quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Teosofia segundo o Glossario Teosofico


Teosofia
(do grego, Theosophia) – Religião da Sabedoria ou “Sabedoria divina”. O substrato e base de todas as religiões e filosofias do mundo, ensinada e praticada por uns poucos eleitos, desde que o homem se converteu em ser pensador. Considerada do ponto de vista prático, a Teosofia é puramente ética divina. As definições da mesma encontradas nos dicionários são puros desatinos, baseados em preconceitos religiosos e na ignorância do verdadeiro espírito dos primitivos rosacruzes e filósofos medievais, que se intitulavam teósofos. [A palavra Teosofia não significa Sabedoria de Deus, mas Sabedoria dos Deuses ou Sabedoria Universal. Esta Sabedoria é a verdade interna, oculta e espiritual, que sustenta todas as formas externas da religião e seu pensamento fundamental é a crença de que o Universo é, em sua essência, espiritual; que o homem é um ser espiritual em estado de evolução e desenvolvimento e que a humanidade pode progredir na via da evolução através do exercício físico, mental, espiritual adequados, fazendo-a desenvolver as faculdades e os poderes que a tornarão capaz de ultrapassar o véu externo do que é chamado de matéria e passar a ter relações conscientes com a Realidade fundamental. A grande idéia, que serve de base para a Teosofia, é a Fraternidade universal e esta se encontra fundamentada na unidade espiritual do homem. A teosofia é de uma só vez ciência, filosofia e religião e sua expressão externa é a Sociedade Teosófica. (Pequeno Glossário de Termos Teosóficos de A. Besant e H. Burrows.)

Opostamente ao que muitos acreditam, a Teosofia não é uma nova religião; é, por assim dizer, a síntese de todas as religiões, o corpo de verdades que constitui a base de todas elas. A Teosofia, em sua modalidade atual, surgiu no mundo no ano de 1875, porém é em si mesma tão antiga quanto a humanidade civilizada e pensadora. Foi conhecida por diversos nomes, que têm o mesmo significado, tais como Brahma-vidyâ (Sabedoria Divina), Para-vidyâ (Sabedoria Suprema) etc. O motivo especial de sua nova proclamação em nossos dias foram os rápidos e perniciosos progressos do materialismo nas nações propulsoras da civilização mundial. Por esta razão, os Guardiães da Humanidade acharam oportuno proclamar as antigas verdades numa nova forma adaptada à atitude e ao desenvolvimento mental dos homens da época e, assim como antes foram reveladas uma após outra as religiões, segundo a passagem de um a outro desenvolvimento nacional, assim, em nossos dias, as bases fundamentais de todas as religiões tornaram a ser proclamadas, de modo que, sem privar nenhum país das vantagens especiais que sua fé lhe proporciona, se deixará de ver que todas as religiões têm o mesmo significado e que são ramos de uma mesma árvore.

A Teosofia apresenta-se, além disso, como base de filosofia de vida, porque possui vastíssimos conhecimentos sobre as grandes Hierarquias que preenchem o espaço; dos agentes visíveis e invisíveis que nos rodeiam; da evolução ou reencarnação, através de cuja virtude o mundo progride; da lei da causalidade ou da ação e reação, chamada Karma; dos diversos mundos em que o homem vive, semeia e colhe, etc., etc., conhecimentos que resolvem, do modo mais racional e satisfatório, os árduos enigmas da vida, que sempre conturbaram o cérebro dos pensadores com desalento de seu coração. No campo da ciência, abre novos caminhos ao conhecimento. A Teosofia explica a vida, justifica as diferenças sociais entre os homens e indica o meio para se retirar novos fatos do inesgotável armazém da Natureza. A Teosofia fornece também normas fundamentais de conduta aplicáveis à vida humana e levanta grandes ideais, que comovem o pensamento e o sentimento, para pouco a pouco redimir a humanidade da miséria, da aflição e do pecado, que são frutos da ignorância causa de todo mal. A dor e a miséria desaparecerão completamente de nossa vida, quando soubermos trocar a ignorância pelo conhecimento. Ante à Sabedoria nossas tribulações se desvanecerão, porque o gozo é peculiar e inerente à natureza íntima de que todos dela procedemos e a ela temos de voltar. A Teosofia, finalmente, não impõe qualquer dogma, nem força ninguém a acreditar cegamente nas verdades que ensina, mas faz outra coisa imensamente melhor: coloca o homem disposto a isso em condições de perceber diretamente, por si mesmo, tais verdades através do desenvolvimento de sua natureza espiritual e, com ela, o desenvolvimento de certas faculdades internas latentes na generalidade da espécie humana, que lhe permitem conhecer o mundo espiritual e as relações do homem com a Divindade. Pelo conhecimento íntimo de si mesmo, o homem se torna capaz de conhecer a Vida universal e suprema, uma vez que o Espírito humano é uma parte do Espírito universal (DEUS).

Terminaremos este verbete com a descrição do SELO DA SOCIEDADE TEOSÓFICA. O duplo triângulo que contém a Tau ou cruz egípcia é o símbolo do Universo ou Macrocosmo, a manifestação da Divindade no tempo e no espaço, o Um desdobrando-se na dualidade de Espírito e Matéria. Os triângulos estão entrelaçados para indicar a unidade inseparável e são dois para significar o Espírito e a Matéria, Pai e Mãe. O triângulo que tem o vértice voltado para cima é o do fogo ou Espírito; aquele que tem o vértice voltado para baixo é o da água ou Matéria. Além disso, cada triângulo com seus três lados e três ângulos simboliza a natureza trina do que representa. A triplicidade do triângulo de fogo significa: Existência, Conhecimento e Felicidade ou Atividade, Sabedoria e Vontade ou Criação, Conservação e Libertação. Os lados são iguais porque “nesta trindade ninguém é superior ou inferior, nem maior nem menor do que o outro”, porque todos são igualmente imanentes em sua natureza e igualmente onipresentes. A triplicidade do triângulo da água simboliza as três qualidades características essenciais da Matéria: Inércia, Mobilidade e Ritmo (ou vibração). Os doze lados iguais formados pelo cruzamento das linhas da figura consideradas em conjunto, representam os “doze grandes deuses” da Cabala e outras religiões antigas, os doze signos do Zodíaco, os doze meses do ano. Muito mais poderia ser dito a respeito do significado do emblema. A cruz ansata ou Tau encerrada no duplo triângulo é o símbolo do Espírito que desceu na matéria e nela está crucificado, porém que ressuscitou da morte e permanece triunfante nos braços do vitimário já vencido e, por isso, é chamada de “Cruz de Vida” e é símbolo de Ressurreição. Nas pinturas egípcias podemos ver que esta cruz era aplicada sobre os lábios da múmia, quando a Alma voltava ao corpo. A cruz ígnea, em cotovelo ou Svástika é o símbolo da energia vertiginosa que cria um Universo, “Abrindo buracos no espaço” ou, dizendo em forma menos poética, formando os torvelinhos ou átomos para a construção dos mundos. A serpente que morde a própria cauda é o antigo emblema da Eternidade, o círculo sem princípio nem fim, no qual crescem e morrem, surgem e desaparecem todos os universos. Tal é, em poucas palavras, o simbolismo do Selo da Sociedade Teosófica; numa combinação engenhosa, resume as verdades da Teosofia. Coroando este Selo figura, em caracteres sânscritos, o sagrado monossílabo OM ou AUM e ao redor do mesmo o lema do Maharâja de Benares: Satyât nâsti paro Dharma (“Não há religião mais elevada do que a Verdade”). (Extratos do folheto O que é a Teosofia? E de outras obras de A. Besant.)

Fonte: http://teosofia.wordpress.com

Versão online do Glossário Teosófico (em inglês e espanhol): http://www.levir.com.br/gloss.php

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Cristianismo esotérico

O cristianismo esotérico é o conjunto de ensinamentos conhecidos como a parte mais profundamente mística do cristianismo. É ensinado em escolas de mistérios e é, por sua natureza, um segmento minoritário, não se dirigindo às massas e nem fazendo propaganda de suas doutrinas. A este ramo pertencem o gnosticismo, o martinismo e algumas linhagens do rosacrucianismo, para citar as tradições de maior destaque.

Historicamente, a tradição cristã esotérica derivou-se dos ensinamentos da ordem dos Essênios, na Palestina. Esta ordem, extremamente discreta, sequer é mencionada nos Evangelhos, pois evitavam qualquer referência aos seus métodos de estudo e devoção. Jesus teria sido iniciado nessa ordem e alcançado um elevadíssimo grau de desenvolvimento espiritual. É possível que sua educação tenha sido conduzida pelos Essênios Nazarenos de Monte Carmelo, na Galiléia, até cerca de trina anos de idade, quando, devidamente preparado, começou Seu ministério.

As bases do cristianismo esotérico se diferenciam dentro da comunidade cristã especialmente pelo fato de a reencarnação e o evolucionismo constituirem seus pontos-chave. Em semelhança com as demais vertentes cristãs, a Bíblia e os Evangelhos são fontes de autoridade dos mistérios de Deus, mas a Bíblia não é considerada infalível e nem deve ser interpretada de forma literal. Outras escrituras que não foram incluídas na Bíblia também são amplamente consideradas, como os evangelhos apócrifos. Cristo é o líder da humanidade, e como Deus, é uma centelha dentro de cada forma vivente (o chamado "Cristo Interno"). No cristianismo esotérico não há a idéia de "céu" ou "inferno", a não ser de maneira simbólica. Cada ser humano é responsável por suas ações - boas ou más - e colhe os frutos destas ações, ao longo de suas vidas. O processo de reencarnação é a oportunidade que todos têm para se aperfeiçoar até conquistar a sua salvação. Neste aspecto, a doutrina cristã esotérica aproxima-se das filosofias orientais e seu conceito de karma e busca da iluminação.

As instruções das escolas cristãs esotéricas não são dadas em igrejas. Também não há padres, pastores ou outro tipo de hierarquia ou sacramentos. A educação é ministrada através de instrutores, que em um devido tempo, e de acordo com a evolução pessoal do discípulo, o conduzem à iniciações, que também não é um processo físico, e sim espiritual e interior. Há iniciações menores e iniciações maiores. Estas últimas são as mais difíceis de serem alcançadas, exigindo grande dedicação e auto-conhecimento, e dotam os iniciados de grandes poderes mentais e espirituais. Porém, nem todas as iniciações acontecem em uma mesma encarnação. Muitas etapas levam vários ciclos de nascimento, morte e renascimento para serem completadas e se manifestarem completamente.

Não há proselitismo religioso dentro do cristianismo esotérico. As escolas ensinam que todas as religiões são provenientes de Deus, que as teria apresentado conforme as necessidades espirituais e o nível de evolução de cada povo. Também não existem impedimentos àqueles que desejarem estudar sua doutrina, desde que o façam por livre e espontânea vontade. Não há propaganda, nem assédio a novos estudantes. Ao adentrar uma escola, não há juramentos especiais e todos podem continuar livremente a manter contato com suas religiões e/ou práticas espirituais de origem.

O primeiro registro no ocidente do renascimento das doutrinas cristãs esotéricas foi a obra profundamente mística A Divina Comédia. A partir daí, a filosofia Rosacruz, uma das molas mestras desse ressurgimento, mostrou-se ao mundo, inclusive retomando as antigas práticas de iniciações nos Mistérios. Em seu manifesto Confessio Fraternitatis (1615), afirma: "nós reconhecemo-nos verdadeiramente e sinceramente professar Cristo (...) viciamo-nos na verdadeira Filosofia, levamos uma vida Cristã".

O conjunto filosófico da doutrina - a teosofia cristã clássica - ganharia força através de escritos de filósofos como Jacob Boehme e Robert Fludd, além de alquimistas influenciados pelos escritos herméticos (mantidos em linguagem simbólica, para evitar as perseguições da Igreja Católica, e com chaves de interpretação repassadas apenas aos iniciados). Emanuel Swedenborg teve seus ensinamentos sob a perspectiva cristã esotérica seguidos pela Swedenborgian Church of North America, e o Martinismo surge, a partir das idéias de Louis-Claude de St. Martin, Martines de Pasqually e Jean-Baptist Willermoz. O Martinismo, enquanto tradição iniciática, mantém-se até hoje, ainda que sob diferentes manifestações, derivadas das diferentes perspectivas desses três filósofos, assim como a filosofia Rosacruz agregou outras influências e tradições em si mesma, dando origem a diferentes linhagens. (1) (2) (3) (4) (5) (6) (etc). Além destas escolas de mistérios, instituições como a Igreja Católica Liberal, apesar de manter hierarquia, sacramentos e rituais derivados da Igreja Católica Apostólica Romana, abordam aspectos cristãos esotéricos em seus ensinamentos.

No século XX, filósofos como H. Spencer Lewis, Rudolf Steiner, Max Heindel, Annie Besant, Geoffrey Hodson e Raul Branco, entre outros, nos deixaram obras abrangentes e esclarecedoras sobre os ensinamentos e prática da doutrina cristã esotérica. Mais recentemente, pensadores têm dado continuidade nos estudos nessa área, e alguns ensaios relevantes têm sido produzidos. (a) (b) (c) (d) (etc).

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Jacob Boehme

Por Ir Sephariel*

Jacob Boehme nasceu em 1575 na pequena cidade de Alt Seidenburg, distante uma légua e meia de Gorlitz, na Alemanha. Seus pais, Jacob e Ursula, eram luteranos, simples e honestos. O primeiro emprego do pequeno Jacob foi de pastor de ovelhas em Lands-Krone, uma montanha nos arredores de Gorlitz. A única espécie de educação que teve foi recebida na escola da cidade de Seidenberg, que ficava a uma milha de sua casa. Aos catorze anos apren-deu o ofício de sapateiro. Em seguida, viajou pela Alemanha como artífice, sempre no mesmo ramo. Por volta de 1599, retornou a Gorlitz onde veio a ser um mestre em sua profissão. Ca-sou-se com Katherine Kuntzschmann, com quem teve quatro filhos, a um dos quais ensinou seu ofício.

Relatou a um amigo que, durante o tempo de seu aprendizado, quando seu mes-tre estava ausente, viu entrar na sapataria onde trabalhava, uma figura de aspecto venerável, um estranho vestido de forma simples, querendo comprar um par de sapatos que já havia esco-lhido. Julgando-se incapaz de lidar com vendas, Boehme fez-lhe um preço muito alto, crendo que o estranho recusaria e ele não seria repreendido pelo dono, seu mestre. O comprador, en-tretanto, pagou o preço estipulado e se afastou. Após ter dado alguns passos para fora da ofi-cina, chamou com voz alta e firme: " Jacob! Venha cá! ". O jovem, a princípio assustou-se ao ouvir aquele desconhecido chamá-lo pelo nome de batismo, depois, decidiu atendê-lo. O foras-teiro, com ar sério mas amável, disse-lhe: "Jacob, você é ainda muito pequeno, mas será grande e se tornará outro homem, e será objeto da admiração de todos. Isto porque é piedoso, crê em Deus e reverencia sua Palavra, acima de tudo. Leia cuidadosamente as Santas Escritu-ras, nas quais encontrará consolo e instrução, pois sofrerá muito; terá de suportar a pobreza, a miséria e as perseguições; mas seja corajoso e perseverante, pois Deus o ama". Em seguida, fixando-o bem nos olhos, apertou-lhe a mão e se foi, sem deixar qualquer indício.

Voltando a si do espanto, Boehme renunciou os prazeres da juventude folgazã e nunca mais abandonou a leitura das Santas Escrituras, tornando-se mais austero e mais atento a todos os seus atos.

Boehme era de natureza humilde, sensível e contemplativa. Além da bíblia, es-tudou as obras de Paracelso e os tratados místicos de kaspar Schwenkfeld e de Valentin Wei-gel. Schwenkfeld e Weigel foram dois teólogos luteranos que romperam com a ortodoxia lute-rana para se dedicarem a uma doutrina mística. O primeiro foi fundador da seita dos Schwenkfelders que posteriormente veio a adotar as idéias de Boehme. Weigel, que havia sido influenciado pelas obras de Eckartausen, Teuler, Paracelso e do pseudo Dionísio, divulgava uma doutrina gnóstica de caráter panteísta.

Desde cedo, Jacob Boehme entregara-se à crença em Deus com toda a simplici-dade e humildade de seu coração. Ao mesmo tempo em que era combatido, lutava, inconfor-mado, porque os outros não podiam conhecer a verdade. Seu coração simples solicitava e pro-curava, fervorosamente, praticar e aplicar-se ao amor pela verdadeira piedade, pela virtude, e a levar uma vida reclusa e honesta, privando-se de todos os prazeres da vida social. Por ser isto absolutamente contrário aos costumes de então, ele adquiriu vários inimigos.

Depois de ganhar a vida com o suor de seu rosto, como um laborioso trabalha-dor, no ano de 1600, quando tinha 25 anos, Boehme sentiu-se envolvido pela luz Divina. Es-tava sentado em seu quarto, quando seus olhos caíram sobre o prato de estanho polido que re-fletia a luz do sol com um esplendor maravilhoso. Isso levou Boehme a um êxtase inesperado e pareceu-lhe que a partir daquele momento podia contemplar as coisas na profundidade de seus fundamentos. Pensou que fosse apenas uma ilusão e, para expulsá-la de sua mente, saiu para o jardim. Mas aí observou que contemplava o verdadeiro coração das coisas, a autêntica grama, a verdadeira harmonia da natureza que havia sentido interiormente. Percebeu a sua essência, uso e propriedades, que lhe eram reveladas através das linhas e formas. Desta maneira compre-endeu toda a criação e mais tarde escreveu um livro sobre os fundamentos daquela revelação, intitulado "De Signatura Rerum". Boehme encontrou alegria no conteúdo daqueles mistérios, voltou para casa e cuidou de sua família, vivendo em paz e silêncio sem revelar a ninguém as coisas que lhe haviam sucedido.

Dez anos mais tarde, no ano de 1610 viu-se novamente invadido por aquela luz. Todavia, aquilo que nas visões anteriores lhe havia aparecido de modo caótico e multifacético, pode agora ser reconhecido como uma unidade, tal como uma harpa em que cada uma de suas cordas fosse, por si só, um instrumento separado, enquanto que o todo constitui a harpa. Agora reconhecia a ordem divina da natureza. Sentiu necessidade de por em palavras o que havia visto, para preservar suas recordações. Descreveu, então, o fato da seguinte maneira:

"Abriu-se para mim um largo portão e em um quarto da hora vi e aprendi mais do que veria e aprenderia em muitos anos de universidade. Por essa razão, estou profunda-mente admirado e dirijo a Deus minhas orações, agradecendo-lhe por isto. Porque vi e com-preendi o Ser dos seres, o Abismo dos abismos e a geração eterna da Santíssima Trindade, o descendente e origem do mundo de todas as criaturas, pela divina sabedoria: Soube e vi por mim mesmo os três mundos, ou seja, o divino (angelical e paradisíaco), o das sombras (que deu origem e natureza ao fogo) e o mundo exterior e visível (sendo à procriação ou o nasci-mento exterior tanto do mundo interior como do espiritual). Vi e conheci toda a essência do trabalho o mal e o bem original e a existência de cada um deles; e também como frutificou com vigor a semente da eternidade. E isso de tal forma que dela fiquei desejoso e rejubilei-me".

Para não esquecer a grande graça que acabara de receber e para não desobede-cer a um mestre tão santo e consolador, decidiu escrever em 1612, embora sua situação, finan-ceira não fosse boa e não possuísse um livro sequer, com exceção da Bíblia. Surgiu então seu primeiro livro: "Die Morgenrotte im Aufgang" (O vermelho Matutino), que foi posteriormente chamado por um de seus seguidores, o Dr. Balthazar Walter, de "Aurora". Este livro não foi mostrado a ninguém, a não ser a um cavalheiro muito conhecido, Karl von Endern, que se en-contrava por acaso em sua casa. Era desejo de Boehme que este livro jamais fosse impresso. Todavia, acabou por ceder à insistência de Endern, e lhe emprestou o livro. Mas este, dese-jando possuir esse tesouro oculto, separou e distribuiu as folhas a alguns amigos que se puse-ram a copiá-lo. Deste modo começaram a correr rumores que acabaram por chegar aos ouvi-dos do pastor de Gorlitz, Gregor Richers. Este, mesmo sem ter lido ou examinado o livro, condenou-o do púlpito quando pregava e, esquecendo completamente a caridade cristã, calu-niou e injuriou seu autor, a ponto de o magistrado de Gorlitz ser forçado a intimar Boehme a comparecer com o manuscrito.

Boehme compareceu, e perante os magistrados recebeu ordem de deixar a ci-dade imediatamente, sem mesmo ver a família e colocar os negócios em ordem. Submeteu-se a essa determinação, porém, desejava saber o que havia de errado com ele. Em resposta o pastor declarou que desejava vê-lo preso e longe da cidade.

Posteriormente, a ordem do magistrado foi revogada e notificaram Boehme de que poderia morar em Gorlitz e trabalhar em sua profissão, contanto que não escrevesse mais sobre assuntos teológicos, acrescentando: "Sutor ne ultra crepidam", isto é "O sapateiro não vai além das sandálias".
Boehme esperou pacientemente que cessassem as denuncias (de 1613 a 1618), o que aconteceu; muito pelo contrário, recrudesceram; mas nem por isso deixou de orar por aqueles que o condenaram. Sentia-se infeliz em seu silêncio forçado. Tempos depois, refe-rindo-se a esse período diria que se comparava a uma semente que, oculta no seio da terra, desenvolvia-se apesar do mau tempo e das tempestades.

Santa e pacientemente, submeterasse ao veredicto que recebera e permaneceu sete anos sem escrever. Entretanto, um novo impulso de seu interior veio despertá-lo. Além disso, pessoas crentes e versadas nas ciências da natureza estimularam-no a continuar sua obra e a "não esconder a lâmpada debaixo da cama". Decidiu-se, então, a recomeçar a escrever e muitas obras surgiram: "Von der Drei Principien Gottliches Wesens" (Os Três Princípios da Natureza de Deus) em 1619; "Vom Dreifachem Lebem des Menchen" (A Vida Tríplice do Homem), "Vierzig Fragen von der Seele" (Quarenta Questões da Alma), "Von der Mens-chwerdug Jesu Christi" (A Encarnação de Jesus Cristo), "Von Sechs Theosophischen Punkten" (Seis Pontos Teosóficos), "Grundlicher Bericht von dem Irdischen und Himmlischen Mysterio" (Relato Metódico do Mistério Terrestre e Celeste) em 1620; "Von der Geburt und Bezei-chnung Aller Wesen" (O Nascimento e a Marca de Todas as Coisas), mais conhecido como "Signatura Rerum", em 1621; "Von der Gnadenwahl" (A Escolha da graça) em 1623; "Betrachtung Gottlicher Offenbarung" (Os Três Princípios da Revelação Divina) e "Der Wegzu Christo" ( O Caminho Para o Cristo) em 1624.

Cada livro que Boehme escreveu marcou nele, segundo suas próprias palavras, o crescimento do "lírio espiritual", ou seja, o amadurecimento da vida, sempre para a Luz do Espírito, o "novo nascimento de Cristo". O "crescimento do lírio" está acontecendo sempre, é a triunfante auto-realização da perfeição de Deus; Boehme via o universo como um grande processo alquímico, uma retorta destilando perpetuamente os metais para transmutá-los em ouro celestial.

O Dr. Balthazar Walter, que fez numerosas viagens durante sua vida, permane-cendo inclusive seis anos entre os árabes, os sírios e os egípcios, para aprender com eles a ver-dadeira sabedoria oculta, sustentava que havia encontrado alguns fragmentos dessa ciência aqui e ali, mas em nenhuma parte ela era tão profunda, tão pura, como a de Jacob Boehme, este homem simples, esta pedra angular rejeitada pelos sábios dialéticos e pelos doutores me-tafísicos da Igreja. Por isso deu-lhe o nome de "Philosophus Teutonicus" (Filósofo Alemão) tanto para distingui-lo das outras nações, como para evidenciar suas eminentes qualidades en-tre seus compatriotas, tendo em vista que fora sempre muito austero em sua conduta e sempre levara uma vida cristã, humilde e resignada.

A morte de Boehme ocorreu em um domingo, 20 de novembro de 1624. Antes de uma hora, Boehme chamou Tobias, seu filho, e perguntou-lhe se não havia escutado uma maravilhosa música. Pediu-lhe, então que abrisse a porta do quarto, para que a canção celestial pudesse ser melhor ouvida. Mais tarde perguntou que horas eram, e quando lhe responderam que o relógio havia soado as duas horas disse: "Ainda não chegou a minha hora, mas dentro de três horas será a minha vez". Depois de uma pausa, falou de novo: "Ó Deus poderoso, salva-me, de acordo com Tua Vontade". E outra vez disse: "Tu Cristo crucificado, tem piedade de mim e leva-me contigo ao teu reino". Deu então, à sua esposa certas instruções com referência a seus livros e outros assuntos temporais, dizendo-lhe também, que ela não sobreviveria por muito tempo (como de fato ocorreu e, despedindo-se de seus filhos, disse: "Agora entrarei no Paraíso". Então pediu a seu filho mais velho, cujos olhos pareciam prender Boehme a seu corpo, que se virasse de costas e, com um profundo suspiro, sua alma abandonou o corpo, indo para a terra à qual pertencia; entrando naquele estado que só é conhecido por aqueles que fizeram da Iniciação, o motivo de sua existência.

* Texto retirado do site Hermanubis

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Budismo e Cristianismo primitivo: Tradições convergentes ou mundos opostos?

Por Raul Branco*

As grandes tradições espirituais de nosso planeta sempre ensinaram que o mundo em que vivemos é uma ilusão, é maya como dizem os hinduístas. Com mais razão ainda, poderíamos dizer que as aparentes diferenças que saltam aos olhos entre o budismo e o cristianismo são também uma ilusão. Na verdade, estas duas grandes tradições do oriente e do ocidente têm muito mais em comum do que suas aparentes diferenças sugerem. Quando estudamos mais a fundo estas tradições verificamos que por trás de suas nomenclaturas díspares e enfoques radicalmente opostos existem mais convergências e semelhanças do que contradições.

O primeiro passo, porém, em todo estudo comparativo é deixarmos bem claro o que estamos comparando. Assim, que vertentes, ou escolas destas duas tradições estamos comparando? De um lado o Budismo Mahayana - também conhecido como o Grande Veículo. Da mesma forma que Jesus transmitiu vários níveis de ensinamentos para diferentes grupos de pessoas, assim também o fez o senhor Buda. Estaremos comparando o Budismo Mahayana com o Cristianismo Primitivo ou Gnosticismo, que foi a continuação natural do Ministério de Jesus. O Cristianismo Primitivo recebeu um grande baque, no início do século quatro, com a transformação do cristianismo em religião oficial do Império Romano. A partir de então os objetivos temporais suplantaram os espirituais e o ensinamento original de Jesus foi perdendo sua importância relativa à medida em que a hierarquia clerical dominante foi tomando mais força do que a assembléia dos praticantes, a verdadeira igreja. A nova Igreja passou a enfatizar dogmas, credos e rituais externos, estabelecidos com o propósito de consolidar seus objetivos temporais, criando com isto toda uma série de distorções na doutrina e prática legadas por Jesus. O budismo, por sua vez, também não escapou incólume das influências do clero e de outros fatores externos.

Com as distorções separativistas e materializantes introduzidas ao longo dos séculos na religião budista e mais ainda na cristã, uma comparação entre as versões populares destas duas religiões atuais indicaria mais diferenças do que semelhanças. Lembramos, também que, para a Igreja, o cristianismo não pode ser comparado com o budismo ou qualquer outra religião, porque o cristianismo seria o resultado de uma revelação divina, a única revelação fiel e verdadeira. Portanto, sendo a única religião verdadeira não poderia ser comparada com qualquer outra.

Procuremos ter sempre em mente que estaremos comparando o Cristianismo Primitivo com o Budismo Mahayana. Vejamos os métodos e premissas dessas duas tradições, para que possamos levar adiante essa comparação. O cristianismo é uma religião teísta, ou seja, que se baseia na existência de um Deus. A Deidade é considerada como a criadora de todos os mundos. Por esta razão, o método utilizado no cristianismo, como em todas as religiões teístas, é um método dedutivo. Todas as concepções originam-se necessariamente da Fonte Una e todas as deduções são feitas de cima para baixo, até alcançar o mundo físico e a humanidade.

O budismo, ao contrário, é uma religião não-teísta. Neste ponto poderíamos nos perguntar: mas como o budismo pode ser uma religião se não admite a existência de Deus, já que a palavra religião origina-se do termo latino “religare”, que significa ligar o homem de volta à sua Fonte? A questão é complexa e procuraremos aborda-la sob diferentes ângulos nesta apresentação. Podemos adiantar, porém, que o senhor Buda, com sua imensa sabedoria, teve boas razões para estabelecer toda sua doutrina com um enfoque inteiramente diferente das religiões tradicionais. Em vez de iniciar seu sistema com uma concepção filosófica sobre a origem de toda a manifestação, ou seja, Deus, o senhor Buda usou como premissa básica a observação da realidade da vida dos homens, ou seja, a existência do sofrimento. Com base nessa constatação ele estabeleceu seus ensinamentos, indutivamente, de baixo para cima.

Poderíamos nos perguntar também: se essas duas tradições são convergentes, como se explica que o objetivo último das práticas budistas é alcançar o vazio enquanto do cristianismo primitivo e do gnosticismo, era de alcançar a plenitude. Aparentemente são pólos opostos: vazio x plenitude. Vejamos porém, o que está por trás destas palavras. O budismo prega que as práticas meditativas permitem uma progressiva purificação e controle da mente, até o ponto em que o praticante alcançará a realidade última, que é a contemplação ou vivência do vazio. Se nos deixarmos levar pelo sentido literal das palavras, o vazio é a ausência de tudo. Num certo sentido, este é o significado do vazio. Os budistas explicam, porém, que vazio é a ausência de realidade inerente das coisas. Isto significa que nenhum ser ou objeto tem uma existência inerente por si só. Se nada tem existência inerente por si só, a conclusão é que a existência de qualquer ser ou objeto depende do inter-relacionament o de todas as coisas.

Os gnósticos, ou cristãos primitivos diziam, por sua vez, que o objetivo último de toda prática religiosa é alcançar a plenitude. ‘Pleroma’, ou plenitude é o estado de consciência da totalidade, em que o gnóstico percebe que ele é uno com todos os seres, que faz parte da plenitude do todo. Portanto, a plenitude do todo e o vazio da existência inerente das unidades separadas, nos permite entender que estamos falando da mesma coisa com linguagens diferentes. As duas tradições enfocam a realidade última a partir de pólos opostos. Por trás da terminologia aparentemente contraditória as duas tradições concordam que, em sua essência, o vazio é plenitude.

Uma vez esclarecido o paradoxo, podemos entender porque um grande místico cristão do século passado, Thomas Merton, sugeriu que nenhum homem é uma ilha. Ele valia-se da imagem de que a ilha é um pedaço de terra isolado. Portanto, nenhum homem é isolado em si mesmo. Todo homem faz parte do continente. E qual é a imagem do continente? No continente todos os pedaços de terra se encontram ligados e são interdependentes. Então, no continente existe a totalidade. Explica-se dessa maneira porque vazio e plenitude são, em sua natureza última, a mesma coisa.

Vários estudos comparativos foram feitos sobre as vidas de Gauthama e de Jesus (bem como a de Krishna e de outros grandes seres). Um fato recorrente nestes estudos são os paralelos encontrados nas vidas destes salvadores da humanidade. Quando observamos atentamente esses paralelos, não podemos deixar de concluir que as inúmeras coincidências verificadas não podem ser obra do acaso. Por exemplo, na obra Isis sem Véu de H.P. Blavatsky, é dito que Gautama é filho de um rei e Jesus descende da família real de Davi. Gauthama, é uma encarnação de Vishnu e Jesus, uma encarnação do Espírito Santo. Portanto, os dois são expressões do Divino. Tanto a mãe de Gauthama, Maya, como a de Jesus, Maria, mantiveram-se virgens imaculadas após o nascimento de seu filho. Até mesmo os nomes: Maya e Maria, parecem indicar uma raiz comum que remonta a um passado tão distante que o registro humano não consegue alcançar.

Alguns estudiosos, após investigarem as mais diversas tradições religiosas registradas, verificaram que existem pelo menos dezesseis tradições em que o seu salvador morre crucificado. E nessas dezesseis tradições existem quase todos os paralelos que estamos apresentando aqui. Essa é uma clara indicação de que os paralelos entre as vidas de Jesus, de Gautama e de outros salvadores da humanidade não são coincidências únicas na história. Ao contrário, todas as grandes tradições religiosas oferecem, por meio histórias estilizadas da vida de seu fundador, marcos simbólicos indicativos da Senda espiritual que deve ser trilhada pelos discípulos avançados para que possam tornar-se, eles também, salvadores da humanidade.

Tanto Gautama como Jesus eram dotados do poder de realizar prodígios e efetuar curas milagrosas. A Igreja, mais tarde, durante o período mais negro de sua história na Idade Média, verificando que essas semelhanças não podiam ser negadas, deu mais uma prova de sua miopia e arrogância explicando que as semelhanças eram obra do diabo. O argumento apresentado foi que o diabo, sendo um poderoso arcanjo, tinha visto o que iria acontecer com Jesus mais tarde, e então, para confundir os fiéis, copiou com antecedência todos esses registros históricos de fenômenos excepcionais na vida destes grandes seres.

Explicações diabólicas à parte, o fato, porém, é que existem inúmeros paralelos na vida destes dois grandes seres. Os dois esmagam a cabeça da serpente do fetichismo, mas adotam a serpente como símbolo da sabedoria. A razão para isto é o fato de que em todas as tradições, para que se possa alcançar a realidade última, torna-se necessário o despertar da kundalini. Essa é a força ígnea que se encontra dormente em todos os seres humanos, aparentemente enroscada três vezes e meia, na base da coluna. E é somente com o despertar dessa força telúrica que é possível alcançar a realização última. Daí a sabedoria ser associada com a serpente.

Gautama abole a idolatria e entra em conflito com os brâmanes que detinham o monopólio do ensinamento religioso da tradição hinduísta. Ele divulga os mistérios da unidade e do nirvana, e oferece um método prático e seguro, ao alcance de todas as castas, para se alcançar a libertação. Jesus revela-se contrário à tirania religiosa dos escribas, fariseus e da sinagoga, e revela os mistérios do reino de Deus. As convergências são cada vez mais gritantes. E, finalmente, após a morte, Buda sobe ao Nirvana e Jesus é elevado ao Céu.

Vejamos agora, sob outro prisma, os diferentes níveis de ensinamento. As duas tradições reconhecem três níveis de realização. No nível mais elevado estão aqueles que eram chamados eleitos, ainda que sem um sentido elitista de exclusão. Entre os gnósticos, eles eram conhecidos como pneumáticos, que significa espirituais e, entre os budistas, como árias, ou sejam, os seres sagrados, os seres elevados ou avançados.

O grupo seguinte, os intermediários, eram conhecidos entre os gnósticos como os psíquicos ou religiosos e entre os budistas como os aniatas. E, finalmente, o grupo dos homens comuns, os muitos, na linguagem de Jesus, eram chamados pelos gnósticos, de ílicos ou materiais, e entre os budistas, as pessoas tolas, denominação apropriada, pois aqueles que só estão voltados para os prazeres da vida material imediata, sem nenhum interesse pelo objetivo último da vida, são, certamente, pessoas tolas.

Assim, o ensinamento dos grandes mestres foi estruturado para atender as necessidades desses três grupos de pessoas. Para o povo em geral, para aqueles que estão voltados exclusivamente para a vida neste mundo, a ênfase eram os ensinamentos sobre a ética e a vida diária. Para os homens intermediários, que os gnósticos chamavam de religiosos, eram ensinamentos mais abrangentes sobre a vida e a prática espiritual, sendo esses ensinamentos encontrados nos sutras budistas e nas escrituras cristãs. E é interessante lembrar que esse grupo intermediário, tanto para os budistas como para os cristãos primitivos, eram aqueles que nesta vida, em função de suas decisões, determinações e postura de vida poderiam cair no grupo dos muitos, os materialistas, ou então, elevarem-se e entrar no grupo dos eleitos, daqueles que poderiam vir a ser salvos ou libertos.

E, finalmente, para o grupo dos assim chamados espirituais, os poucos, as duas tradições oferecem ensinamentos sobre o caminho acelerado. O caminho acelerado, com suas naturais exigências de purificação e dedicação, só está aberto a muito poucos. Por exemplo, nos mosteiros budistas, dentre os monges que terminam seu período de formação, cuja extensão depende da escola, são muito poucos aqueles que são convidados a seguir adiante com os estudos e práticas, agora não mais dos sutras, mas dos tantras, no caminho acelerado budista. E, no caso dos gnósticos, as práticas avançadas incluíam os sacramentos. Esses sacramentos originais ministrados por Jesus e mais tarde por seus discípulos eram cinco e não os sete sacramentos atuais da Igreja. Os sacramentos originais eram realmente transformadores, pois equivaliam a iniciações.

Vejamos agora os ensinamentos voltados para o homem comum nas duas tradições. Eles tratavam principalmente de questões relacionadas com a ética. Aqui também vemos grandes convergências, grandes paralelos entre as duas tradições. É interessante notar que a maior parte dos ensinamentos de Jesus sobre a ética, foram coletados na parte do Evangelho que veio a ser chamada de Sermão da Montanha. É possível e até mesmo provável que aqueles ensinamentos tenham sido ministrados em diferentes ocasiões sendo mais tarde apresentados de forma orgânica naquele maravilhoso texto. Um fato curioso é que alguns estudiosos, tendo levado a Bíblia para uma comunidade budista, resolveram testar os mestres dessa comunidade. Leram, então, o Sermão da Montanha, sem dizer a fonte, indicando somente que era o ensinamento de um grande mestre. Os monges budistas, após ouvirem com atenção os três capítulos de Mateus (5, 6 e 7) que compõem a versão mais extensa do Sermão da Montanha, concluíram que o autor era um mestre budista, desconhecido deles, mas certamente um budista. Existe, portanto, uma total afinidade dos budistas para com a ética como foi apresentada no Sermão da Montanha. Entre os budistas, os ensinamentos sobre ética encontram-se em diferentes escrituras, mas talvez no Dhamapada encontra-se a coletânea mais sintética desses ensinamentos.

A questão da ética, sendo básica para todas as religiões, é uma das que oferece um dos maiores escopos para explorarmos os paralelos entre as duas tradições. Só este tema seria suficiente para um artigo ou mesmo um livro, sem contudo esgotar o assunto. Existem quatro passagens do Sermão da Montanha que tratam de homicídio, adultério, falso testemunho e retribuição. Essas passagens correspondem aos preceitos do Buda de não matar, não se apropriar do que não lhe pertença, não ter relações sexuais indevidas, não dizer mentiras e não usar álcool ou drogas.

Como parte de seus ensinamentos sobre a ética, tanto Buda como Jesus, alertaram para o fato de que viriam outros mensageiros com falsos ensinamentos. Por isso, Jesus disse: “Guardai-vos dos falsos profetas que vêm a vós vestidos como ovelhas, mas que por dentro são lobos vorazes.” Existem, portanto, aqueles, na tradição cristã que se dizem mestres, instrutores ou gurus. Mas, quando examinamos com atenção suas ações, vemos que são pessoas egoístas, voltadas para si, fazendo um grande esforço para arrebanhar um grupo de seguidores que venha bancar suas pretensões. Esses são os falsos profetas.

Buda também fez uma alusão, não aos falsos profetas mas aos falsos ascetas. Aqueles que se entregam a práticas ascéticas para purificação, mas que, na verdade, estão movidos pelo orgulho de se apresentar como mais desprendido e mais santo que os outros. Esses dizem em seu íntimo: “não só sou um renunciante mas sou mais renunciante que os outros.” Obviamente esta é uma atitude de orgulho que não reflete o verdadeiro sentido da espiritualidade. E Buda, com sua linguagem incisiva diz: “Por que esse cabelo trançado?” Porque eles trançavam de tal maneira a causar dor ao couro cabeludo. Por que essa roupa de pele de animal?” Com isso o Senhor Buda procurava nos alertar que não é preciso sinais exteriores de ascetismo porque todo o ascetismo é voltado para a purificação. E a purificação que conta não é a purificação do corpo. É a purificação da mente.

Os ensinamentos sobre a ética são dirigidos a todas as pessoas. Ambas tradições dão muita atenção ao amor e à compaixão, ensinando que a compaixão é a pedra fundamental para a vida superior. Apesar desses ensinamentos serem mencionados nos textos básicos das duas tradições, sabemos que a verdadeira compaixão é um ideal elevado que normalmente só é alcançado por discípulos mais avançados. São realmente esses discípulos, aqueles que se voltaram inteiramente para a vida espiritual, que têm sua vida e conduta caracterizadas pelo amor puro. Num patamar ainda mais elevado estão os grandes Mestres, como Gautama e Jesus. Ambos foram impelidos a estabelecer seus ministérios redentores pela Divina Compaixão. Renunciaram a tudo e devotaram sua vida totalmente a ajudar a combalida família humana.

Vale lembrar que agiram com divina sabedoria para alcançar os objetivos da divina compaixão. Estando em perfeita sintonia com o Plano Divino procuraram ensinar os homens a tornarem-se responsáveis por si mesmos. Como o fundamento da vida humana é o livre arbítrio, a salvação não pode ser forçada aos homens. Ela só pode ser indicada. Cada ser humano terá que trilhar cada passo, de livre e espontânea vontade, a longa Senda que leva à libertação. A grande contribuição de nossos salvadores foi a revelação do Caminho, por meio de ensinamentos e de seu exemplo. Portanto, a missão dos grandes Mestres, os Salvadores da humanidade, é colocar à nossa disposição os instrumentos para nossa libertação, na forma de ensinamentos capazes de promover nossa progressiva transformação interior. Com o tempo, essa transformação, equivalente à purificação de nossos veículos inferiores, cria as condições necessárias para alcançarmos finalmente a iluminação, ou seja, o portal para a libertação ou salvação.

Vale a pena lembrar que, para os budistas da tradição mahayana, o voto de bodhichitta constitui o ponto de partida de sua tradição. Esse voto nem sempre é bem entendido pelos não-budistas. Fundamenta-se na compaixão, ou seja, na profunda convicção de que todos os membros da família humana são prisioneiros da roda dos renascimentos, o samsara. Conscientes de que ao longo de nossas inumeráveis existências, os seres que conosco compartilham do samsara poderiam ter sido nossas mães, pais, irmãos, filhos ou amigos próximos que nos cumularam de atenção e cuidados amorosos, e sabendo que nossa capacidade para ajudar os outros é função direta de nossa realização espiritual, decidem fazer o voto de bodhichitta, que é o compromisso de buscar incessantemente a iluminação para o benefício de todos os seres.

Encontramos também na Bíblia indicações de que Jesus era movido pela mesma motivação compassiva. Talvez esta motivação esteja refletida mais claramente na passagem ao final de seu ministério ao retornar dos mortos para terminar a preparação de seus discípulos. Nos últimos momentos de sua vida na Terra, antes de ascender ao Céu, Jesus demonstrou a mesma atitude de compaixão dos lamas budistas avançados, numa expressão equivalente ao voto de bodhichitta dizendo, “Eis que estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos!” Com isto Jesus estava prometendo que, apesar de ter sido alçado a um plano diametralmente oposto das vibrações pesadas da Terra, não iria se afastar da família humana com todas suas misérias e sofrimentos, até que todos tivessem sido salvos, que é o significado da expressão “até a consumação dos séculos, ou até o fim dos tempos”, como é apresentada em outras versões da Bíblia.

Vejamos agora paralelos entre gnosis e sabedoria. As duas tradições insistem que a salvação só ocorre através da gnosis, como era chamada entre os gnósticos, ou da sabedoria, jnana como é referida pelos budistas. O primeiro passo nessa comparação deve ser o entendimento dos conceitos expressos nas duas tradições. Gnosis é uma palavra grega que significa conhecimento. Isto não significa que decorando uma enciclopédia, ou mesmo todos os livros de uma biblioteca, estaríamos adquirindo o “conhecimento” libertador. A gnosis tão desejada pelos cristãos primitivos era um conhecimento interior. Não um conhecimento intelectivo dependente da mente concreta e da memória, mas sim de condições muito especiais, tais como a meditação profunda ou mesmo certos rituais que propiciavam a expansão de consciência e a apreensão direta da verdade. Em suma, a gnosis poderia ser considerada como uma revelação interior. Quando Jesus dizia: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” Ele estava certamente referindo-se à gnosis.

Mas que verdade ou conhecimento é este? Os místicos e sábios de todas as tradições são unânimes em afirmar que a verdade salvadora é o conhecimento interior, ou melhor dito, a vivência interior, de que o homem e Deus são um e o mesmo Ser. A unidade da vida, uma vez experimentada no interior da alma e fixada na consciência do homem, produz uma transformação radical no ser humano. A partir de então ele “sabe” por experiência própria que é imortal e, percebendo a si mesmo como um aspecto inalienável da grandeza infinita de Deus sabe, conseqüentemente, que está salvo.

A essência dos argumentos acima são válidos também para os budistas. O papel central da sabedoria nos ensinamentos de Buda está particularmente explicitado nas paramitas, ou virtudes. Das seis virtudes a última é Jnâna, traduzida normalmente como sabedoria, mas que também significa gnosis, o conhecimento interior. A sabedoria, de acordo com os budista, não é erudição. Não significa conhecer todas as escrituras budistas e poder declamá-las de cor. Sabemos que na época do senhor Buda eram poucos os que sabiam ler e escrever. E eram pouquíssimos os documentos existentes com as escrituras. Então os discípulos, muitas vezes referidos como ouvintes, aprendiam os ensinamentos ouvindo e guardando-os na memória. Este processo de aprendizado era facilitado pelo fato de não terem a mente atulhada de lixo, como temos em nossa civilização atual, bombardeada com todo tipo de informação da televisão, jornais, revistas e agora da internet. Os discípulos de então ouviam os ensinamentos e os gravavam na mente. Eles carregavam sua biblioteca na cabeça.

Apesar dos budistas prezarem o conhecimento de suas escrituras, deixam claro que esta erudição não é sabedoria, mas sim um instrumento facilitador para alcançá-la. A sabedoria, a última das virtudes é a percepção do vazio de todas as coisas, a natureza essencial da mente, o substrato de toda a manifestação. Porém, como vimos anteriormente, o vazio ou ausência da natureza inerente equivale à unidade de todas as coisas. Portanto, a sabedoria para os budistas é o mesmo que gnosis para os cristãos primitivos.

Outro ponto de convergência das duas tradições é a importância da “Lei”. O Dharma, ou lei é a fundamentação do budismo. Eles são conhecidos como os praticantes da lei. Mas o que é a lei para os budistas? E o que é esta grande Lei? É a Lei Divina. É a Lei que rege toda a manifestação. Em virtude do princípio hermético das correspondências (aquilo que está em cima é como aquilo que está embaixo, o que está dentro é semelhante ao que está fora, o pequeno é semelhante ao grande), a grande Lei Universal está refletida na lei que é transmitida aos seres humanos em suas escrituras sagradas, na tradição judaico-cristã a Torá e na tradição budista o Dharma.

Encontramos na tradição cristã primitiva a passagem em Excertos de Teódoto: “Somente o batismo não liberta mas sim, a gnosis, o conhecimento interior de quem somos, o que nos tornamos, onde estamos, para onde vamos. O que é nascimento, o que é renascimento” . Outra passagem bastante conhecida, desta vez da Bíblia, reflete também a tradição gnóstica: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Conhecimento ou gnosis, portanto, é o portal da liberdade.

É dito no budismo que para se alcançar a sabedoria, a jnâna, torna-se necessário a purificação da mente de seus fatores mentais obscurecedores. Os budistas ensinam que para se alcançar a sabedoria ou o vazio, que é a pura percepção da clara luz da mente, temos que retirar primeiramente tudo aquilo que obscurece a mente. O entulho mental é em grande parte conseqüência de nossos condicionamentos na vida terrena, chamados pelos budistas de skhandas. Existe na literatura budista um grande número de referências sobre a purificação da mente. Estes ensinamentos foram, mas tarde codificados e aprofundados pelo grande mestre budista Asangha*, que viveu no século IV de nossa era. A questão do conhecimento e da purificação da mente é tão importante para os budistas que eles desenvolveram uma linha de estudos que chamam de lojong* para tratar exclusivamente do treinamento da mente.

Na literatura cristã, ainda que sua natureza seja inteiramente diferente da budista, algumas referências são feitas ao treinamento da mente, principalmente nas epístolas de Paulo. Porém, a verdadeira importância da purificação da mente para o cristianismo primitivo ficou mascarada pela tradução errônea do termo grego “metanoia” no original grego da Bíblia como “arrependimento” . Por exemplo, numa das primeiras passagens dos evangelhos, João Batista é apresentado pregando: “Arrependei-vos, é chegado o tempo”. Porém, no original em grego, a expressão era derivada de metanóia que tem um significado muito mais amplo do que arrependimento. Significa: modificar os conteúdos mentais para que se possa perceber a verdade; proceder a uma transformação da mente, uma transformação interior. Esse é o verdadeiro sentido de metanóia que foi traduzido na Bíblia como arrependimento.

Como conseqüência dessa distorção bíblica, o cristão ortodoxo tradicional desenvolveu uma atitude de passividade face à vida espiritual, eu preciso me arrepender de meus pecados. Mais tarde os teólogos reforçaram esta atitude com a instituição do sacramento da penitência, melhor conhecido como confissão, que previa o perdão dos pecados para aqueles que os confessassem aos prelados da Igreja. É bem verdade que nem todas as correntes do cristianismo aceitaram a instituição da confissão. Mas a corrente dominante venceu e com isto, na opinião de alguns observadores, criou-se um incentivo à hipocrisia, pois o fiel sabia que depois de pecar bastava correr para a Igreja, confessar-se e assim ter assegurada a sua ‘pureza’. Podemos estar certos que este não era o objetivo de nosso sábio e compassivo Mestre. O que Jesus pregava, e que constituía o cerne dos ensinamentos do cristianismo primitivo, é a modificação interior. É somente quando nós nos transformamos interiormente que podemos alcançar aquele estado de plenitude que é o estado da salvação. Felizmente, foi preservada na Bíblia uma frase lapidar do grande apóstolo Paulo, que parece uma citação de um tratado budista: “E não vos conformeis com esse mundo, mas transformai- vos renovando a vossa mente”. Renovar a mente. É isto que Paulo e Jesus nos ensinaram.

Outro ponto de aparente desencontro, mas de convergência em sua essência, é a questão da vida e da morte nas duas tradições. É necessário viver ou morrer para alcançar a meta, o céu ou nirvana? Para os cristãos ortodoxos de diferentes denominações, o conceito dominante é que só podemos alcançar o céu depois da morte. Por isso muitos padres e pastores gostam de contar uma historia que em suas linhas gerais seria: um ministro de Deus estava pregando na igreja, ou no templo, e aí voltou-se para sua congregação:

- Nós todos amamos Jesus, não amamos?

- Amamos! Responderam em uníssono.

- Então, quem quer ir para o céu?

- Eu! Eu! Todos levantaram a mão.

- E quem é que quer ir para o céu, agora?

- Constrangimento total. Só duas velhinhas muito doentes levantaram a mão timidamente.

Por que essa incongruência entre ideal e prática? A razão dos fieis preferirem sempre postergar para o último momento a suposta ida ao céu deve-se à imagem errônea de que o céu é um lugar que só está ao alcance dos mortos. Obviamente esta é uma concepção totalmente errônea porque o céu não é um lugar. O céu é um estado de consciência. É o estado de consciência da unidade com a fonte da vida e com todas as outras expressões desta vida. Este estado de consciência já foi atingido por milhares de místicos e iogues de diferentes tradições ao longo dos séculos. Apesar de existirem diferentes níveis para este estado de transcendência, todos eles podem ser alcançados durante a vida terrena. Os gnósticos e os cristãos primitivos, conhecendo os ‘mistérios do reino’, estavam cientes de que a “salvação” era alcançada neste mundo, sendo nossas conquistas obtidas enquanto no corpo físico estendidas para os estados fora do corpo.

Os budistas, porém, sempre souberam que viver num corpo físico é indispensável para se alcançar a iluminação. O corpo deve ser considerado como um veículo a ser usado para nossa jornada rumo ao Nirvana e, portanto, deve ser devidamente cuidado. Para isto o Buda recomendou a ascese, ou seja, práticas espirituais visando a purificação. Só que, não com aquele extremo rigor de virtual tortura do corpo que os antigos ascetas da tradição hindu faziam. Chegavam até enfiar pregos na mão e em outras partes do corpo, dormir como os faquires em camas de pregos e outras práticas chocantes para nossa cultura ocidental. O Buda disse que nada disso é necessário, sendo mesmo contraproducente. Devemos cuidar do corpo com esmero e atenção mas sem ir para o outro extremo. Daí Buda falar no caminho do meio. Nem a licenciosidade de uma vida de prazeres mundanos, nem tampouco um ascetismo exacerbado que prejudica o corpo. Devemos tratar o corpo como se ele fosse nosso animal de serviço. Devemos alimentá-lo bem mas não a ponto dele ficar muito gordo e não poder trabalhar direito. Por outro lado não podemos deixar de alimenta-lo o suficiente a ponto de emagrecer e não ter mais força para trabalhar. Então a alimentação e todo o cuidado do corpo deve ser efetuado com o objetivo de prestar serviço para o verdadeiro senhor do corpo que é a alma, ou o continuum mental na concepção budista.

Parte da atitude de medo e rejeição da morte entre os cristãos deve-se ao mal entendimento de algumas passagens da Bíblia, como por exemplo: “Quem ama a sua vida a perde. E quem odeia a sua vida nesse mundo, guarda-la-á para a vida eterna”. “Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só. Mas se morrer produzirá muito fruto”. Numa primeira leitura, uma leitura literal que não nos leva muito longe no entendimento da mensagem bíblica, poderíamos pensar, “não gosto disto; está dizendo que temos que morrer, temos que cair na terra e morrer para dar fruto”. Mas esta não é em absoluto a mensagem que o Salvador nos legou. A renúncia é que está sendo expressa através dessas passagens. Devemos renunciar ao mundo e não continuar a viver como se este mundo e seu prazeres fossem o objetivo último de nossa vida.

Outra área de semelhanças entre as duas tradições é a organização e atuação das Ordens Monásticas. Os monges budistas e os discípulos de Jesus foram instruídos para atuar como pregadores itinerantes, mendicantes, vivendo para servir os outros, aceitando o que lhes era oferecido. Jesus inclusive disse para os seus discípulos que eles deveriam visitar todos os lugares para pregar o evangelho. Lembremos que ‘evangelho’ significa “Boa Nova”. Assim, deviam pregar a Boa Nova sem levar dinheiro, roupas e provisões. A razão para isto é que eles deviam se integrar nas comunidades onde fossem pregar e aceitar o óbulo ou hospitalidade que lhes fosse oferecido. Com o passar dos séculos o rigor destas regras foi sendo diminuído. Atualmente, a Ordem dos Franciscanos e dos Trapistas, são as que mais se aproximam das ordens budistas. É curioso observar que nas ordens budistas e nas cristãs os monges devem fazer três votos: de pobreza, castidade e obediência. Só que entre os cristãos, o voto de obediência era para com o chefe da Ordem. Entre os budistas, no entanto, o voto é sempre voltado para o Dharma, isto é, obediência aos ensinamentos do Mestre. Os monges budistas, como seus irmãos cristãos, comprometem- se a divulgar a doutrina libertadora. Porém, eles são extremamente respeitosos para com as pessoas. Ao contrário de seus irmãos cristãos, não tentam converter os outros contra sua vontade. Na verdade, é uma prática budista que quando um monge chega num determinado lugar, ele só fará uma pregação sobre um determinado assunto se for solicitado.

O papel da teologia é outra área de paralelos. Tanto Buda quanto Jesus não estavam preocupados com teologia e dogmas, ao contrário do que parece ser a preocupação daqueles que se dizem herdeiros dessas duas tradições. Mas a preocupação central destes dois grandes seres era com a realidade da vida humana e a libertação do sofrimento. Ambos pregavam que o ser humano deve se dedicar ao supremo bem, sempre imutável e confiável. Jesus chamava esse Bem Supremo de Deus-Pai. E Buda chamava esse bem supremo de Dharma. Vimos anteriormente que o budismo é uma religião não-teísta, mas que os ensinamentos do senhor Buda, o Dharma - que significa Lei - é um reflexo da Lei Maior. Essa Lei Maior, a Lei que rege o universo e toda a manifestação, é uma expressão de Deus. Se meditarmos com atenção, vamos concluir que Deus sendo absolutamente transcendente, uma das poucas maneiras que podemos tentar conhecer a Deus, é conhecer as Leis que regem o nosso universo. Ainda que sem fazer referências a Deus, os mestres budistas procuram fazer exatamente isso.

Agora, uma diferença. Os autores gnósticos usavam mitos cosmogônicos e cosmológicos como instrumentos para suas instruções. A cosmologia tem como objetivo apresentar o processo da criação desde o nível mais sutil, Deus transcendente, até o mais denso, o nosso mundo material, passando por todos os estágios intermediários. A razão para o uso deste método é a instrução sobre a lei dos ciclos, que rege tanto o macrocosmo (o universo) como o microcosmo (o homem). O processo de surgimento, ou emanação, oferece para o buscador da verdade as indicações do caminho de retorno à Fonte, que é o objetivo último de todos os seres. No entanto, como o budismo é uma religião não-teísta, eles não podiam servir-se de cosmogonias como os cristãos.

A natureza do homem é outro paralelo. Tanto os budistas como os cristãos verdadeiros dizem que somos todos Budas, somos todos Cristo. Só que ainda não nos tornamos conscientes de nossa realidade última e, por isso, ainda não alcançamos o estágio da perfeição, a estatura da plenitude do Cristo em nós. Ainda somos Budas, ou Cristos, em estado de semente. Cristo, ou Buda, encontra-se em nosso interior em forma latente. Todo o ensinamento dos Mestres é voltado para fazer com que Buda, ou Cristo, em nosso interior, possa manifestar-se em toda sua plenitude. Por isto o apóstolo Paulo disse: “Não sabeis que sois um templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Co 3:16), e nos urgia a desabrocharmos nossa natureza interior: “Cristo em vós, esperança de glória.” (Cl 1:27).

A natureza de Buda se encontra na mente de cada um. É a pura luz de Rigpa, a natureza essencial da mente. O conhecimento de nossas inúmeras fraquezas dificulta a aceitação da premissa básica de nossa natureza divina. No entanto, podemos valer-nos da imagem do lótus que tem suas raízes no lodo, portanto, na matéria, tem seu caule estendendo-se através da água, portanto, do mundo das emoções, de vibrações geralmente pesadas, mas que abre a sua flor ao sol, no mundo superior do ar, da mente, onde exala o seu perfume. O lótus também tem outra característica muito pertinente para o ser humano. Em cada semente de lótus encontra-se uma miniatura da planta adulta. Nossa vida assemelha-se ao lótus, assentada no lodo da materialidade mas almejando alcançar o alto. Como o lótus, temos também dentro de nós a semente das características divinas que vamos manifestar quando desabrocharmos e alcançarmos nossa plenitude. Na tradição cristã a imagem da semente é utilizada na parábola do grão de mostarda, a menor de todas as semente, que quando cresce torna-se a maior de todas hortaliças dando sombra e abrigo às aves do céu.

Outras semelhanças importantes são as imagens da porta e do caminho. Ambos, Cristo e Buda são descritos como a porta e o caminho. Buda mostra o caminho para a libertação. A tradição budista, porém, afirma que existem oitenta e quatro mil portas. Essas seriam as portas do dharma, constituindo o corpo Dharmakaya. Jesus, por sua vez disse , “Eu Sou a Porta das ovelhas”, “Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por Mim”. Essas passagens devem ser estudadas com atenção porque tendemos a entendê-las de forma literal. Ao dizer, “Eu Sou”, Jesus não estava sendo personalista como sendo o Caminho, a Verdade e a Vida. Conhecedor da tradição cabalista, utilizava a expressão “Eu Sou” para referir-se a Deus. Os judeus, dentre os muitos nomes de Deus, usavam “Eu Sou” como um termo apropriado para transmitir uma idéia da Deidade Suprema. Ao contrário dos homens que vivem no mundo da dualidade e precisam qualificar-se de forma diferenciada dizendo, “eu sou alto, magro, cristão, jovem, advogado, etc”, Deus é simplesmente referido como “Eu Sou”, porque não pode ser qualificado já que expressa a “Seidade” e abrange a totalidade do que foi, é e será.

Reencarnação e carma são também pontos comuns. Apesar da tradição ortodoxa cristã não indicar que a reencarnação faz parte dos ensinamentos de Jesus, podemos identificar várias passagens da Bíblia que se referem à reencarnação. Infelizmente a Bíblia foi muito retocada ao longo dos séculos e muitas passagens foram adulteradas ou simplesmente retiradas quando batiam de frente com os dogmas estabelecidos pela Igreja. Porém, as referências eram tantas que ainda sobraram algumas, dentre as quais a que Jesus diz claramente que João Batista é Elias que havia retornado à Terra. Outras passagens são mais veladas, como a do cego de nascença; perguntam a Jesus quem havia pecado, o cego ou seus pais e o Mestre respondeu que nem o homem (naquela encarnação) nem seus pais, mas que aquilo havia ocorrido para que se cumprisse a lei (a lei de causa e efeito que opera mesmo após uma ou várias encarnações).

Como explicar tanta semelhança entre as duas tradições? Existem várias teorias para isso. Uma é que Jesus teria vivido na Índia dos doze aos trinta anos, onde teria recebido instruções budistas. Pessoalmente não creio que Jesus tenha vivido na Índia. Quem teria vivido na Índia no século I dC. foi Apolônio de Tiana e as estreitas semelhanças entre estes dois personagens históricos têm induzido muitos estudiosos a erro. Por isto muitos acreditam que Jesus viveu na Índia e, tendo recebido ensinamentos budistas, esta seria a explicação para os paralelos entre as duas tradições. Outra teoria é que Jesus teria sido um discípulo do Buda. Na verdade, essa teoria postula que quase todos os seres avançados do mundo teriam sido discípulos do Buda. E Jesus, sendo um Arhat, um ser de grande realização espiritual, podia recuperar os ensinamentos recebidos cinco séculos antes, quando foi discípulo do Buda. Por isso, seus ensinamentos refletem também os ensinamentos de seu mestre, o Buda. Essa é outra teoria.

Uma terceira é que os monges budistas enviados pelo rei Ashoka a várias comunidades do Oriente Médio, tiveram contato com as comunidades essênias para as quais transmitiram o dharma. Mais tarde, Jesus e seus discípulos teriam aprendido a essência dos ensinamentos budistas na comunidade essênia de Qumram. Vários indícios históricos me levam a crer que esse processo realmente ocorreu. Algumas fontes esotéricas indicam que um monge budista avançado teria sido enviado à Palestina nos tempos de Jesus, com a missão específica de contatar a comunidade de Qumram. Esse monge teria levado vários textos budistas para a Palestina, da forma usual naqueles tempos, ou seja, de memória. Esse monge tornou-se um discípulo de Jesus sendo conhecido pelo nome de Tomé. É por essa razão que a tradição cristã indica que um dos discípulos de Jesus, depois da morte do Mestre, foi para a Índia onde converteu muitas pessoas e estabeleceu no sul da Índia, em Madras, uma comunidade do cristianismo primitivo. Cerca de dezesseis séculos mais tarde, quando os missionários católicos e protestantes chegaram à Índia, encontraram essa comunidade cristã firmemente constituída. Temos, então, várias teorias para explicar os paralelos identificados entre as duas tradições.

Estamos certos, porém, que alguns estudiosos vão descartar todas estas teorias argumentando que, mais que teorias elas são fantasias, pois não existem provas concretas para fundamentar nenhuma delas. Mesmo neste caso poderíamos sugerir ainda outra maneira para explicar os paralelos entre as tradições budista e cristã. O argumento seria de que as semelhanças são naturais porque todas as tradições originam-se de uma única fonte. Essa é a religião-sabedoria propalada pela teosofia. O moto da Sociedade Teosófica: “Não há religião superior a verdade,” reflete esta realidade milenar, pois a verdade subjaz a tudo o que é ensinado pelos grandes seres, os instrutores da humanidade. E essa verdade só pode ser uma só. Ela é apresentada com diferentes roupagens para diferentes culturas ao longo do tempo. Porém, à medida que mergulhamos na essência do ensinamento de cada religião, deixando de lado as idiossincrasias separatistas enganosas, percebemos a beleza do ensinamento que une toda a família humana. Assim, não deve ser nenhuma surpresa para nós, verificarmos que existem muito mais convergências entre budismo e cristianismo do que pontos de divergências.

Para encerrar esta apresentação sintética e parcial dos paralelos entre as tradições budista e cristã, gostaria de chamar a atenção para outra convergência que está mascarada por uma aparente divergência gritante entre budismo e cristianismo. Trata-se da aparente oposição entre prática ativa e fé passiva. Para os budistas, a prática dos ensinamentos é tão fundamental que eles gostam de chamar a si mesmos de praticantes, mais especificamente, de praticantes do dharma. Os cristãos, por sua vez, orgulham-se de ser conhecidos como crentes ou fiéis. Sua característica religiosa fundamental seria a crença em Jesus, ou mais especificamente, no dogma de que Jesus é o Filho unigênito de Deus Pai, que veio ao mundo para morrer na cruz para remir os pecados do mundo. Se observarmos a realidade da vida do cristão comum, chegamos à conclusão de que o cristianismo não dá muita importância às práticas espirituais. A transformação interior, baseada nos ensinamentos e no exemplo de vida de Jesus, não constitui o objeto central da religiosidade cristã, mas sim a atitude de crença nos dogmas e participação nos rituais externos da Igreja, como a ida a missa ou ao templo.

Reiteramos, no entanto, que nossa comparação é com o cristianismo primitivo e não com o cristianismo posterior ao Concílio de Nicéia, no início do quarto século. A atitude das primeiras comunidades cristãs, mais tarde conhecidas como gnósticos, era inteiramente diferente no que diz respeito às práticas espirituais. Vale lembrar que nas primeiras décadas após a morte do Salvador, os discípulos do Mestre eram conhecidos como “seguidores de Jesus” porque procuravam emular o exemplo de vida de Jesus. Portanto, a prática espiritual estava no centro da vida daquelas comunidades, conhecidas pelo termo grego original de eklesia, ou seja, a assembléia dos praticantes. Isto pode ser confirmado por uma passagem que escapou da tesoura dos censores posteriores, numa epístola de Tiago: “Tornai-vos praticantes da Palavra”, ou seja, dos ensinamentos de Jesus, “e não simples ouvintes, enganando-vos a vós mesmos.” Se tivermos a atitude passiva de ouvir a pregação do padre ou pastor no fim de semana sem colocamos em prática em nossa vida diária os ensinamentos nela contidos, não iremos muito longe na vida espiritual.

Uma análise mais aprofundada da Bíblia revela outras passagens em que Jesus ensinava a importância da prática espiritual. Por exemplo: “Pedi e vos será dado. Buscai e achareis. Batei à porta e ela vos será aberta”. Alguns “fieis e crentes” julgam que esta passagem é uma licença do Mestre para pedirmos, no atacado e no varejo, todas as benesses que queremos que Deus nos dê de graça. As comunidades monásticas, para não dizer os místicos e santos, sempre souberam a verdade, ou seja, que a prática espiritual é a essência da verdadeira religiosidade cristã. Ora, como Deus é Espírito temos que pedir, buscar e bater à porta de uma forma espiritual. Como é que nos comunicamos com Deus? Como mostramos nosso amor a Deus? Como nos sintonizamos com Deus? A resposta óbvia é: cumprindo a vontade de Deus, ou seja, agindo como Deus nos ensina através dos seus grandes mensageiros, como Jesus e o senhor Buda. E o objetivo dos ensinamentos de todo grande Mestre é sempre a mudança de vida do ser humano, da vida mundana para a vida responsável voltada para o Alto em busca da perfeição, que é a estatura da plenitude de Cristo.

DEBATES

Pergunta - Eu gostaria de perguntar qual é a visão, na sua perspectiva, do sofrimento nessas duas tradições. Se existe um paralelo, se existe uma semelhança ou existe uma contradição.

Raul - A pedra fundamental do budismo está alicerçada na constatação do senhor Buda de que a vida do homem é caracterizada pelo sofrimento. Esta é a primeira das Quatro Nobres Verdades, o primeiro ensinamento ministrado pelo senhor Buda. O segundo ensinamento foi o Caminho Óctuplo, a via para sair do sofrimento. Estes foram seguidos por inúmeros ensinamentos ao longo de mais de cinqüenta anos de ministério. Porém, todo seu ministério, todos os ensinamentos do senhor Buda foram baseados na constatação de que o fator fundamental da vida do ser humano é o sofrimento.

No cristianismo, como vimos anteriormente, a metodologia adotada foi bem diferente. A do budismo é indutiva, de baixo para cima. A do cristianismo e de todas as religiões teístas, é de cima para baixo. Então, no cristianismo, o sofrimento acaba sendo uma constatação do que espera o ser humano, vivendo de maneira egoísta, sujeito à lei de causa e efeito. Então, tanto a doutrina budista como a doutrina cristã são fundamentadas na essência de todas as leis: a lei de que no universo toda ação gera uma reação. Poderíamos começar na física, com Lavoisier, que constatou, se ainda me lembro corretamente, que todo corpo imerso num líquido gera uma força igual e contrária equivalente ao peso do volume do líquido deslocado. Mas isto nada mais é do que a lei do carma no mundo físico. Os grandes instrutores nos ensinaram que esta lei física também é válida em todos os mundos.

Isto significa que estamos causando sofrimento a nós mesmos, cada vez que nossas ações, palavras e pensamentos causam sofrimentos às outras pessoas. E a magnitude do sofrimento que nos aguarda pode ser aquilatada pela intensidade e freqüência com que causamos sofrimento às pessoas ao nosso redor, principalmente àqueles que estão mais próximas a nós. Tanto causamos sofrimento de forma direta, de mente pensada, como inadvertidamente pela ignorância. Na verdade, a ignorância, nas duas tradições, é tida como a mãe de todos os erros.

Portanto, cada vez que causamos sofrimentos aos outros, estamos colocando em ação a grande lei que vai fazer com que aquele sofrimento volte para nós como um boomerang. Vale lembrar que Jesus incluiu em seus ensinamentos sobre ética no Sermão da Montanha diversas passagens enfatizando o papel da lei de causa e efeito. Uma das passagens mais diretas, declara: “Procurai acertar vossos desentendimentos com os seus irmãos e irmãs enquanto estais com eles no caminho, porque se não sereis lançados na prisão e de lá não saireis até pagardes o último centavo”. Será que Jesus estava se referindo a uma prisão como as que temos em nosso mundo? Podemos estar certos que não; a prisão a que se referia era o corpo físico. Enquanto não pagarmos o último centavo do débito cármico do sofrimento que causamos aos outros, não seremos libertos da prisão do corpo físico, sendo condenados a retornar a este mundo. Podemos concluir, portanto, que ao ensinar sobre a lei de causa e efeito e sobre a metanóia, a mudança dos estados mentais que abre as portas do Reino do Céu, Jesus também levou em consideração o sofrimento em seu ministério, ainda que de uma maneira não tão explícita como o senhor Buda.

Pergunta - Você falou num determinado momento que quando um budista alcança um grau mais elevado, no caso estaria entre os poucos escolhidos, que ele usava os tantras, não é isso? Isto me causa surpresa porque conheci algumas pessoas em Brasília, que disseram, na linguagem deles, que o tantra se referia ao sexo, um ritual de sexo mais do que outra coisa. Inclusive eu vi uma vez uma reportagem com o seguinte título, Tantra, a Yoga do Sexo. E eu vejo muita relação a este respeito com as pessoas que conheço em algumas entidades alternativas, nos encontros que promovem. Portanto, gostaria de entender por que essa relação tão forte. Existe algum fundamento entre tantra e sexo?

Raul - Gostaria de lhe agradecer por essa pergunta. Num certo sentido, só ela valeria esta reunião aqui. Porque é um tema em que existe uma imensa confusão. É mais um exemplo das meias verdades e da desinformação que existe em certas tradições sobre vários assuntos. Em particular, existe grande desinformação sobre o tantra.

Durante a apresentação foi indicado que dos três níveis de realização dos budistas, aqueles que estão mais avançados, os eleitos, que estão capacitados a realizar as práticas mais avançadas, têm acesso aos tantras. Trata-se da tantra yoga, a tradição vajrayana ou dos mantras sagrados. No entanto, vale lembrar que a tradição tântrica é bem mais antiga do que o budismo. Desde a mais remota antiguidade os tantras eram conhecidos dos hindus. Porém, como outros aspectos da tradição hinduísta, os objetivos e práticas do tantra foram sendo progressivamente deturpados e degradados, fazendo com que a parte realmente esotérica do tantra fosse preservada e mantida em segredo por pequenos grupos de iniciados.

Este é um assunto muito delicado. Uma abordagem mais profunda do assunto demandaria um tempo considerável e teria que ser feita por alguém mais capacitado do que eu. Procuraremos, no entanto, elucidar a questão dentro do que me for possível falar sobre o assunto. Tantra também tem a ver com sexo. Tantra é uma tradição antiqüíssima que já fazia parte dos Vedas e era somente colocada à disposição daqueles que estavam preparados para ela. As práticas trântricas têm como seu objetivo primordial a elevação da kundalini. A kundalini, como já dissemos, é a energia telúrica, portanto, a energia do centro da terra que também está dormente na base da coluna, no chakra básico, quase tocando um outro chakra, o chakra sacro.

Com o despertar da kundalini, acende-se o fogo vivo que, entre outras coisas, governa a reprodução, o processo criativo. A energia da kundalini, de polaridade negativa, sobe pelos canais sutis da coluna vertebral até o centro da cabeça onde se encontra com a energia positiva, ou ativa, dos mundos espirituais. A união das duas polaridades de energia gera uma luz sutil de grande intensidade, equivalente no mundo material ao relâmpago. Esse paralelo é especialmente aplicável em virtude da lei das correspondências. Como o que está em cima, é semelhante ao que está embaixo, o relâmpago é uma conseqüência da união repentina da energia positiva acumulada nas nuvens e da negativa na terra, que ocorre quando condições atmosféricas e energéticas muito especiais propiciam este fenômeno.

No ser humano, a energia da kundalini, que se encontra dormente na base da coluna, sobe até o chakra do centro da cabeça causando uma imensa expansão de consciência. Esta expansão, geralmente acompanhada por um grande aumento da capacidade intelectiva e da memória, deve-se à uma considerável ativação do cérebro. Os cientistas sustentam que o homem comum só utiliza uns oito por cento do cérebro. Os gênios usam de dez a doze por cento da capacidade cerebral. Isto significa que, com a subida da kundalini para o centro da cabeça ocorre então a gnosis. O “conhecimento” , ou gnosis, advém da expansão da consciência, intelecto e memória. Esta transformação da capacidade cerebral pode ser ativada por meios espirituais ou por meios mais terrenos.

É sabido que certas práticas sexuais podem ser usadas como um atalho para facilitar o despertar da kundalini. Como essas práticas são verdadeiros atalhos do processo evolutivo, independente do estágio espiritual do praticante, elas são preferidas pelos irmãos da sombra, também conhecidos como da mão esquerda. Conseqüentemente, elas podem gerar uma série de efeitos colaterais seríssimos. Por esta razão não julgo apropriado a divulgação dessas práticas. No entanto elas são conhecidas, como eram conhecidas na Índia antiga, e são praticadas por alguns grupos supostamente esotéricos. O preço pago por esses aventureiros é alto: alguns passam a freqüentar outras dimensões nem sempre agradáveis e ficam loucos, outros retêm parte da kundalini no chacra sacro e tornam-se tarados sexuais, enfim, tornam-se pessoas desequilibradas que acabam perdendo aquela existência e talvez várias vidas, em virtude de terem se deixado levar por práticas da esquerda. Devo dizer, portanto, que existem realmente tantras sexuais que elevam a kundalini e despertam poderes.

A prática dos tantras entre os budistas, no entanto, está estruturada de forma inteiramente diferente. Em primeiro lugar, os postulantes, pelo menos nos mosteiros, são selecionados com grande atenção ao seu estágio espiritual, o que implica, por um lado, em elevada pureza interior e desapego das coisas do mundo e, por outro, no compromisso de buscar a iluminação para o benefício de todos os seres, ou seja o voto de bodhicitta. O tantra budista clássico tem quatro níveis e nem todos os praticantes chegam ao último. As práticas envolvem o uso de visualizações, de utilização do pranayama, que são práticas respiratórias especiais e de certos exercícios de hata-yoga. A literatura budista menciona que, em alguns casos excepcionais, alguns praticantes avançados recebem a sugestão de seu guru para aprofundar o êxtase por meio do que chamam eufemisticamente de mudras, ou seja, de práticas sexuais apropriadas. O que é característico do tantra budista, porém, é o abundante uso da simbologia sexual seja na literatura seja nas mandalas incluindo divindades masculinas em abraços íntimos com suas dakinis.

No cristianismo primitivo, o sacramento mais elevado instituído por Jesus era chamado de Câmara Nupcial. Não pode haver uma simbologia sexual mais clara do que as implicações de uma Câmara Nupcial. Não podemos nos esquecer que estamos tratando da tradição cristã, de um profundo ensinamento de Jesus. Mas isto não é tudo em nossa tradição. Um grande místico cristão belga, Jan Ruysbroeck, escreveu um livro com o título de “Adornos do Casamento Espiritual”. Este é mais um exemplo de como a simbologia sexual sempre acompanhou todas as tradições espirituais, porque o sexo é uma coisa divina, é uma coisa natural. Natural quando é usado de forma natural e, não, deturpado com toda série de conotações que bem conhecemos em nossa cultura.

Portanto, as tradições espirituais sempre usaram a simbologia mais natural possível, que é a união do positivo com o negativo. E, com a união do positivo e do negativo, dentro das condições biológicas ideais, o que ocorre? A fertilização e o posterior nascimento de um novo ser. Esta simbologia é exatamente a simbologia necessária para o entendimento do tantra em que a união da força telúrica com a espiritual, no centro da cabeça, gera um novo ser. O novo homem, o novo Cristo que nasce então. A primeira iniciação é exatamente isso, é o nascimento do Cristo interior. É o resultado da união das energias divinas, positiva e negativa, decorrente da subida da kundalini. Mas, nesta pessoa, o Cristo será ainda um recém nascido; Ele vai ter que crescer e passar por vários estágios de desenvolvimento até tornar-se um homem perfeito, a estatura da plenitude de Cristo. Terá que passar por uma série de subidas da kundalini resultando em progressivas expansões de consciência até que a pessoa possa alcançar um estado de permanente bem-aventuranç a de união com o divino em si mesmo, quando então saberá que todo o poder, sabedoria e amor divinos estão a sua disposição.

Ísis - Eu tenho uma pergunta que espero não ser mal interpretada. Mas é um ponto que certamente faz parte das minhas preocupações e talvez de outras pessoas aqui. Você falou do budismo mahayana completamente existente hoje em dia sob a liderança do Dalai-Lama, que é best-seller de vendas de livros no Brasil, e falou no cristianismo primitivo, não no cristianismo atual. A pergunta é: há um cristianismo primitivo hoje, como nós encontramos no budismo mahayana hoje que pode ser uma fonte de elevação espiritual, como você colocou?

Raul - A Ísis sabe a resposta. Ela está levantando a bola na área para seu companheiro de equipe dar um chute a gol. Então, como nós pertencemos ao mesmo grupo de estudo da tradição cristã, vou agradecer a bola levantada e fazer a minha parte.

Existe um cristianismo primitivo que ainda sobrevive hoje. A partir do início do século IV, quando Constantino, Imperador de Roma, adotou o cristianismo como religião oficial do Império Romano, ele forçou uma simplificação dos ensinamentos de Jesus e das práticas espirituais preconizadas pela Igreja. Lembremo-nos que desde os tempos do ministério de Jesus, havia práticas avançadas, práticas intermediárias e as práticas para os catecúmenos, ou seja, para os principiantes, o povo em geral. Constantino, porém, com sua preocupação política de unificação, exigiu que somente as práticas para o povo, com algumas das práticas para o grupo dos intermediários, fizessem parte da religião oficial do Império Romano.

Aqueles que professavam outros ensinamentos e práticas foram tratados como hereges. O termo herege significa dissidente, mas depois de algum tempo, conotações posteriores fizeram com que o termo passasse a denotar errôneo. Conseqüentemente, o Estado e a Igreja passaram a perseguir os hereges, como perseguiam todos os grupos potencialmente desagregadores do poder imperial; que continuaram a ser perseguidos até bem pouco tempo atrás. Apesar das perseguições sanguinárias que ceifaram milhões de vidas ao longo dos séculos, ainda assim sobraram, aqui e ali, alguns grupos daqueles praticantes mais avançados do cristianismo primitivo. Esses, aprenderam ao custo de muitas vidas, que para a sua sobrevivência tinham que adotar o anonimato e seguir com suas práticas em segredo, como já tinham feito as Escolas dos Profetas, as Escolas dos Mistérios e tantos outros grupos verdadeiramente esotéricos.

Apesar do zelo eclesiástico na destruição dos textos não canônicos ao longo dos séculos, ainda assim alguns daqueles textos foram preservados. Quis a providência divina que em 1945 fosse encontrado um conjunto de textos condenados pela Igreja, que veio a ser chamado de Biblioteca de Nag Hamadi, o nome da comunidade no Alto Egito onde foram encontrados. Os textos estavam dentro de um grande vaso enterrado numa caverna perto do mosteiro de São Pacômio, no Egito, com documentos escritos em grego e principalmente em copto, a língua do Egito naquela época. A razão deste tesouro literário ter sido enterrado na caverna, ao que tudo indica, foi que, em meados do século IV o bispo de Alexandria, tinha sido informado que em muitos mosteiros ainda eram ministrados ensinamentos gnósticos do cristianismo primitivo baseados em textos mantidos naqueles mosteiros, que eram proibidos pela Igreja. O bispo, mandou então alguns de seus prelados com um destacamento de soldados para cumprir a lei. Ou seja, confiscar todos aqueles escritos que não se conformassem com a ortodoxia e queimá-los. Ao que tudo indica, os monges, informados do que tinha acontecido em outros mosteiros, pegaram seus documentos preciosos e os enterraram dentro de uma jarra bem fechada que sobreviveu dezesseis séculos, sendo finalmente encontrados em meados do século passado.

Assim como os monges do mosteiro de São Pacômio tiveram a preocupação de esconder seus textos, eles também conseguiram esconder suas práticas avançadas, as práticas dos sacramentos. As práticas dos sacramentos esotéricos de cunho iniciático, ministrados por Jesus a seus discípulos avançados, foram preservadas em alguns mosteiro que mantinham poucos contatos com a população local e menos ainda com a hierarquia clerical. Quando começamos a estudar com mais atenção o cristianismo esotérico, podemos perceber que, aqui e ali, alguns padres e monges estão dizendo coisas que diferem da ortodoxia. Cada vez mais encontramos membros do clero com a mente mais aberta, aceitando conceitos inovadores como reencarnação e meditação.

Como podemos explicar isso? Tudo nos leva a crer que em certos grupamentos religiosos, principalmente mosteiros, as tradições do cristianismo primitivo foram mantidas. Mas é lógico que ao longo de vinte séculos muito foi perdido. Dentre esses centros destacam-se os mosteiros de Monte Atos. Monte Atos é uma pequena comunidade autônoma da Igreja Ortodoxa Grega, situada numa península no norte da Grécia. Monte Atos permanece há muitos séculos como uma entidade política separada. Por esta razão, os monges de Monte Atos, puderam manter, com muita cautela, suas práticas do cristianismo primitivo. Um estudioso americano, que passou vários anos em diferentes mosteiros de Monte Atos, escreveu um livro sobre as práticas que presenciou naqueles mosteiros, com o título sugestivo de “Um Cristianismo Diferente”.

Pergunta - Quais são os cinco sacramentos?

Raul - Os cinco sacramentos, como foram estabelecidos por Jesus e apresentados no Evangelho de Felipe, são: Batismo, Crisma, Eucaristia, Redenção e Câmara Nupcial. Os três primeiros têm um certo paralelo com os sacramentos como são apresentados hoje em dia pelas igrejas católicas e protestantes. Os outros dois, não.

Pergunta - O senhor se referiu a sofrimentos que nós poderíamos, talvez, consciente ou inconscientemente, causar a outras pessoas. Creio, porém, que os grandes ensinamentos vieram trazer grandes transformações na sociedade e, com certeza, trouxeram também aborrecimentos e até sofrimentos para diversos grupos. Como é que o senhor veria esse sofrimento? Porque o senhor falou do sofrimento que gera sofrimento, no caso, que talvez venha, volte, uma coisa assim. Então, como o senhor veria esse sofrimento que não se faz de propósito, com uma negativa, uma atitude que acha que tem que tomar, que toma em benefício dos seus familiares, por exemplo, mas que venha a causar sofrimento?

Raul - Agora estamos falando da coerência na vida espiritual. Veja só, minha amiga. Sabemos que Jesus e Buda foram instrutores realmente maravilhosos porque Eles viveram os ensinamentos que pregaram. Eles foram inteiramente coerentes com o que ensinavam. O que Eles pregavam Eles faziam. Por outro lado, pelo fato de sermos ainda muito imperfeitos, nós muitas vezes estamos bastante adiantados no conhecimento teórico dos ensinamentos dos Mestres, da realidade da vida, do lado interno da religião, mas ainda somos muito tímidos na prática desses ensinamentos espirituais e religiosos. Por isso, na nossa vida diária, muitas vezes causamos sofrimento àqueles que estão ao nosso redor, porque ainda somos imperfeitos. E a única maneira de nós conseguirmos escapar dessa roda do sofrimento que nós causamos aos outros e, portanto, causamos a nós mesmos, é nos transformarmos. E para nos transformarmos temos os instrumentais das diferentes tradições. Se você for uma budista conscienciosa, se for uma gnóstica conscienciosa, qualquer que seja sua tradição, se você vivenciar de coração os ensinamentos de sua tradição, você gradativamente vai se transformar.

Você conhece o ditado popular que o hábito é uma segunda natureza, não é verdade? Então, nós adquirimos certos hábitos na maneira de falar com as pessoas. Às vezes somos um pouco secos, um pouco ríspidos, não damos atenção, não somos sensíveis às expectativas dos outros. Enfim, toda uma série de hábitos no falar que adquirimos em nosso dia-a-dia causam sofrimento aos outros. Admito que você não faça coisas com a intenção de que “eu vou castigar esse camarada, ah, ele vai ver”, não. Mas em virtude de hábitos errôneos, hábitos que não refletem o amor que já está começando a fluir do nosso coração, vamos continuar causando sofrimento aos outros por algum tempo, até conseguirmos fazer o que o Apóstolo Paulo disse: “não vos conformeis com a vossa atual situação. Transformai- vos pela renovação da vossa mente”. Isto significa que temos que fazer uma transformação interior. Temos que fazer o que Krishnamurti disse, esquecer o passado, mas esquecer no sentido de que o passado está presente em nós através dos nossos condicionamentos. E isso infelizmente é um trabalho de longo prazo. Por mais que a gente queira ser bonzinho e só agir com amor, em virtude dessa bagagem dos condicionamentos, ainda vamos causar sofrimento para os outros, pois a verdadeira transformação é sempre gradual.

* Raul Branco é membro da Sociedade Teosófica e dedica-se ao estudo da tradição cristã e do gnosticismo. É autor dos livros "Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã", "O Poder Transformador do Cristianismo Primitivo" e "Pistis Sofia: Os Mistérios de Jesus".

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