sexta-feira, 18 de abril de 2008

Introdução ao Sutra do Coração

O Sutra do Coração em sânscrito, escrito em caracteres siddham
(clique para ampliar)


A curta escritura buddhista denominada Sutra do Coração da Sabedoria [...] é um dos textos mais sagrados do buddhismo Mahayana, o buddhismo que originalmente floresceu na Índia, China, Tibete, Japão, Coréia, Mongólia, Vietnã e muitas regiões da Ásia Central, incluindo o que hoje é o Afeganistão. Por mais de dois milênios essa escritura desempenhou um papel extremamente importante na vida religiosa de milhões de buddhistas. Foi memorizada, recitada, estudada e meditada por aqueles que almejavam obter o que o buddhismo Mahayana descreve como a perfeição da sabedoria. Mesmo nos dias atuais, o cântico desse sutra pode der ouvido nos mosteiros tibetanos, onde é recitado no característico tom de voz harmônico grave; em mosteiros zen japoneses, onde o cântico é entoado em sintonia com a batida rítmica de um tambor; e nos templos chineses e vietnamitas, onde é cantado em melodias suaves.

Freqüentemente identificado por seu título abreviado, Sutra do Coração, a interpretação do significado sutil de várias passagens desse texto sagrado produziu numerosos comentários ao longo dos séculos. [...] Historicamente, o Coração da Sabedoria pertence à classe de escrituras buddhistas conhecidas como os Sutras da Perfeição da Sabedoria, os quais o famoso erudito europeu Edward Conze, que dedicou grande parte de sua vida em traduzi-las, sugeriu que tenham sido compostas entre 100 a.C. e 600 d.C. Em nível superficial, as escrituras tratam do tema da perfeição da sabedoria, que enuncia o insight profundo sobre o que os buddhistas chamam vacuidade. [...]

Os comentários também demonstram como o propósito altruístico de atingir o estado de Buddha para o benefício de todos os seres, que é o motivo fundamental da jornada espiritual de um buddhista Mahayana, está profundamente incrustado no significado do Sutra do Coração. Em outras palavras, o tema central dos Sutras da Perfeição da Sabedoria é a união aprofundada de compaixão e sabedoria.

Talvez, para um leitor não familiarizado com a tradição Mahayana, cause perplexidade que um texto como o Sutra do Coração, cuja mensagem tem como cerne uma série de declarações negativas, possa ser uma fonte de inspiração espiritual tão importante para tanta gente. Para dissolver a perplexidade é necessário ter algum entendimento do significado que a linguagem negativa desempenha nas escrituras buddhistas. Desde os primórdios de sua evolução, um dos ensinamentos centrais do buddhismo tem sido conquistar a liberdade de nossa escravidão ao apego, em especial ao apego na crença de algum tipo de realidade duradoura, quer seja no mundo externo ou no mundo interno da existência pessoal.

De acordo com o buddhismo, a fonte de nosso sofrimento repousa em uma tendência profundamente arraigada de nos agarrarmos a realidades duradouras onde elas não existem, em particular de nos agarrarmos a uma noção do eu duradouro. É esse apego que dá origem à disfunção em nossa interação com os outros seres humanos e com o mundo ao nosso redor. Visto que essa tendência está de maneira demasiado enraizada na psique, nada, a não ser uma desconstrução radical de nosso entendimento ingênuo do eu e do mundo, pode nos conduzir à verdadeira liberdade espiritual. A negação categórica da existência intrínseca de todas as coisas, em especial dos cinco agregados pessoais no Sutra do Coração, pode ser entendida não só como uma extensão dessa sabedoria-chave buddhista, mas, de fato, como um exemplo supremo de tal sabedoria. Essa é a chave para a massiva veneração desse pequeno texto no mundo buddhista Mahayana.

Além de ser utilizado na contemplação meditativa da vacuidade, o sutra com freqüência é entoado como meio de superar os vários fatores que impedem o progresso espiritual. [...] A idéia é que muito do que entendemos como sendo obstáculos, na verdade, provém do apego demasiadamente arraigado à nossa própria existência e ao autocentramento que isso produz. Ao refletir em profundidade sobre a natureza essencialmente vazia de todas as coisas, removemos quaisquer apoios para que os assim chamados obstáculos criem raízes dentro de nós. Desse modo, a meditação do Sutra do Coração, é considerada um método poderoso para superar obstáculos.

(Adaptado de A essência do Sutra do Coração: ensinamentos do coração da sabedoria. Dalai Lama, traduzido e editado por Geshe Thubten Jinpa, tradução de Lúcia Brito. São Paulo: Gaia, 2006. Pág. 11-13.)
Fonte: Dharmanet

1 comentários:

Anônimo disse...

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