar-se sob a mestria de Robert Ambelain.

Texto originalmente postado na comunidade OKRC no Orkut.

sábado, 12 de abril de 2008

O Segredo do Martinismo


Por Ir. AZTLABAR, SI

O verdadeiro segredo do martinismo não está guardado neste templo, ele encontra-se no mundo profano, no cotidiano da vida material e mostra-se como uma visão aplicada, quando um novo caminho nos torna possível. Muitas são as dúvidas, os paradoxos e as dificuldades que se apresentam. Porém, a cada passo dado a luz fica mais forte.

A luz do sol dissipa as trevas. Nós conhecemos o caminho, e só nos afastamos dele por vontade própria, quando nos deixamos ser engolidos pelos problemas. Cabe a nós perseverar e continuar a nossa busca, sem nos desviarmos do caminho e sem esquecer nosso real objetivo que é a reintegração, ou seja a volta a Unidade original.

A Centelha Divina

Cada um de nós tem em si a Centelha Divina. Trata-se de nosso mestre interior, que nos observa a cada passo de nossas vidas, e que pacientemente tenta nos mostrar o caminho certo. Seremos mais fortes e mais serenos se seguirmos nosso coração e agradarmos aos olhos de nosso mestre interior.

Esses são nosso verdadeiros olhos, a porção de DEUS em nós que silenciosamente nos pede atenção. Nosso Mestre conhece nosso caminho e está escondido dentro de nós, pois nosso ego e as vicessitudes da vida material o trancaram em nosso interior. Mas nosso coração possui essa chave, e sempre que realmente desejarmos podemos nos comunicar com nosso mestre, e fazê-lo mais presente em nossa vida cotidiana.

Quantas vezes nós fazemos perguntas que nos pertubam e, no momento seguinte, percebemos a resposta, que está em nós? Pois esse é o nosso mestre interior, que está em harmonia com as leis divinas e que pode nos mostrar o caminho sempre que desejarmos.

Os Sonhos

Os sonhos são nossa válvula de escape. Como seria a vida, se não tivéssemos a possibilidade de sonhar, como seria se estivésssemos totalmente presos a este mundo material, sem opção de transceder o corpo físico, sem poder se soltar e voltar à nossa origem? Seria realmente muito mais difícil enxergar o outro lado, e conceber a realidade e sua plenetude.

Os sonhos são um portal para a nossa liberdade, onde podemos nos aprofundar e conhecer melhor a nós mesmos, ao UNIVERSO e a DEUS. Nos sonhos não há limites senão aqueles que nós próprios nos impomos. É preciso quebrar as barreiras e ir além.

Os sonhos nos levam a conhecer maravilhas que o mundo material não nos proporciona os sonhos nos inspiram e servem de combustível espiritual para nossas buscas diariamente.

O valor do corpo físico

Nosso corpo físico é a maior ferramenta que possuimos para a nossa evolução. Apesar de muitas vezes nos parecer um peso inútil, é somente através dele que podemos nos desenvolver por completo, mas é preciso ter sempre em mente que não somos nosso corpo fisico, e sim de que apenas estamos neste corpo.Tendo essa noção todos os problemas materias parecem menos pesados, e a vida fica mais focada em seu verdadeiro propósito.

Estamos habitando este corpo porque temos ainda muito a fazer e a aprender com o prazer, a dor e todas as experiência que um corpo físico pode nos proporcionar. Dependendo de nossas escolhas seremos dignos ou não de viver harmoniosamente na eterna luz. A finalidade é imaterial, mas o caminho é material.

Direito e Dever

O direito anda de maos dadas com o dever. A partir do momento que nos dedicamos à busca, ocorrem mudanças. Essas mudanças são para melhor, e nos trazem uma nova visão de vida, pois começamos a perceber coisa que antes nos passaram despercebidas. Com esta percepção aumentada, notamos também quão grande é nossa responsabilidade. É muito fácil ficar inerte.

Quando fazemos as mesmas coisas obtemos os mesmos resultados. É preciso mudar de atitude, colocar em prática o que estamos aprendendo, a cada momento de cada dia. É difícil, muito difícil, mas a partir do momento em que nos dispomos, em que começamos a tentar, somos agraciados com uma força extra que conspira a favor da nossa evolução. É preciso buscar apoio nesta força, e continuar a nossa busca,sem desistir, pois sabemos que é este o nosso caminho.

Ponte para o invisível

Esta Heptada é uma ponte. Ela nos permite chegar a uma outra dimensão onde podemos sentir a emanação de energias superiores e sublimes, porém, de enorme força. Mas de onde vem essa força? Será que é fruto da organização material deste templo? Não pode ser só isso...

Essa força vem deste ser luminoso que habita este templo,este que inevitavelmente faz notar sua presença,mesmo que não percebamos conscientemente, nossos corações reconhecem sua Poderosa Luz, pois ela reflete a nossa luz, como um espelho que amplia e nos da a noção do caminho que devemos seguir, para levar nossa luz de encontro à sua Origem e poder existir em perfeita harmonia com a LUZ MAIOR. Aquela que a tudo ilumina, e que possui seu reflexo aqui, neste templo.

Fonte: http://www.editoraincognito.com.br/segMart.asp

quinta-feira, 10 de abril de 2008

A Rosa: Símbolo de Psicologia Espiritual?


Por Jean-Pierre Clainchard, FRC

Durante muitas décadas no curso deste vigésimo século, pode-se dizer que de modo geral psicologia e espiritualidade foram vistas como antinómicas. Jung, porém, colocou em evidência a importância da dimensão espiritual como fator de evolução do ser humano, que é um ser em devenir, com real capacidade de transformação. Mas reconheçamos que na França Jung foi pouco compreendido, e que a maior parte dos ensina mentos da psicologia nas universidades francesas perma nece fortemente marcada pelo pensamento materialista, o que aliás, vai inteiramente contra o fenômeno da retomada de interesse pela espiritualidade; fenômeno com que encontramos faz vinte a trinta anos e que deceria cumprir seu papel de pôr a questão em dência em muitos campos.

Falar de psicologia espiritual é ter em conta,de modo global, a dimensão espiritual do ser no quadro dq abordagem psicológica. Portanto, não se trata apenas de se interessar pela primeira infância, a infância, psico-afetiva ou a esfera profissional indivíduo, mas também de se ter em conta a era espiritual ou o despertar espiritual, com as qualidades psíquicas relacionadas, como por exemplo a intuição, e com toda a simbologia que expressa, através dos sonhos, do corpo físico (simbologia corporal), do corpo psíquico (psico-energético), certos eventos interiores e certas enfermidades significativas. É também ter em contar os elementos da sombra em nós, isto é, os elementos negativos de nosso Eu, os elementos que representam um problema e que devem ser reconhecidos e canalizados, para serem depois transmutados - é o caso da agressividade ou da passividade que devem ser reconhecidos como tal conscientemente, posto que devem ser transmutados ao longo dos anos em uma energia positiva disponível para outra coisa. E é também integrar os fenômenos que fogem ao ordínário e que levantam questionamentos, como as experiências PES, as visões místicas, a sincronicidade, a memória de vidas anteriores, etc. - Tudo isto faz parte da alquimia interior.

Como disse o Dr. Jacques Vigne, “o que diferencia a psicologia espiritual é a experimentação pessoal: as observações são feitas mergulhando-se na própria psique, coisas que os sábios vêm praticando há milhares de graças à meditação e as outras técnicas de expansão da consciência. Para eles, cada ser humano é seu próprio laboratório para explorar seus próprios estados interiores. Isto não é uma questão ou de fé questão, de experiência...”

Para nós ocidentais, hão se trata de rejeitar, digamos assim, a psicologia clássica, convencional, que desenvolveu bastante o aspecto analítico, mas de inscrevê-la numa perspectiva espiritual que desenvolva o aspecto mais intuitivo e metafórico. Em outras palavras, trata-se de conciliar em nós o analítico e o intuitivo.

Freud, em sua obra, trabalhou bastante na estruturação do Ego, insistindo no papel da primeira infância, etc. Jung, por outro lado, aprofundou suas pesquisas na evolução do Ego rumo ao Eu. Em alquimia mental e em psicologia espiritual, sabemos que é essencial que haja um Ego bem estruturado de onde a importância da infância e da adolescência e sabemos também que a partir desse Ego bem estruturado pode se dar uma evolução de boa qualidade rumo ao Eu.

Os místicos aspiram à realização desse Eu, e a psicologia espiritual se interessa muito particularmente por esse campo. O Eu é o que há de mais elevado em nós e representa na verdade a Imago Dei que todo ser humano possui em seu íntimo, o reino de Deus dentro de nós, Como constatou o psiquiatra Adler, do ponto de vista psicológico o Eu pode ser considerado como a experiência de Deus em nós, de certo modo o Deus do nosso coração. Ele constitui o que podemos chamar de a mais alta intensidade de vida.

E é através da ampliação progressiva do campo da consciência que nosso Ego pode tender ao Eu cósmico, sendo a experiência última a reintegração da alma no Uno. E é essa ampliação que os rosacruzes realizam, aprendendo a desenvolver em si mesmos a consciência cósmica.

Abordaremos neste artigo três pontos simbólicos concernentes à rosa, de um ponto de vista psico-espiritual.

I - A Rosa Como Símbolo do Desejo Espiritual de Realização do Eu

A jornada interior pode ser simbolizada pelo desabrochar da rosa na cruz. A rosa é considerada como um dos símbolos desse processo de mudança, dessa transmutação alquímica, mas outros símbolos, como o diamante, a flor de Iótus, a criança interior, a esfera dourada, a luz branca, são também exemplos de símbolos do Eu. Podemos encontrá los nos sonhos espirituais nos grandes mitos da humanidade, em alguns contos infantis tradicionais, como também nos manuscritos alquímicos ou ainda, por exemplo, nas cartas do Tarô iniciático.

Alertamos, porém, que não é suficiente sonhar com símbolos maravilhosos para que se seja um Realizado: os símbolos do Eu, as situações arquetípicas, devem ser considerados sobretudo como um encorajamento e uma expressão do desejo de ir mais longe; não é o fim do processo, mas na verdade um novo começo para uma nova volta da espiral.

Do mesmo modo, podemos dizer que uma experiência de despertar, como uma visão mística, não é O Despertar. E simplesmente uma experiência de despertar, um encorajamento para a senda ou uma arrancada na evolução. A rosa em seu desabrochar, com suas diferentes pétalas, pode então traduzir esse desejo, mostrando que novas tarefas devem ser empreendidas.

II - A Rosa Como Símbolo do "Saber Dar" e do "Saber Receber"

A rosa pode ser apreendida como um magnífico símbolo de harmonização entre o "saber dar" e o "saber receber". Um bom número de escritores já insistiu nessa necessidade de equilibrar em nós o saber dar e o saber receber, e entre esses podemos citar Jung, Maslow, Stanislas Grof, Annick de Souzenelle, entre outros. Esse equilíbrio resulta de um movimento harmonioso de uma aliança entre esses dois componentes, movimento que constitui uma dinâmica entre o exterior e o interior de nós mesmos. Em nossa vida cotidiana, não façamos a partilha do "saber dar" e do "saber receber". Por exemplo, não há uma hora de "saber dar" seguida de uma hora de "saber receber",

Nossa psique é constituída, de uma energia masculina e uma feminina. A energia masculina representa nossa capacidade de ação no mundo físico: pensar, falar, mover-se, etc. Para o homem, como para a mulher, é a energia masculina que permite o agir: é a emissividade, a função emíssiva, e o “saber dar" participa deste processo de emissividade.

A energia feminina representa nossa porção mais intuitiva, essa porção interior que pode se abrir à inteligência suprema do universo. Para o homem, como para a mulher, é a receptividade, a função receptiva, e o "saber receber" participa deste processo de receptividade.

De um modo esquemático, podemos dizer que o processo criativo traduz-se assim: o aspecto feminino recebe a energia criadora universal e o aspecto masculino a exprime no mundo pela ação; isto é parte da nossa alquimia mental e espiritual.

Se tomarmos o símbolo da rosa, poderemos nos dar conta de que este símbolo possui um núcleo central de onde emanam as pétalas. Ania Teillard psicóloga, observou que tudo se passa como se neste símbolo da rosa houvesse, ao mesmo tempo, uma reunião em torno do ponto central e uma irradiação estelar emanando do centro:

- Por um lado, as energias vindas do exterior, que passam pelas diferentes pétalas e que são reunidas no centro da rosa, representam de certo modo nosso "saber receber" - do exterior para o interior, o fenômeno da interiorização.

- Por outro lado, as energias que partem do interior, do centro da rosa, e se difundem através das pétalas irradiando-se para o exterior, representam de certo modo nosso "saber dar" - do interior para o exterior, o fenômeno da exteriorização.

Tudo isso representa simultaneamente a concentração interior e a união com o mundo exterior. A mesma coisa participa também do processo de evolução individual e coletivo. Temos necessidade de ambos: do "saber receber" e do "saber dar". Talvez seja útil recordar em que consistem esses dois conceitos.

1 - O Saber Receber

Nem todo mundo sabe receber ou estar em receptivídade. Sylvie Galland e Jacques Salomé, psicoterapeutas, dizem que "reagimos como doentes do receber e, numa relação de longa ou de curta duração, muitas são as situações em que temos receio de receber "

Receber presentes, palavras agradáveis, elogios, sinais de amor - pode parecer incrível, mas há muitas pessoas que não suportam essas atenções. Os autores citados acima colocaram a seguinte questão: a visão que temos de nós mesmos é tão severa, tão exigente, que não podemos aceitar o reconhecimento daquilo é?

Mas receber é também receber as evidências, as opiniões diferentes, as proposições novas e até perturbadoras. A maioria dos seres humanos funciona com uma atitude defensiva; muitos dizem não pegar para si aquilo que lhes parece desconhecido; poucos estão realmente abertos às diferenças, o que explica bem os problemas das nossas sociedades contemporâneas que se caracterizam às vezes pela intensidade de sua intolerância. A falta de tolerância é um modo ancestral, um fechamento, um bloqueio da energia do receber.

2 - O Saber Dar

Assim como podemos estar doentes do "saber receber", do mesmo modo podemos, estar doentes do 'saber dar". Assim como a rosa pode receber a luz e o calor do sol sem reservas, do mesmo modo esta rosa pode dar seu perfume, sua irradiação, desinteressadamente e sem ficar privada do quer que seja.

Há prazer no saber dar, mas esse prazer não é algo calculado nem uma troca de bons procedimentos, e menos ainda uma estratégia. O saber dar não põe em relevo o sofrimento e o sacrifício, ele revela uma forma de amor. Na vida cotidiana, é freqüente se ouvir frases como: `E dizer que sacrifiquei dez anos de minha vida a tal causa, a tal ideal, a tal pessoa..." Aí não está a dádiva, o amor, mas o dever, e na psicologia moderna conhecemos bem os limites do dever. O dever nada tem a ver com o amor. Ora, é importante ter em mente que tanto no "saber dar" como no "saber receber" o prazer desempenha seu papel. Prazer de dar como prazer de receber, e vice-versa...

E isso pode ser feito muito naturalmente, como no exemplo da rosa que recebe calor e luz, e dá seu perfume e irradiação. O equilíbrio no cotidiano achase talvez nessa proporção, nessa adaptação com flexibilidade do "saber dar" e do "saber receber" que se faz simultaneamente.

O que dissemos da rosa, podemos aplicar ao símbolo da Rosa-Cruz. A cruz é qualquer parte da nossa vida cotidiana, isto é, um conjunto de experiências a serem vividas, com o braço vertical simbolizando a espiritual idade, o horizontal simbolizando a materia lidade, e o ponto de encontro onde floresce a rosa, o desabrochar do ser. Podemos agora retomar os conceitos do "saber receber" e do "saber dar", pois material e espiritualmente recebemos do exterior elementos, informações, energias que vêm circular ao longo dos braços da cruz para se concentrarern no núcleo essencial que é a rosa; e inversamente, da rosa emana todo tipo de irradiações que vão se difundir ao longo dos, braços da cruz, ressoando em nossa vida espiritual e material.

Não nos esqueçamos também que o que é válido para o funcionamento do indivíduo é igualmente válido para o funcionamento de um conjunto de indivíduos, podendo esse conjunto ser um grupo, uma nação e, por que não, todo o planeta. Se nosso planeta não vai atualmente muito bem, talvez seja por ele ter perdido o senso da proporção.

III - A Rosa Como Símbolo da Abertura do Coração

O que vamos abordar agora está completamente ligado ao que foi dito anteriormente: trata-se do que chamamos a abertura do coração, elemento essencial num caminho iniciático.

Na Rosa-Cruz, a rosa está no centro da cruz, isto é, no ponto do coração do Cristo. Angelus Silesius, místico do século XVII, autor de uma obra intitulada O Peregrino Querubínico, fez da rosa a imagem da alma, como também do Cristo.

Mantenhamos, então, essa imagem da rosa, símbolo, entre outros, da abertura do coração... e mais particularmente da explicação simbólica da imagem do iniciado carregando um botão de rosa, que não deseja outra coisa além do desabrochar, como se o iniciado, em sua jornada interior, tivesse feito assomar em si o essencial. Esse essencial passa em verdade pela via do coração e a regeneração do Ser interior. O coração pode ser considerado como símbolo central dessa via, pois indica quanto,é importante para o homem saber amar a todos os níveis de seu ser, sendo o Amor Cósmico o nível mais elevado. Saber amar abre muitas portas, e num dos livros secretos dos gnósticos do Egito havia esta expressão significativa: Vós, os Filhos do Conhecimento do Coração.

O centro cardíaco é um dos 7 centros psíquicos maiores. Lembremo-nos que, conforme recomendam os ensinamentos rosacruzes, é preferível não se polarizar excessivamente nesse ou naquele centro psíquico, pois é mais natural que o despertar, ou mais precisamente o redespertar, desses centros se faça de modo harmonioso, na exata medida em que se realiza a evolução espiritual. Do mesmo modo, as qualidades psíquicas, correspondentes aos centros psíquicos, despertam progressivamente. Os 7 centros psíquicos têm todos sua importância e seu desenvolvimento deve ser harmonioso, a fim de que a circulação energética possa ser feita normalmente de baixo para cima e de cima para baixo.

O centro cardíaco ocupa, entretanto, um lugar interessante no plano dos 7 centros psíquicos. De cima para baixo ele é o 42, de baixo para cima é também o 4º Alguns falam dele como sendo o primeiro centro altruísta. Sua localização mediana, à meia-distância entre a parte de baixo e a de cima, confere-lhe um papel especial, pois a abertura do coração, como se costuma dizer, favorece o desenvolvimento dos outros 3 centros superiores e tem uma ação aquietadora e harmonizadora sobre os outros 3 centros inferiores são esses 3 centros inferiores que estão talvez exacerbados em nossa sociedade de hiperconsumismo e de hiperaglomeração emocional e especular.

É possível que a abertura do coração desenvolva o desejo espiritual de se ter uma relação mais íntima com a alma. É possível que ela permita ao homem compreender melhor a natureza do amor.

Podemos acrescentar também que quanto mais adentramos na luz cósmica, mais somos iluminados no interior de nosso ser, e mais desejamos ajudar os outros e compartilhar com eles essas bases de compreensão, de conhecimento e de revelação mistica que integramos em nós. De fato, quanto mais essa comunhão cósmica se dá, mais podemos amar e ajudar naturalmente e sem esforço da vontade pessoal, pois ajudar com esforço da vontade pessoal denuncia algo do conceito de poder.

Auxiliamos os outros na qualidade de transmissores, como canal psíquico e espiritual. A abertura do coração, isto é, essa rosa que aos poucos se abre simbolicamente em nós, nos ensina a bondade interior. Esse desenvolvimento, pelo fato de estar carregado de amor, vai muito além do mero desenvolvimento intelectual. Ele tende a uma evolução mais profunda do ser, que proporciona uma expansão do campo da consciência e às vezes uma hiperconsciência - uma hiperconsciência transitória mas, ainda assim, uma hiperconsciência - como também um desejo espiritual de comunhão interior, e é esta comunhão interior que permite que se tome consciência do sentimento de universalidade e de unidade.

Não é então de se admirar que, a despeito de todo seu conhecimento, alguns cientistas passem longe da sua verdade: eles trabalham tão somente com a cabeça.

Ora, reconhecemos essa simplicidade do coração, esse calor interior, na tradição mística ocidental. A rosa e a cruz, através de seus diversos sentidos simbólicos, nos propõem manter, tão intactas quanto possível, essas qualidades da via do coração, mesmo no decorrer de experiências difíceis e talvez até mais ainda durante elas. Os rosacruzes sabem muito bem que vivenciar isto é parte do campo da iniciação. As experiências a serem vivenciadas podem ser individuais ou coletivas, mas todas devem ser consideradas significativas, ou seja, plenas de sentido.

E o conjunto das experiências, por um lado cotidianas, com seu quinhão de alegrias e sofrimentos para cada um, e por outro lado místicas e espirituais, pode conduzir afinal à experiência fundamental da luz interior, e com isto a aceitação plena e inteira do Plano Divino.

Há um adágio que diz: Ao te engajares num caminho, pergunta-te se esse caminho tem um coração. Não se trata, claro, do coração fisico e nem do coração afetivo e emocional, mas do coração enquanto centro de integração de certas faculdades espirituais, esse coração centro do ser.

No limiar da Era de Aquário, sentimos, na psicologia espiritual, que o homem deve se reconciliar com seu coração. A inteligência sem coração, a ciência sem consciencia, nos levaram à situação planetária atual, com nossas sociedades a um só tempo muito analíticas e muito emocionais na superfície mas muito frias na profundidade. A abertura do coração pode dar um sentido e uma outra visão às descobertas da inteligência navida cotidiana, e o coração purificado, no sentido alquímico da expressão, torna-se capaz de ver aquilo que é em sua essência.

E como disse o poeta, numa visão muito idealista: Que é um coração puro senão aquele olho capaz de contemplar todas as coisas sem projeção, sem transferência com aquela qualidade da inocência que faz com que o mundo nele se reflita como sobre água límpida...

Paralelamente a esta visão poética, podemos recordar a explicação de Mircéa Eliade sobre o simbolismo, que ele considera como um dado imediato da consciência total, quer dizer, do homem que se descobre como tal, do homem que toma consciência de sua posição no universo; essas descobertas primordiais são tais que o próprio simbolismo determina simultaneamente a atividade do subconsciente e as mais nobres expressões da senda espiritual.

Um Triângulo

Vimos assim 3 pontos simbólicos concernentes à rosa numa abordagem psico-espiritual; portanto, um triângulo com:

1ª ponta: a rosa como símbolo do desejo espiritual de realização do Eu,

2ª ponta: a rosa como símbolo do saber dar e do saber receber,

3ª ponta: a rosa como símbolo da abertura do coração.

Três pontos simbólicos que favorecem o sentimento de unidade. Três em Um - sentimento de unidade que pode ser traduzido também pela rosa no centro da cruz.

- Sentimento de unidade no Eu, com a harmonização dos diferentes componentes do nosso ser.

- Sentimento de unidade com os que vivem o mesmo ideal místico, e quanto a isto conhecemos o papel desempenhado pela Egrégora.

- Sentimento de unidade com os que estão na busca espiritual, de uma maneira geral.

- Sentimento de unidade com o conjunto da humanidade, com a qual somos solidários no nível das alegrias e das tristezas.

E um dia, sentimento de unidade com o infinito...

A unidade através do Amor e do Conhecimento auxilia no estabelecimento de novos valores.

É a tudo isso que nos convida o símbolo da rosa que irradia no sentido espiritual do termo, mas também no sentido psicológico, com as mudanças de valores e de comportamento que ela acarreta no mundo do pensamento; e, claro, no sentido cotidiano, com as aplicações práticas,' concretas, pragmáticas, na vida de todo dia. Portanto, uma irradiação nos três planos - espiritual, psicológico e cotidiano.

Conclusão

Pode-se dizer que a senda espiritual e também a psicologia profunda a que nos referimos, isto é, a que leva em consideração a dimensão espiritual, introduzem o conceito de jornada interior. Cada um tem em si uma parcela da imensidão cósmica, da infinitude, e da busca da harmonia possível com o Cósmico. A jornada interior consiste nos encontros consigo mesmo, no casamento alquímico interior, na unificação, efetuando um circuito completo que, como Ulisses, nos conduz ao nosso ponto de partida, mas com uma consciência muito maior e com as múltiplas experiências que terão balizado nossasvidas sucessivas como etapas necessárias.

A senda iniciática é uma imensa jornada de Amor, tal como a empreenderam todos os alquimistas, e somos todos, como diz a Ordem, alquimistas espirituais. E um imenso poema de Amor pela vida, nessa busca pelo Absoluto, uma jornada através dos planos de consciência, das estrelas também - por que não? - através do cotidiano que se torna nosso verdadeiro laboratório, para descobrir passo a passo a realidade crística do Amor e da Luz. Algo semelhante ao que disse Jacob Boehme quando afirmou que somos de natureza terrestre e que no âmago dessa natureza terrestre havemos de descobrir nossa existência celeste.

Sócrates e depois Platão, cada qual em sua época, ansiaram por estimular os homens a fim de revelar neles os traços de conhecimentos acumulados ao lori,go da jornada da alma, de modo que esses conhecimentos pudessem servir como fonte interior da verdade. A tradição iniciática, como fizeram Sócrates, Platão e muitos outros, apoia-se no fato de que as fontes de sabedoria, de amor e de conhecimento se ocultam nas profundezas do ser, e que são elas que se desenvolvem da maneira mais significativa, desde que lhes seja permitido expressarem-se totalmente. No mundo da psicologia contemporânea, numerosos são os que, aos poucos, admitem essa realidade, e cujas tentativas de modelos psicológicos e psicoterapêuticos de visão espiritual buscam, responder às nossas necessidades modernas.

Edouard Schuré, em 1889, autor do livro Os Grandes Iniciados, escreveu o seguinte no capítulo sobre Pitágoras: "Será esta, segundo nós, a tarefa de fazer com que se venha a render às faculdades transcendentes da alma humana sua dignidade e sua função social, reorganizando-as com o auxílio sobre bases universais, abertas a todas as a ciência regenerada, de olhos alcançará essas esferas onde a filosofia vagueia de olhos vendados e tateando. Sim, a ciência se tornará clarividente e redentora, na medida em que nela crescerão a consciência e o amor a humanidade".

A ciência com consciência e não mais a ciência sem consciência.

Então, a rosa, cuja importância histórica não requer maiores provas, permanece um autêntico símbolo da maior consciêncía de ser e do ensinamentos espiritual.

E o que melhor se pode desejar para a humanidade do século XXI do que esperar vê-ia ampliar do que vê-la de consciência e sua capacidade de amor?

Uma última imagem simbólica para encerrar: nos manuscritos alquímicos dos séculos passados, a foi muitas vezes denominada Flor dos Sábios, seus casamentos místicos a rosa vermelha era atribuída ao Rei e a rosa branca à Rainha. Retenhamos em nossos pensamentos esta imagem da rosa como dos Sábios e como símbolo da abertura da consciência.

A consciência é uma questão de qualidade e nao de quantidade de técnica conhecida, e a Flor do Sábios se reconhece, claro, por sua qualidade...

*Jean-Pierre Clainchard é coordenador da Seção de Psicologia da Universidade Rose + Croix Internacional, URCI
- Artigo publicado na revista O Rosacruz (2º trimestre de 1995).

quinta-feira, 3 de abril de 2008

A Ordem Rosacruz e a Maçonaria


Ordem Rosacruz é a denominação da fraternidade filosófica que, de acordo com a tradição, teria sido fundada por Christian Rosenkreutz e representa uma síntese do ocultismo imperante na Idade Média. Mas para Harvey Spencer Lewis, organizador da Ordem Rosacruz na América a partir do início do século XX, a filosofia remontaria ao antigo Egito, à época do faraó Akenaton. Estudiosos do mundo todo tem aceitado essa hipótese com algumas reservas, pois os mais antigos documentos conhecidos sobre a existência dessa fraternidade remontam ao período medieval, embora a mesma apresente, em sua ritualística, muito do misticismo das antigas civilizações, como acontece com a maçonaria. Muitos maçons também querem fazer crer que a ordem maçônica já atuava no antigo Egito e na Pérsia, o que também carece de comprovação histórica. O fato é que o rosacrucianismo, assim como a maçonaria, é um sincretismo de diversas correntes filosófico-religiosas, como hermetismo egípcio, cabalismo judaico, gnosticismo cristão, alquimia medieval, doutrinas orientais, entre outras. A primeira menção histórica da fraternidade dos rosacruzes data de 1614, quando surgiu o famoso documento intitulado “Fama Fraternitatis”, onde são contadas as viagens de Rosenkreutz pela Arábia, Egito e Marrocos, locais onde teria adquirido sua sabedoria secreta, que só seria revelada aos iniciados. Uma outra corrente de estudiosos afirma que o nome Christian Rosenkreutz (cristão rosacruz) e sua saga são, na verdade, representações simbólicas com significado iniciático, e não uma história real de um personagem de carne e osso.

Rosacruzes na América

Harvey Spencer Lewis foi quem reativou e organizou o rosacrucianismo na América do Norte no início do século XX, já que ela havia existido anteriormente, sob outras organizações. Personalidades famosas como Benjamim Franklin teriam pertencido à ordens mais antigas. Na ocasião, a Ordem Rosacruz era ativa em alguns países da Europa, como França e Alemanha, mas com rituais diferenciados. Spencer Lewis, ao fundar a Antiga e Mística Ordem Rosacruz (AMORC) na América, não o fez sem antes estudar por mais de 10 anos suas raízes, o que permitiu mais tarde unificar todas as outras ordens, cuja essência era a mesma. Em 1915 ele tornou-se o primeiro Imperator (dirigente supremo da organização), e inovações como a possibilidade de membros estudarem por correspondência permitiram a rápida expansão da AMORC em inúmeros países. A unificação com a as demais ordens ocorreu no início dos anos 30, tornando-se Lewis o primeiro Imperator mundial. No Brasil, os estudos foram introduzidos na década de 50, e o cargo hierárquico mais alto é o de Grande Mestre, que representa o Imperator junto ao resto da organização no país.

O Casamento Alquímico de Christian Rosenkreutz

O teólogo Johann Valentin Andréa, neto do também teólogo luterano Jacob Andréa, foi um dos homens que mais divulgou o rosacurcianismo. Andréa, que nasceu em Herremberg, no Werttemberg, em 1581, depois de viajar pelo mundo, retornou à Alemanha, onde se tornou pregador da corte e, posteriormente, abade. A sua principal importância, todavia, originou-se do papel que ele teve naquela sociedade alemã, que no princípio do século XVII, lutava por uma renovação da vida, com uma nova insuflação espiritual.

A popularidade alcançada por Andréa foi imensa ao publicar o seu romance satírico “O Casamento Alquímico de Christian Rosenkreutz”, que criticava jocosamente os alquimistas, numa época onde reinava a desinformação e a velha ordem religiosa desagregava-se. A partir de 1597, já aconteciam reuniões de uma liga secreta de alquimistas, que haviam ficado sem irradiações e sem significado espiritual. Foi então que a palavra “rosacruz” adquiriu, rapidamente, uma grande força atrativa, a ponto de, num escrito anônimo de 1614, chamado “Transfiguração Geral do Mundo”, ser incluído o conceito de “Fama Fraternitatis R.C.” sem a necessidade de se explicar a sigla usada. Uma outra pequena obra, surgida um ano depois e intitulada “Confessio”, publicava a constituição e a exposição dos fins a que a Ordem era destinada.

O herói viveu 150 anos, extinguindo-se voluntariamente

De acordo com o “Confessio”, a Ordem Rosacruz representaria uma alquimia de alto quilate, na qual em vez das pesquisas sobre a pedra filosofal e transmutação de metais inferiores em ouro, era buscada uma finalidade superior, ou seja, a transmutação interna e espiritual do homem, que ficaria apto a ver o mundo e os seus segredos com mais profundidade. As correntes dos alquimistas medievais, diante da necessidade espiritual da época incrementada pela disposição de renovação e organização secreta, tomaram enorme vulto com o aparecimento do romance satírico de Andréa.

O herói do romance é o mesmo Christian Rosenkreutz já descoberto pelo manifesto “Fama Fraternitatis” e que já tinha viajado pelo Oriente no século XIV e aprendido a “Sublime Ciência”; teria ele, ainda segundo a lenda que lhe cercou o nome, voltado para a Alemanha, onde sua idéia foi seguida por muitas pessoas, até chegar aos 150 anos de idade, quando, cansado da vida, extinguiu-se voluntariamente. No romance de Andréa, Rosenkreutz era velho e impotente, motivo pelo qual o seu casamento só poderia ser alquímico.

O conceito da rosa mística provocou grande sedução

Com essa sátira, dirigida às sociedades secretas e à alquimia, Andréa havia desvendado tanto de positivo sobre a nova Ordem que restou a impressão de que ela já existia; o encontro dos convidados no tal casamento de Rosenkreutz vindos de todas as partes do mundo e a sua ligação dentro da nova ordem ilustram o desejo de dar corpo aos esforços no sentido de uma renovação espiritual da vida, valendo-se do sugestivo símbolo da rosacruz.

Esse símbolo corresponde à ansiedade da época. Alguns procuraram relacioná-lo com as armas de Lutero ou Paracelso; vale ressaltar que Andréa representou o seu Rosenkreutz com quatro rosas no chapéu, rosas essas que adornavam as armas de sua família. Robert Fludd, considerado como o primeiro rosacruz da Inglaterra, diz que o nome da ordem está ligado a uma alusão ao sangue de Cristo na cruz. A mística idéia da rosa, associada à lembrança da cor do sangue e aos espinhos que provocam o seu derramamento, contribuiu, certamente, para sua grande força de sedução. Os rosacruzes atuais tem uma interpretação mais mística a respeito da cruz e da rosa: a cruz representaria a parte material do ser humano, enquanto a rosa representaria a força espiritual aflorando em seu ser.

A junção dos sexos leva ao segredo da imortalidade

Como a preocupação máxima dos alquimistas que se ligaram à Ordem Rosacruz era o segredo da imortalidade e a regeneração universal, o símbolo rosacruciano está relacionado com essa preocupação. A rosa era uma flor iniciática para diversas ordens religiosas, sendo que, atualmente, a arte sacra continua a considerá-la como símbolo da paciência ou do martírio; Em outra análise, a rosa representaria a mulher, enquanto que a cruz simbolizaria o sexo masculino, pois para os hermetistas, a cruz é o símbolo da junção da eclíptica com o equador terrestre (eclíptica é a órbita aparente do Sol, ou a trajetória aparente que o Sol descreve, anualmente, no céu); ambos cruzam-se no equinócio da primavera e no equinócio de outono. Assim, a rosa simboliza a Terra, como ser feminino, e a cruz simboliza a virilidade do Sol, com sua força criadora que fecunda a Terra. A junção dos sexos leva à perpetuação da vida e ao segredo da imortalidade, resultando a regeneração universal, que é o ponto mais alto da filosofia rosacruz.

A alquimia evidencia a ligação entre as duas ordens

Maçons e rosacruzes estreitaram seus laços na Idade Média. No fim do período medieval e começo da Idade Moderna, com inicio da decadência das corporações de construtores (englobadas sob rótulo de maçonaria de ofício ou operativa), estas começaram paulatinamente a aceitar elementos estranhos à arte de construir, admitindo inicialmente filósofos, hermetistas e alquimistas, cuja linguagem simbólica assemelhava-se à dos franco-maçons. Como a Ordem Rosacruz estava impregnada pelos alquimistas, a ligação do rosacrucianismo com a maçonaria ocorreu naturalmente. Deve-se levar em consideração também que, durante o governo de José II, imperador da Alemanha entre 1765 e 1790 e co-regente dos domínios hereditários da Casa d’Áustria, houve um grande incremento da popularidade da Ordem Rosacruz e sua comunidade, atingindo até a Corte. Isso fez com que o imperador proibisse todas as sociedades secretas, abrindo exceção apenas aos maçons, o que provocou a migração de muitos rosacruzes rumo às lojas maçônicas.

Da regeneração e imortalidade à reformadora social

A partir da metade do século XVIII, com a maciça entrada dos rosacruzes nas lojas maçônicas, tornava-se difícil, de uma maneira geral, separar maçonaria e roscrucianismo, tendo a instituição maçônica incorporado aos seus vários ritos a simbologia dos rosacruzes, como no 18º grau do Rito Escocês Antigo e Aceito, no 7º grau do Rito Moderno, no 12º grau do Rito Adoniramita etc. A sua origem hermetista e a sua integração na maçonaria, durante a segunda metade do século XVIII, leva a marca dos ritualistas alquímicos, que redigiram naquela época os rituais dos Altos Graus. O hermetismo atribuído ao grau 18 é perceptível no símbolo do grau, que tem uma rosa sobreposta à cruz, representando o sacrifício e o segredo da imortalidade, que é também o significado oculto do esoterismo cristão, manifestado na ressurreição de Jesus Cristo.

A maçonaria, em alguns casos, modificou a simbologia rosacruz, reescrevendo-a em termos menos místicos e mais práticos. Assim, o segredo da imortalidade está, na maçonaria, associado ao aperfeiçoamento contínuo do homem, que é visto como uma pedra bruta que precisa ser lapidada. Todavia, uma parte do misticismo original dos rosacruzes foi mantida, pois embora a maçonaria não seja uma ordem mística, utiliza-se da simbologia de várias correntes filosóficas, ocultistas e metafísicas para perpetuar seus ensinamentos.

As iniciações

Uma singularidade entre a Ordem Rosacruz e a maçonaria são as iniciações nos graus, sendo que para ambas, a primeira é a mais marcante. As iniciações têm o mesmo objetivo: impressionar o neófito levando-o à reflexão, para que ele decida naquele momento se deve ou não seguir adiante. Se assim o decidir, assume o compromisso de manter em segredo todos os símbolos, usos e costumes da instituição, trabalhando em busca de seu auto-aperfeiçoamento, bem como em prol da ordem.

Semelhanças e diferenças

A maçonaria é uma ordem exclusivamente templária, ou seja, os ensinamentos só ocorrem dentro das lojas. Já a Ordem Rosacruz dá ao estudante o livre arbítrio para estudar em casa ou participar das atividades em um Templo Rosacruz. O estudo em casa é acompanhado à distância e, assim como a maçonaria, é composto de vários graus. Apesar de não obrigatória, a reunião templária rosacruz é incentivada, pois proporciona ao estudante o contato com os demais integrantes e a participação em rituais e experimentos místicos em grupo são fatores de desenvolvimento pessoal e fortalecimento da egrégora da organização.

Vários são os símbolos comuns às duas instituições, a começar pela disposição dos oficiais nos templos, lembrando os pontos cardeais, e a passagem do Sol pela Terra, do Oriente ao Ocidente. Cada ponto cardeal é ocupado por um membro-oficial. A figura do Venerável na maçonaria, ocupando sua posição no Oriente, encontra similar na Ordem Rosacruz, na figura do Mestre, que ocupa seu lugar no Leste. Em ambos os casos o templo é pintado na cor azul celeste, e a entrada dos membros ocorre pelo Ocidente. O altar dos juramentos maçônico encontra semelhança no shekinah da Ordem Rosacruz, sendo que neste último não se usa a Bíblia ou outro Livro de Lei, mas sim três velas dispostas de forma triangular, que conservam um simbolismo específico. Outra semelhança é o uso de avental por todos os membros iniciados ao adentrarem o templo, enquanto que os oficiais usam paramentos especiais, cada qual de acordo com o cargo que ocupa no ritual. Porém, o avental rosacruz não diferencia o grau dos membros, o que ocorre na maçonaria. Os iniciantes na Ordem Rosacruz recebem seus estudos em um templo separado, anexo ao templo principal, enquanto os aprendizes maçons recebem sua instruções juntamente com os demais irmãos, no mesmo espaço.

Algumas das maiores diferenças ficam mesmo por conta da condução do ritual, onde na Ordem Rosacruz há um forte caráter místico-filosófico, inclusive com a condução de experimentos místicos e meditações. Finalmente, o formato físico da loja maçônica lembra as construções greco-romanas, enquanto que a Ordem Rosacruz inspira sua arquitetura nas construções do antigo Egito.

Texto encontrado na internet e editado pelo autor deste blog.