domingo, 30 de março de 2008

Hermes Trismegistus

"Theos origina Aeon;
Aeon origina Kosmos;
Kosmos origina Chronos;
Chronos origina Gênesis.
A essência de Theos é Agathos - O BEM;
a de Aeon é identidade;
a de Kosmos é ordem;
a de Chronos é mudança;
a de Gênesis é vida e morte.
As energias de Theos são Nous e Psyche;
as de Aeon são imortalidade e duração;
as de Kosmos são restauração e substituição;
as de Chronos são crescimento e decadência;
as de Gênesis são qualidade e magnitude.
Assim, Aeon está em Theos;
Kosmos em Aeon;
Chronos no Kosmos;
Gênesis em Chronos".

As névoas do tempo e da memória mortal obscurecem a percepção dos elevados e santos seres envolvidos ativamente na história secreta e sagrada da evolução humana. Embora sua presença ubíqua permaneça como um arco luminoso através dos eventos ilusórios do tempo, eles não deixam traços biográficos nas crônicas mundanas. O mito e a lenda retêm essencialmente a eflorescência de suas vidas, veladas no código de linguagem dos templos de Mistério e desfiguradas por gerações de sacerdotes, pietistas e eruditos sectários. Onde se pode conhecer detalhes, eles são dissimulados em constelações arcaicas de metáforas místicas e fábulas simbólicas. Narada e Vyasa aparecem em cada idade e em cada ciclo. Na América Central, Quetzalcoatl era reverenciado como um deus, homem arquetípico e governante. Na Caldéia, Oannes, o Iniciado, era retratado com uma cabeça de peixe. E no Egito, Hermes-Thoth atravessa séculos incontáveis como deus, rei, sacerdote, instrutor e Iniciado.

O fio dourado passando através de e unindo todos os disfarçes de Hermes-Thoth é sua corporificação velada e o ensinamento vital da Sabedoria primordial. No 'Livro dos Mortos' egípcio, constituído de uma variedade de textos tratando dos estados pós-morte e das forças condutoras a diversas condições de renascimento, Thoth é representado na grande barca solar de Rá, estando oposto a Maat. Aqui Rá é a força solar criativa, o espírito do Sol invisível, enquanto que Thoth é sua sabedoria oculta, e Maat, o aspecto feminino de Thoth, é a lei da Natureza numenal. De acordo com as mais antigas cosmogonias egípcias conhecidas, Thoth pronuncia a Palavra divina através da qual o cosmo emerge. Quando Atum, a esfera dourada da luz, surgiu no incompreensível Abismo do Nada, diferenciou-se em três aspectos criativos - Pensamento, Vontade e Comando. Enquanto que Rá é a idéia divina do universo futuro, Thoth é a ideação misteriosa que dá origem à Palavra - Maat, a Lei.

Thoth era chamado "Senhor de Khemennu, o Autocriado, a quem ninguém jamais deu nascimento, o primeiro deus". Como Senhor de Khemennu, mais tarde chamada de Hemópolis, Thoth é o Senhor da Cidade dos Oito, chefe dos oito grandes deuses, cujas correspondências incluem os sete planetas sagrados e as oito esferas das estrelas fixas. Como Hermes, o amigo íntimo de Apolo, Thoth é a sabedoria que penetra todas as esferas e desce de forma corpórea à Terra. Assim Thoth é chamado de "Aquele que calcula nos céus, o Contador das estrelas, o Enumerador da terra e do que ela contém, o Mensurador da Terra". Thoth é o Logos. Ele é invocado como "o Coração de Rá que surgiu sob a forma de Thoth". Como a personificação judiciosa da sabedoria e compaixão, Thoth é figurado como o escriba dos deuses, o mantenedor dos registros, o juiz registrador dos mortos. Thoth é o Senhor dos Livros e "Poderoso na Fala", pois ele tem o poder da Palavra falada, a força da ação criativa. Conhecido como Tehuti nos tempos antigos, o nome às vezes foi suposto derivar de 'tehu', um nome da íbis, e 'ti', significando as qualidades e poderes da 'tehu'. Como escriba, Thoth era mostrado com cabeça de íbis, um mistério para o não-iniciado, sugerindo a agitação do Espírtio sobre as águas da matéria pré-cósmica, o movimento que leva ordem ao caos. Os egípcios também derivavam o nome de 'tekh', um sinal designando o coração. Embora a conexão de Thoth, a Sabedoria primordial, com a íbis e o coração permaneçam um mistério para todos exceto para aqueles que sabem, não se pode evitar pensar na injunção espiritual "Cavalga a Ave da Vida se queres saber". O comentário do 'Nadavindu Upanishad' declara que "Um Yogi que cavalga o Hamsa (e assim contempla o Aum) não é afetado por influências kármicas ou miríades de pecados".

Thoth é Aah, o Grande Senhor, o Senhor do Céu, que mede as estações e ciclos e estabelece as derradeiras divisões do tempo. Thoth-Aah, portanto, fica por trás de todas as distinções temporais e era chamado de o Fazedor da Eternidade e Criador da Duração Eterna. Como deus da Sabedoria e Logos no cosmos, Thoth é também o reflexo daquela sabedoria no mundo e na mente iluminada. Hermes-Thoth habita na lua, cuja luz emprestada desce à Terra para iluminar os caminhos dos homens que moram nas trevas. Sua morada no lado brilhante da Lua é a essência da sabedoria criativa, às vezes chamada de elixir de Hermes, mas sua morada no lado escuro da lua é a sabedoria secreta dos mais altos iniciados. Quando um ser humano cruzava o limiar dos mistérios egípcios, se tornava Hermes, a encarnação humana do deus em dado nível de consciência. A coadunação das almas permite a cada ser refletir o Thoth onipenetrante em algum plano de manifestação. Quando o segundo grau sagrado da iniciação era ultrapassado, o discípulo se tornava Hermes Duas-Vezes-Grande. Quando era atingido o terceiro grau, o indivíduo realizava a consubstanciação essencial com o deus e chamava a si mesmo - com pleno conhecimento do que estava dizendo - Hermes Três-Vêzes-Grande, uno com Hermes Trismegistus, Trimaximus, Três-Vêzes-Grande, a mais alta encarnação da sabedoria possível no mundo da manifestação densa.

Vettius Valens lamentava o fato de não ter vivido nos dias das dinastias divinas, quando Reis-Iniciados governavam através da luz das ciências sagradas e os sábios viam claramente a tábua Hermética do universo invisível. Naqueles dias, diz Vettius, os indivíduos se tornavam autoconscientemente imortais através do amor dos Mistérios e eram chamados Caminhantes do Céu. A encarnação de Thoth como Hermes Trismegistus ensinou à humanidade todas as artes e ciências, incluindo a escrita, a astronomia, agricultura, metalurgia, alquimia e jurisprudência. Dali em diante, toda alma que despertava para os mistérios do ser e do não-ser se tornava una em consciência com Hermes e ensinava em seu lugar. Estes grandes seres são os pilares da humanidade, enraizados nas virtudes humanas. Eles sustentam a canópia protetora da Sabedoria Divina sob a qual a complexa e largamente não-escrita história da evolução humana prossegue. Estes Instrutores da Humanidade deixaram escritos que foram preservados entre os egípcios durante milênios, mas à medida que as gerações sucessivas distorciam lentamente os ensinamentos através do olvido e da oscilação da preferência dinástica por uma ou outra teologia, um corpo incompleto de escritos caiu nas mãos Alexandrinas. Lá foi adaptado para refletir mais claramente a tradição Pitagórico-Platônica, e às vezes foi mutilado para justificar o dogma Cristão.

Pelo século IV a coleção de tratados filosóficos e éticos conhecidos como 'Corpus Hermeticum' havia sido reunida. Profundamente apreciada por Orígenes, Clemente de Alexandria, Lactâncio e Santo Agostinho, foi perdida da memória pública com o fechamento das Academias Platônicas em Atenas e Alexandria. Depois, durante a Renascença italiana, os Medici enviaram agentes por todo o mundo Mediterrâneo em busca da sabedoria clássica. Os escritos Herméticos foram levados para a Academia Florentina, onde Pico della Mirandola e Marsilio Ficino os traduziram e fizeram circular. Estes poucos fragmentos da pristina sabedoria forneceram as fundações para as filosofias místicas de Nicolau de Cusa e Giordano Bruno, inspiraram a ciência alquímica dos Rosacruzes e tornaram possíveis os profundos ensinamentos de Robert Fludd e a primeiras pesquisas da Royal Society. Depois de serem denunciados como falsificações quatrocentistas, no fim do século XVI, sua influência dissipou-se sob o crescimento disseminado da ciência mecanicista, mas no século XX a erudição mais penetrante detectou traços de antigas doutrinas entre os textos pesadamente reescritos. Em alguns tratados Hermes Trismegistus é ensinado por Thoth-Hermes, em outros ele instrui um de seus filhos, Tat ou Esculápio, que eram ambos discípulos e ao mesmo tempo aspectos de si mesmo. Do ponto de vista da consciência espiritual, a série de emanações do Logos no cosmo podem ser representadas como uma genealogia personificada, a corrente Hermética de instrutores e seus discípiulos.

O primeiro tratado, chamado de 'Poimandres' ou Pimandro, descreve o exaltado estado de consciência requerido para a aquisição do conhecimento mais profundo.

"Uma vez tendo eu começado a pensar sobre as coisas que existem e quando meus pensamentos pairavam alto o bastante, meus sentidos corpóreos foram tolhidos por uma espécie de sono que não é o do cansaço ou o derivado do excesso de comida. Pareceu-me vir a mim um Ser de vasta e ilimitada magnitude e que chamou-me pelo nome, dizendo: 'O que desejas ouvir e ver, aprender e passar a saber através do conhecimento?'

" 'Quem és?', disse eu.

" 'Eu sou', disse ele, 'Poimandres, a Mente (Nous) da Soberania'.

" 'Eu desejaria saber das coisas que existem', respondi, 'e desejo entender sua natureza e obter algum conhecimento (gnosis) da Deidade. Estas são as coisas que desejo ouvir.'

" 'Sei o que desejas', disse Poimandres, 'pois em verdade estou contigo em toda parte. Tem em mente que tu aprenderás, e eu te ensinarei' ".

Em um estado de profunda meditação Hermes entrara em contato com um aspecto de si mesmo que transcende todos os parâmetros de tempo, lugar e personalidade. Seu profundo desejo de compreender o Ser, antes do que o efêmero reino do tornar-se, invocara aquele que sabe e pode revelar o mistério. Com uma 'ilimitável magnitude' é apresentada para contemplação uma representação cosmogônica de Hermes.

"Eu tive uma visão ilimitada: tudo havia mudado para uma luz suave e alegre, e maravilhei-me quando a vi. Por fim ocorreu em uma região uma crescente treva, terrível e horrenda. Eu vi as trevas se tornarem uma substância aquosa indescritivelmente dispersa em toda parte, dando origem a uma fumaça como a de um fogo. Ouvi-a produzir um indescritível som de lamentação, pois ela emitiu um grito inarticulado. Mas da luz vieram Palavras sagradas que se estabeleceram sobre a substância fluida. Esta Fala pareceu-me ser a voz da Luz".

Hermes não media o que via, como explica Poimandres.

"A luz sou eu, Nous, o primeiro deus, que existia antes da substância aquosa aparecer dentre a treva, e a Palavra que emanou da luz é o filho de Deus... Aprende o que quero dizer olhando para o que está dentro de ti mesmo, pois também em ti a Fala é o filho, e a mente é o pai da Palavra. Eles não estão separados entre si, pois a vida é a união da Palavra com a Mente".

A cena desaparece para ser substituída por uma vasta massa de forças e poderes, todos partes da Luz original, formando a arquitetura do mundo. Este é o arquétipo do universo visível. O primeiro Nous, Poimandres, "a Mente que é Vida e Luz", dá origem a um segundo Nous, uma força criativa que faz, a partir do fogo e do ar, sete cosmocratores ou administradores da ordem cósmica. Eles correspondem aos sete planetas sagrados da universo visível, cujas revoluções inteligentes constituem o destino. Depois de formar estes seres, que contêm a substãncia aquosa que há de se tornar a Natureza, a Palavra é retirada e a Natureza é deixada desprovida de razão. Mas a primeira Mente dera à luz a Anthropos, o homem arquetípico, que é consubstancial a si mesmo, e, neste sentido, feito à imagem de Deus. Anthropos assumiu seu lugar na morada da segunda Mente, a criativa, e lá assistiu á criação de seu irmão.

Quando Anthropos olha para a Natureza, a Natureza responde àquilo que é como ela mesma na origem e assume a forma de um espelho. Assim Anthropos olha para si mesmo, e tomando aquela imagem como sendo a Natureza, é atraído por ela. Ele passa através de cada uma das sete esferas dos planetas e obtém seus poderes à medida em que se move. Embora ele seja uno com Nous, o primeiro deus, originador da Mente criativa, sua descida é uma autolimitação e uma queda em relação ao seu verdadeiro ser. Quando passa pela esfera de Saturno, aprende a pensar no 'eu' de um modo separativista e assim é amaldiçoado pela mentira na alma. A sexta esfera, Júpiter, dá-lhe o desejo de se expandir e adquirir uma noção mais rica da personalidade autônoma. Marte acrescenta impulso e agressividade a este desejo, e a quarta esfera, do Sol, lhe dá um falso senso de arrogância com seu sucesso. A terceira região, de Venus, acrescenta a luxúria ao impulso, e a segunda, de Mercúrio, confere-lhe a sagacidade necessária para conseguí-lo. Com a capacidade de enganar firmemente fixada no Anthropos caído, ele passa pela zona da Lua, o símbolo do crescimento e decréscimo, da flutuação e mudança, e assim o homem cai na Natureza, espoliado e depravado por aquilo que lhe prometia completude.

Poimandres não revelou uma antropogênese acidental, mas uma tragédia sem fim chamada existência humana, pois a imersão do homem na Natureza dá articulação à Natureza. A Natureza já não é cega, mas é tornada inteligível e inteligente através do casamento místico. O homem não é obrigado a ficar na morada da esposa, ele pode voltar para de onde veio e toda a Natureza será elevada neste processo.

"Se, sendo feito de Luz e Vida, aprenderes a saber que és feito destas coisas, voltarás à Luz e à Vida... Que o homem que possui mente reconheça a si mesmo em si mesmo".

Voltando-se para o Eu divino, a pessoa pode se elevar através das sete esferas e obter suas virtudes, seus poderes redentores. Afastando-se do mundo de mudança, a pessoa obtém a constância requerida para a ascensão. De Mercúrio vem a inteligência de ver o caminho, e de Vênus o amor abrangente por tudo o que vive. Depois a pessoa entra no reino do Sol, adquirindo autodomínio e portanto domínio sobre toda a Natureza. Isto possibilita á energia de Marte elevar-se às alturas mais sublimes, passando Júpiter, onde os domínios do eu são descobertos serem os do próprio universo, e depois através de Saturno, onde "o universo se torna o 'eu'.

"E daí, tendo se livrado de tudo o que lhe foi imposto pela estrutura dos céus, ele ascende à substância da oitava esfera, possuindo agora seu próprio poder... Este é o Bem, esta é a consumação para aqueles que adquiriram a gnose".

A revelação primordial tornou-se a realidade viva em Hermes Trismegistus, que habita com Nous mesmo quando aprisionado no corpo de carne. Ele é o Mestre por excelência, pois ele é uno com a individualidade permanente em cada um e em todos. No texto 'Um Discurso Secreto', Tat, o filho de Hermes, pergunta "O que é real, Trismegistus?", e Hermes responde:

"É real aquilo não que não é contaminado com a matéria, meu filho, nem limitado por fronteiras, que não tem nem cor nem forma, que não possui vestimenta, que é luminoso, que é compreendido só pelo eu, que é imutável e inalterável, é aquilo que é bom".

Quando Tat duvida que tenha o poder de compreender o incorpóreo, Hermes ensina que o poder está dentro dele: "Deseja-o, e acontecerá". Este renascimento no Eu real requer uma purificação de todo o ser da pessoa. Oculto nos doze signos do zodíaco está o secreto círculo décuplo das estrelas. Similarmente, entre os doze tormentos da alma estão os dez poderes libertadores.

"A ignorância, meu filho, é um dos tormentos. O segundo é a tristeza, o terceiro é a incontinência, seguido pelo desejo, injustiça, ambição, erro, inveja, fraude, raiva, rudeza e, duodécimo, a malícia".

A reflexão revela nesta passagem o delineamento lógico de uma psicologia de autodestruição. Mas dentro do ser humano existem poderes purificadores que podem ser invocados para banir os tormentos. O primeiro é o conhecimento da própria natureza divina, que corta a ignorância pela raiz. Isto concederá a alegria que afasta a tristeza, e a alegria é a base da continência. Agora é possível a persistência, e através deste poder é vencido o desejo. Com a transcendência do desejo a pessoa chega ao "tribunal onde está entronizada a Justiça". O sexto poder é o altruísmo, que erradicará todo traço de ambição, e este é o fundamento de verdade que remove o erro. Assim aparece Deus, e diante dele todos os tormentos fogem e são destruídos.

"Este tabernáculo terreno, meu filho, foi construído pelo trabalho do zodíaco, que produz as miríades de formas do uno e isso mesmo desvia os homens. Como os signos de que consiste o zodíaco são doze em número, as formas produzidas por ele, meu filho, recaem em doze divisões. Mas ao mesmo tempo elas são inseparáveis, sendo unidas em sua ação; pois a veemência desenfreada do impulso irracional é indivisível. É com boa razão, pois, que todos (os tormentos) partem juntos, como eu disse antes. E também é de acordo com a razão que eles sejam afastados pelos dez Poderes, isto é pela Década; pois a Década, meu filho, é o número pelo qual é gerada a alma. Vida e Luz são uma Unidade; e o número Um é a fonte da Década".

Quando o Logos aparece no interior, o homem se torna um deus, e "já não é um corpo de três dimensões que ele percebe, mas sim o incorpóreo". Tat, tendo-lhe sido mostradas todas estas coisas, diz:

"Vejo ser eu mesmo o Todo. Eu estou no céu e na terrra, na água e no ar. Eu estou nas bestas e nas plantas. Eu sou um bebê no ventre, e alguém que ainda não foi concebido, e um que já nasceu. Eu estou presente em toda parte".

E Hermes endossa esta percepção com a simples resposta "Agora, meu filho, sabes o que é o renascimento". Hermes é mostrado portando o caduceu, emblema do ensinamento da ascensão e queda, do poder de trabalhar no mundo e residir na consciência universal. Esta é a varinha dos Mágicos, cujo poder está na habilidade de focalizar a luz Logóica no mundo das sombras passageiras. O poder do Mágico é a potência latente em todo ser humano, são as forças da Natureza que refletem o Logos no cosmo, é o filho do primeiro Nous. O homem compartilha da mais alta esfera quando escolhe assumir seu lugar próprio. A senda da evolução humana é ao mesmo tempo mágica e ética, ontológica e psicológica, pois tudo em última análise é o reflexo de um único Princípio-Substância. nas palavras da 'Tábua de Esmeralda', a chave velada da alquimia e da autoregeneração:

"O que está abaixo é como o que está acima, e o que está acima é semelhante ao que está abaixo, para cumprir o milagre da coisa única.

"Como todas as coisas foram produzidas pela mediação de um único ser, assim todas as coisas foram produzidas deste um por adaptação.

"Seu pai é o sol, sua mãe é a lua.

"É a causa de toda a perfeição em toda a terra.

"Seu poder é perfeito se for mudado em terra.

"Separa a terra do fogo, o sutil do grosseiro, com prudência e discernimento.

"Ascende com a maior sagacidade da terra para o céu, e então desce de novo para a terra, e unifica o poder das coisas inferiores e superiores; assim possuirás a luz de todo o mundo, e toda obscuridade se afastará.

"Esta coisa tem maior fortaleza que a própria fortaleza, porque vencerá toda coisa sutil e penetrará toda coisa sólida.

"Por ele foi formado o mundo".

Fonte: www.levir.com.br

sábado, 29 de março de 2008

Vida Prática


Por Ralph M. Lewis, F.R.C.

Alguma vez pensou em que constitui o lado prático da vida?

Qualquer coisa que contribui ao que uma pessoa crê, é essencial a sua existência e se considera prático. Óbvio, então, que um modo de viver prático está relacionado com a concepção individual do bem estar pessoal.

Aquilo que chegamos a valorizar mais em nós mesmos é o que nos causa maior satisfação, e cujos atributos desejamos aperfeiçoar. A esfera de existência de um ser Elemental e primitivo é muito reduzida. Quão simples, por exemplo, são as exigências de um pequeno cão! Se sua fome, sede e outros desejos orgânicos estão satisfeitos e se mostramos o afeto que necessita, sua vida está completa. Sem dúvidas que se o cão pudesse raciocinar suficientemente sobre as satisfações da vida, chegaria conclusão de que o fim prático dela, é ter assegurado o sustento e o carinho de seu dono.

Hoje em dia encontramos milhares de pessoas deslumbradas com sua época, cuja concepção de vida apenas eleva-se apenas um pouco além do ser mais primitivo e a do animal.
A finalidade de sua existência, segundo elas, está em comer, beber, ter um leito e satisfazer seus desejos sensuais. Para tais indivíduos, as atividades que provêem essas coisas, usando as mãos ou cérebro, constituem o aspecto prático da vida. Consideram que tudo alem é extravagância ou consideram o bem uma aventura muito abstrata que não vale a pena gastar esforços. Assim, pois, vemos que não estão disponíveis a fazer algum sacrifício para a continuidade de um programa cultural.

A vida nos impõe exigências como seres orgânicos que somos. Devemos existir antes de que possamos exercer as funções da vida. Certo está que há algumas condições de prima importância. Todavia, não porque seja imperativo querer dizer que tudo além deve classificar-se como impraticável. Por exemplo, para poder aproveitar os benefícios que nos aguardam em um nível superior, temos que subir um degrau deu ma escada. Não é por acaso algo prático que também nos preparemos para o que possamos encontrar ali? Por que consideramos mais pratico a subida em si mesma do o que ganharemos ao chegar lá em cima?

Assim também, por que temos de considerar os meios de que nos valemos para viver como o aspecto mais pratico e completo da vida? A propensão estética que se tenha, seja o amor pela música ou em geral pelas belas artes, assim como o imperativo de criar algo, são atributos da função do viver. São mesmo conseqüências de nossa natureza. São partes tão nossas como quaisquer órgãos do corpo, ou como todo o apetite dele. O indivíduo que tem um incessante desejo de conhecimentos, certamente é pratico quando persegue tal finalidade. Essa atividade são essenciais para a plenitude de sua existência pessoal.

Prazeres transcendentais

A pessoa que trata de estudar a filosofia Rosacruz e que somente considera prático aquele aspecto dos ensinamentos que pertencem a determinada parte de sua natureza, não está preparada para adotar um sistema completo de vida. Aquele que satisfaz o desejo da mente e da natureza psíquica do homem é pratico porque lhe serve. Não tem nada que seja impraticável em qualquer estudo, a menos que em nenhum sentido tenha afinidade com sua vida. O homem que afirma que todo empenho intelectual, moral e espiritual não é pratico para ele, admite que seu nível de consciência é muito reduzido. Caminha pelo mundo como homem, porem funciona como um ser ínfimo.

A maior parte de nossos apetites são congênitos. Pelo menos sua plenitude dura somente alguns anos após o nascimento. Porém as inclinações intelectuais e psíquicas requerem o exercício da vontade, devem ser cultivadas. Uma vez que se realizam devem incessantemente lhe satisfazer. São muito mais positivas as satisfações que nos causam do que os prazeres do corpo. Para os que experimentaram esses prazeres transcendentais, isto constitui uma parte tão pratica de sua vida como vem a ser o alimento que nutro o corpo. Então pratique uma prece, uma poesia ou uma meditação profunda, basta se dar conta de qual é sua finalidade.

terça-feira, 4 de março de 2008

Rosacrucianismo: Perspectivas Históricas


No estado atual, podemos apenas verificar que, nos últimos anos, o interesse renovado da historiografia européia do rosacrucianismo se traduziu, especialmente, por dois tipos de investigação.

Por um lado, procurou-se preencher os espaços vazios que existiam no conhecimento do mosaico do rosacrucianismo histórico (sobretudo relativamente entre os séculos XVII e XVIII), estudando as diferentes formas “nacionais” do rosacrucianismo e procurando, assim identificar as analogias e as diferenças entre as várias realidades rosacrucianas, e verificar em concreto, não em abstrato, a validade de suas várias interpretações, quer as clássicas (Waite, Frances Yates) quer as mais recentes (Robert Vanloo, Susanna Akermann).

Por outro lado, retomaram e voltaram-se a ser propostas ou discutidas, conforme os casos, as várias interpretações surgidas até agora, concedendo-se geralmente uma particular atenção à forma como surgiram essas interpretações.

Paralelamente a esta dupla interpretação, hoje dominante, vão surgindo (sobretudo na Europa através de um estudo sistemático da historicidade do rosacrucianismo) cada vez mais estudos e trabalhos de investigação que denotam o aparecimento de uma tendência historiográfica extremamente aberta às mais variadas hipóteses interpretativas, sem rejeitar a priori nenhuma hipótese e pronta a explorar todas as possibilidades de aprofundamento da questão, oferecida pelas ciências históricas e, ao mesmo tempo, caracterizada sobretudo por um esforço substancial para reportar os estudos sobre o rosacrucianismo à razão histórica pura, subtraindo-os à qualquer tipo de especulação sobre o Movimento rosacruciano entre os séculos XVII e XVIII.

Sem dúvida alguma, o Movimento esteve ligado aos acontecimentos históricos (econômicos, sociais, culturais e políticos) dos países em que se manifestaram, entre 1600 - 1800. Os conflitos da Reforma e da Contra-Reforma originaram movimentos passionais, “reformadores” ou “anti-heréticos”, proféticos e anunciadores quer de catástrofes terríveis, quer de uma renascença moral e religiosa que iria conduzir a uma próxima concórdia universal. Contudo, a Europa respirava um ar hermético desde as traduções de Marsílio Ficino do Corpus Hermeticum.

Não obstante, todos os vários rosacrucianismos “nacionais” tiveram vários aspectos em comum, sentiram a necessidade de se apoiar uns nos outros e acabaram por ter a mesma sorte, do ponto de vista histórico, que podemos até falar de um fenômeno efetivamente unitário, embora desde o irromper dos manifestos rosacruzes até fins do século XVIII, o fenômeno teve e manteve certas particularidades. Para se ter uma idéia do que seria um aspecto do rosacrucianismo em sua adaptação “nacional”, reportamos o leitor ao rosacrucianismo na Itália do século XVII.

O rosacrucianismo na Itália parece ter crescido fora de um interesse puramente alquímico, até havia, mas era melhor expresso em poesia. Por volta de 1656, em Pesaro, Christina era saudada em versos pelo poeta rosacruciano Francesco Maria Santinelli. Em 1659, Santinelli escreveu um poema, Carlo V, dedicado ao Imperador Leopold em Viena. Neste poema há uma curiosa nota com a seguinte linha: “La mia Rosa Croce Aurea fortuna” (V. 89) (Susanna Akermann, 1991).

Num outro conjunto de versos, escritos em 1656 em Roma, pelo Marquês Massimiliano Palombara, “La Bugia” - uma segunda versão reside agora na coleção da Rainha Christina da Suécia no Vaticano como “Ms. Reginensis Latini 1521” - também existe a seguinte linha: “un compagnia intitolata della rosea croce o come altro dicono dell' aurea croce”.

Estes versos difundiram observações adicionais à evidência de que o rosacrucianismo desenvolvera-se também fortemente entre os alquimistas e poetas italianos conectados à Fraternidade Alquímica Gold-und Rosenkreuzer Orden (Rosa+Cruz de Ouro), tornada pública por Sincerus Renatus (Samuel Richter) em 1710. (Susanna Akermann, 1991).

Se aceitarmos esta tendência, poderemos até ficar com o que Paul Sédir diz em seu Histoire des Rose-Croix: “Eles adotam os costumes dos países onde se encontram. E, com efeito, podem viver no meio dos homens sem risco de serem identificados; apenas seus pares os reconhecem por uma certa luz interior. O Cristo disse: O mundo não vos conhece. É por isso que, quando eles mudam de país, mudam também de nome. Eles podem se adaptar a todas as condições, a todas as circunstâncias, falar a cada um em sua língua”.

O verdadeiro problema passa então a ser o de estabelecer até que ponto se pode falar de um fenômeno rosacruciano à esteira daqueles Movimentos nos dias de hoje, e que estejam constituídos de uma filiação autêntica. Em nosso entender, todas essas tendências da historiografia contemporânea, posicionam-se como reação a uma série de esquemas que chegaram, muitas vezes, até o absurdo e ao fantástico.

Se aceitarmos esta orientação de estudo e compreensão histórica e, sobretudo, de abordagem do fenômeno ‘rosacrucianismo’, torna-se evidente que, para se chegar a uma interpretação de conjunto (e que ao mesmo tempo abarque as suas manifestações particulares e “nacionais”) do rosacrucianismo, todas as interpretações do rosacrucianismo surgidas até hoje são insuficientes, parciais ou demasiadamente exclusivas; no entanto, este campo de estudos históricos tem avançado muito nos últimos anos, e sabemos que cada uma dessas interpretações contém em si uma parte da verdade e pode contribuir para uma melhor compreensão do rosacrucianismo histórico nas suas linhas gerais, pelo que não pode ser rejeitada a priori.

Nesta perspectiva de investigação concreta, as várias interpretações tem sobretudo um valor de hipóteses de trabalho e de estímulo intelectual para podermos apreender o significado histórico do rosacrucianismo dos Manifestos ao universo maçônico-alquímico do século XVIII.

Fonte: http://fudosi.blogspot.com