quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Revelação, Inspiração, Observação - Sua abordagem pelo estudante teosófico


Por Annie Besant

Aqueles que assumem com seriedade o estudo da Teosofia não devem ficar satisfeitos com a mera leitura da volumosa literatura Teosófica que foi derramada sobre o mundo durante os séculos passados e continua a fluir em nossos dias. Eles devem, também, se tiverem alguma aptidão interna para esta investigação, preparar-se para desenvolver as faculdades pelas quais podem verificar por si mesmos o que lhes é contado por outros. Mas em todo o caso, muito estudo teórico é desejável antes que se passe para o estudo prático e, na maior parte dos casos, não será possível desenvolver os sentidos mais sutis dentro dos limites da atual encarnação, embora possa ser construído um bom alicerce para este desenvolvimento na próxima. Assim, o estudo teórico deve ocupar uma grande parte do treinamento de cada estudante Teosófico, e sua atitude com relação a este estudo é uma questão de séria importância. O estudante necessita discriminar os livros que lê, e adequar sua atitude ao tipo de livro; deve procurar compreender o que significa Revelação, e o que é Inspiração, sabendo distinguir literatura revelada de literatura inspirada, e, a ambas dos registros de observações.

Algumas escrituras tidas como autorizadas estão por trás de todas as grandes religiões.

O Hinduísmo divide todo conhecimento em dois tipos - o supremo e o inferior. No inferior ele coloca todos os seus livros sagrados juntamente com qualquer outra literatura, com toda ciência, toda instrução; na categoria do supremo, ele coloca apenas o "conhecimento Daquilo através do qual todo o resto é conhecido". Uma vez que o supremo conhecimento é atingido e a iluminação e experimentada, todas as Escrituras passam a ser inúteis. Isso é afirmado com toda clareza e coragem numa conhecida passagem do Bhagavad Gita: "Todos os Vedas são tão úteis para um Brahmane iluminado quanto um reservatório de água num lugar coberto pelas águas". A revelação é inútil para aquele a quem o Ser está revelado.

A condição da liberdade intelectual para os budistas está contida no sábio conselho do seu Instrutor: "Não acreditem em uma coisa dita simplesmente porque é dita, nem em tradições porque vêm sendo transmitidas de um para outro desde a antigüidade; nem em rumores enquanto rumores; nem em escritos de sábios apenas porque foram sábios que os escreveram, nem na mera autoridade de seus próprios instrutores ou mestres. Mas devemos acreditar quando o escrito, a doutrina ou dito, é corroborado pela razão e consciência. Por isso tenho ensinado a vocês a não acreditar apenas por haverem escutado, mas acreditarem quando a crença ocorre a partir de sua própria consciência, e então agirem de acordo com isto e intensamente". Mesmo a revelação, deve ser confrontada com a pedra de toque da razão e da consciência; deve haver uma resposta a ela a partir de dentro, o testemunho interior do Ser, antes que posa ser aceita como verdadeira.

REVELAÇÃO

O que é revelação? É a comunicação, feita por um Ser superior à humanidade, de fatos conhecidos por Ele mas desconhecidos por aqueles a quem ele faz a revelação - fatos que eles não podem perceber pelo exercício dos poderes que desenvolveram até agora. Estes fatos podem ser verificados a qualquer momento por quem haja alcançado o nível do revelador, que pode ser um Avatar, um Rishi, ou o Fundador de uma religião. Eles “falam com autoridade", a autoridade do conhecimento, a única autoridade diante da qual todos os homens sensatos se curvam. Verificamos que estes grandes Seres não escreveram seus próprios ensinamentos; ensinaram mas não fizeram registros. Algum seguidor ou discípulo, talvez depois de muitos anos e mesmo séculos, registrou o que ele ou seus antepassados escutaram por isso, a revelação - quase sem exceção - é inevitavelmente, em alguma medida, colorida, estreitada e distorcida por quem a transcreve.

Qual deve ser a atitude do estudante Teosófico em relação a revelação? Ele deve tratar as escrituras do mundo com reverência, lembrando sua origem, mas não sentir submissão diante de nenhuma delas, sabendo que são transmitidas a ele através de vários canais. Deve usar seu melhor senso crítico, para separar a verdade essencial revelada de todos os acréscimos que podem haver se acumulado ao seu redor. Se já desenvolveu suas qualidades psíquicas mais elevadas, o estudante deve tentar investigar e dist1ngu1r o antigo do moderno e pesqu1sar os registros akáshicos para uma comparação, confirmação ou contradição da revelação tal como ela chegou até suas mãos.

E sem este equipamento externo, muita coisa pode ser feita através do desenvolvimento interno: ele pode desenvolver dentro de si mesmo seus próprios poderes espirituais; pode procurar, em meditação profunda, a verdade que brilha na revelação sob os muitos véus de ignorância e das construções errôneas e purificar de tal modo, sua vida que seus corpos se tornarão translúcidos à luz do espírito dentro dele, iluminando as palavras escritas. O estudante Teosófico deve manter seu julgamento em suspenso diante das pretensões de cada revelação. Ela não é verdadeira para ele até que possa dar-lhe eco na voz de seu espírito, seu mais profundo Ser.

INSPIRAÇÃO

Que é inspiração? É a elevação das faculdades humanas normais por alguma 1nfluênc1a externa através de um grau após outro de poder 1ntelectual, moral e espiritual, até o ponto em que a influência externa pode até mesmo afastar o homem de seu corpo e usar este último para a expressão de outro indivíduo quando o novo possuidor é um Ser de uma estatura que transcende inteiramente o homem, a inspiração pode transformar-se em revelação.

Os graus inferiores de inspiração estão ao alcance da experiência de muitas pessoas. Será que você nunca sentiu, quando escutava alguém cujo poder e conhecimento eram maiores que os seus, que as suas capacidades mentais eram elevadas a um nível mais alto do que o nível que você podia alcançar sem ajuda? Em tais ocasiões você capta aspectos da realidade que até então eram incompreensíveis; você vê plenamente onde antes havia obscuridade; o campo de pensamento se torna iluminado, e os objetos são vistos em relações até então inimagináveis; você sente que você sabe. No dia seguinte você quer compartilhar com um amigo os tesouros que adquiriu, e fracassa: onde está a luz, onde estão as cenas distantes e amplas que seus olhos haviam percorrido? Sua mente mergulhou de novo em seu nível normal; a inspiração passou.

O que ocorre com as faculdades intelectuais ocorre com as faculdades morais. Você havia visto uma beleza desconhecida, havia sentido uma avassaladora admiração pelo elevado e puro: o que aconteceu com o ardor e a intensidade? Você foi elevado para um nível superior ao nível que você pode chegar sem ajuda, mas não obstante, o ideal moral e seu poder foram mostrados a você “na montanha", e o fato de que você já experimentou uma vez o seu poder que a tudo domina o deixará mais suscetível a ele no futuro, e virá o dia em que aquilo que você sentiu quando inspirado por outro se transformará no exercício normal das suas próprias faculdades morais.

Quanto aos graus mais elevados de inspiração, alguns de nós podemos saber o que é estar em presença dos Mestres e sent1r a maravilhosa elevação da Sua presença. Não há necessidade de palavras nem de ensinamento; Sua presença é suficiente.

As faculdades intelectuais e morais daqueles que falaram ou escreveram sob inspiração foram assim estimuladas e erguidas a um nível muito acima do normal. Seus próprios temperamentos e caráteres dão colorido ao que dizem e deixam marcas no que escrevam. Mas escrevem e falam com muito mais nobreza e poder do que fariam sem ajuda. Assim podemos nos elevar a graus cada vez ma1ores de inspiração, até que atingimos o estágio em que a mente e as emoções do homem já não controlam seu corpo, mas este é controlado inteiramente por alguém maior.

Neste ponto a inspiração pode transformar-se em revelação. O processo em que tudo isto ocorre é muito simples. Sabemos que, devido à correlação entre as mudanças na consciência e as vibrações da matéria, cada mudança na onisciência é acompanhada por uma vibração da matéria apropriada pela onisciência e que forma o seu corpo; cada vibração da matéria de um corpo é acompanhada por uma mudança na consciência corporificada. Quando duas ou mais pessoas estão juntas, sendo uma delas mais evoluída que a outra ou outras, a pessoa mais evoluída, pensando, desejando, atuando, estabelece em seus próprios corpos mental, astral e físico, uma serie de vibrações que correspondem às mudanças em sua consciência; estas vibrações causam vibrações similares na matéria mental, astral e física que está entre ela e a pessoa ou pessoas menos avançadas presentes. Estas vibrações na matéria interveniente causam vibrações similares no corpo ou corpos vizinhos. Elas são imediatamente respondidas por mudanças correspondentes na consciência ou consciências corporificadas, e a pessoa ou pessoas colocadas assim en rapport com alguém mais avançado, pensam, desejam e agem a um nível mais elevado do que seria possível por sua própria iniciativa. Será mais fácil para elas responderem uma segunda vez, e assim sucessivamente, até que se estabeleçam permanentemente no nível mais elevado.

Resultados semelhantes podem ser alcançados através da leitura dos escritos daqueles que são mais evoluídos do que nós. Uma série de mudanças similares tem lugar, embora menos poderosamente do que quando estimulados pela presença direta. Além disso, o estudo reverente e determinado pode atrair a atenção do escritor. O conhecimento destas leis terá pouca utilidade para o estudante Teosófico se ele não se aplicar em sua propr1a ajuda e em favor dos outros ao seu redor.

Qual deve ser a atitude do estudante Teosófico em relação ao homem ou livro inspirado? Ele deve ser receptivo, paralisando todas as suas vibrações normais tanto quanto possível, e abrindo toda sua natureza para o impacto e influxo das ondas de vibração que se derramam sobre ele. Mas sua atitude necessitaria ser mais do que receptiva: deveria tentar sintonizar suavemente a si mesmo e cooperar com o influxo das ondas. Ele deveria tentar fortalecer as vibrações simpáticas, de modo que as mudanças correspondentes na consciência fossem tão completas quanto possível. Para isso ele deve fazer fluir, em direção ao Objeto inspirador, seu amor, sua fé, sua completa confiança e auto-entrega, pois só assim ele pode sintonizar seus corpos em harmonia com os corpos do Inspirador. Ele deve, na ocasião, esvaziar-se de suas próprias idéias e sentimentos, atividades, dedicando-se a reproduzir, não a iniciar.

Se você vai ler um dos livros inspirados do mundo - “A Imitação de Cristo”; “Os Versos Áureos de Pitágoras”, “A Luz no Caminho”; “A Voz do Silêncio” - será bom anteceder a leitura com uma oração ou um manta. Então leia uma frase, releia, medite sobre ela. Saboreie-a mentalmente, absorva sua essência, sua vida. Assim o seu corpo sutil se tornará, ao menos parcialmente, sintonizado com o do autor inspirado, e repetindo suas vibrações você estabelecerá em sua consciência as mudanças correspondentes. Os livros inspirados têm um valor incalculável: são passos de uma escada situada entre a terra e céu, uma verdadeira “escada de Jacó" por onde sobem e descem os anjos de Deus.

OBSERVAÇÃO

Ainda há um terceiro tipo de livro que merece a atenção do estudante Teosofico, mas em relação ao qual sua atitude deve ser inteiramente diferente da adotada frente ao que é revelado e inspirado. São livros contendo as observações de estudantes mais avançados, observações de estudantes que estão evoluindo no conhecimento e poder sobre os planos mais sutis, e ainda não alcançaram a estatura de um Homem Perfeito. Há livros escritos por discípulos como "A Doutrina Secreta" e "Budismo Esotérico", que não são registros de observações diretas dos estudantes, mas mais propriamente transcrições dos ensinamentos dos Mestres, nos quais podem aparecer erros de compreensão daqueles ensinamentos. A própria H. P. Blavatsky nos disse que havia, inevitavelmente erros em “A Doutrina Secreta”; e como nós temos lido naquele livro maravilhoso suas próprias descrições de quadros mostrados a ela pelo seu Mestre, há uma abertura para possíveis erros de observação: provavelmente estes não são sérios, na medida em que ela foi cuidadosamente ajudada e supervisionada durante a produção da obra. Estes dois livros se destacam do conjunto de nossa literatura, porque os Mestres participaram diretamente da sua produção.

Os livros de que falo são aqueles escritos por discípulos usando suas próprias faculdades normais, faculdades ainda em curso de evolução: livros que abordam principalmente os planos astral, mental e búdico, a constituição do homem, o passado de indivíduos, nações, raças e mundos. Com relação a estes, é prec1so levar em conta que os estudantes em questão estão em processo de evolução, e as faculdades que eles usaram hoje estão mais desenvolvidas e alcançam planos mais elevados do que há dez ou quinze anos. Qual é a observação verdadeira? Em cada caso o olho dá testemunho verdadeiro daquilo que ele vê. As diferentes condições lhe impõem visões diferentes. Os livros dedicados a observações são inúteis, e até nocivos, quando o estudante Teosófico os trata como revelações ou inspiração ao invés de observações.

Qual deve ser a atitude do estudante Teosófico diante dos livros de observação? Vocês devem assumir a atitude do estudante científico, não do crente. Devem enfoca-los com uma clara inteligência, uma mente sagaz, um intelecto ávido, uma razão ponderada e crítica. Não aceitar como finais observações feitas por outros estudantes, mesmo que estes estudantes estejam usando faculdades que vocês ainda não desenvolveram. Devem aceita-las apenas pelo que são - observações sujeitas à modificação, correção e revisão, e mante-las dentro de uma visão flexível, como hipóteses temporariamente aceitas até que sejam confirmadas ou negadas por observações ulteriores, inclusive as suas próprias. Se elas iluminam obscuridades, se conduzem a uma sã moralidade, pegue-as e use-as; mas nunca deixe que se transformem em grilhões para sua mente nem obstáculos para seu pensamento. Estude estes livros, mas não perca o senso crítico; entenda-os mas deixe seu julgamento em suspenso; estes livros são úteis como auxiliares, mas perigosos como mestres; devem ser estudados, não adorados.

Não devemos aumentar o número já existente daqueles que acreditam cegamente, mas sim o número dos estudantes sóbrios e sensatos, que pac1entemente formam suas própr1as opiniões e educam suas próprias faculdades. Use seu próprio julgamento para cada observação que lhe for submetida; examine-a tão completamente quanto possível; cr1tique-a do modo mais completo possível. Vocês não nos prestam um bom serviço quando transformam estudantes em papas e repetem, como papagaios, afirmações que não sabem se são verdadeiras. Além disso, a crença cega gera o ceticismo igualmente cego.

Já não será tempo de deixarmos de ser crianças e começarmos a ser homens e mulheres, compreendendo a grandeza das nossas oportunidades e a pequenez das nossas realizações? Já não é hora de oferecermos à Verdade a homenagem do estudo em vez da credulidade cega? Estejamos sempre prontos a corrigir uma impressão errada ou observação imperfeita, e a caminhar com olhos abertos e mente alerta, lembrando que o melhor serviço à Verdade é o exame. A Verdade é um sol que brilha com sua própria luz; uma vez visto, não pode ser rejeitado. "Que lutem a Verdade e a falsidade; quem alguma vez viu a Verdade perder uma justa confrontação?"

Do livro "A Doutrina do Coração" de Annie Besant, Ed. Teosófica

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